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A bem da Nação

Conversa fiada – 5ª parte

Resumo da 4ª parte: Na política ecológica dos três R’s, a reutilização é uma fraude completa; a morte de Arafat pode ter na Palestina resultados semelhantes aos que a de Savimbi teve em Angola pois desaparecem as reservas mentais que obstam à efectivação da paz e o desmantelamento dos colonatos judeus da Faixa de Gaza é o outro elemento que pode ser essencial para o relativo apaziguamento do Médio Oriente; a reeleição de Bush II é relativamente indiferente para os não americanos pois nos EUA não há diferenças doutrinárias entre republicanos e democratas. Jornalista: - Será que conseguimos afastar-nos dos muçulmanos? Economista: - Basta querermos. Jornalista: - Acha que no fio da nossa conversa tem cabimento falarmos do Orçamento do Estado? Economista: - Se a nossa conversa segue um fio, então basta que o fio passe por um assunto e é claro que podemos falar dele. Mas quer mesmo falar do Orçamento do Estado? Jornalista: - Não quer? Economista: - Quero, quero. Mas acho muito mais interessante falarmos das GOP’s que dão origem ao Orçamento. Falarmos da consequência sem abordarmos a causa parece estarmos a fazer um fato à medida de um corpo que ninguém mediu. Jornalista: - Como assim? Economista: - O Orçamento é a expressão financeira de um conjunto de projectos por que o Governo opta. O Orçamento é o fato; as GOP’s são o corpo. Deixemos o fato para os alfaiates; nós, os médicos dediquemo-nos ao corpo. Jornalista: - Mas o Orçamento não trata só das GOP’s. Economista: - As Grandes Opções do Plano para um determinado ano – e agora estão na Assembleia da República as destinadas a 2005 – tomam habitualmente em consideração os antecedentes imediatos e, neste caso, temos um breve relato do que transita de 2004 até porque o Governo é da mesma cor que o anterior e tem uma linha de conduta homogénea sem solavancos ideológicos e até com uma clara continuidade na maior parte das políticas; o Orçamento tem que abarcar todas as responsabilidades que a República assumiu ao longo de décadas e décadas e, para além dessas responsabilidades, tem que considerar também aquelas que as novas GOP’s definem. Portanto, o novo facto político relevante é o das GOP’s. É por isso que sugiro que as abordemos e – se houver tempo e paciência – então falemos do Orçamento lá mais para as calendas. Mas com tanta gente a falar dele, o que é que vamos acrescentar? Temo que já esteja tudo dito e que toda a população portuguesa esteja completamente elucidada sobre os méritos e deméritos que ele tem e que todos saibam o que lhe vai suceder na Assembleia da República. Jornalista: - Mas então porque é que nunca se ouve falar das GOP’s e só se fala do Orçamento? Economista: - Mistérios insondáveis pelos comuns relativamente aos elevados raciocínios das eminências . . . Jornalista: - E dá para desvendarmos algum desse mistério? Economista: - Sim, espero que não me peça uma análise de pormenor e que nos fiquemos pelas generalidades. As GOP’s são um documento com mais de 400 páginas e, por isso, parece melhor fazermos uma passagem “à vol d’oiseau”. Jornalista: - Muito bem: por onde começamos? Economista: - “Sans blague”, sugiro que comecemos pelo princípio. Jornalista: - Que trata do quê? Economista: - Da situação económica em Portugal em 2004 e das perspectivas para 2005. Jornalista: - Ocorre-lhe algum comentário em especial sobre essa parte? Economista: - Sim, posso dizer-lhe que a tipificação da situação internacional em 2004 é bastante interessante, no sentido de que tudo terás sido puxado por um motor a dois tempos composto pelos EUA e pela China e com todos os outros países a reboque mas com enormes inércias provocadas por políticas excessivamente austeras para tempos de marasmo. Basta ver logo no primeiro resumo estatístico em que as taxas de crescimento em 2004 dos PIB’s apontam para 4,2% nos EUA, na China uns fantásticos 8,7 enquanto aqui na Europa temos uns miseráveis 1,7 para a Zona Euro e 2% para a UE15. A economia mundial deve fechar o ano com um crescimento de 4,5%. Independentemente da frieza estatística dos números e tanto quanto se pode acreditar em previsões – memo nas de curtíssimo prazo, como estas – o Governo português está aqui logo à partida a dizer a toda a gente que leia este documento: “Atenção, meus Senhores, o Programa de Estabilidade e Crescimento tem que ser revisto porque as consequências estão a ser desastrosas”. É claro que o PEC tem virtudes incontestáveis como essa de pôr um travão ao despesismo dos Estados mas os políticos dão-lhe a volta com acréscimos na tributação em vez de reduzirem as despesas (honra ao Governo francês que já disse “urbi et orbe” que se está nas tintas para o PEC e que se prepara para não cumprir o deficit de 3% nas Contas Públicas porque vai mesmo baixar a carga tributária). Ora se as economias estão em baixa – cíclica, especulativa ou apenas psicológica, não interessa – não é hora de tributar mais quem já se vê aflito para se manter à tona. O que eu acho que o nosso Governo está aqui a dizer é que, mantendo os princípios de política, a rigidez do PEC deve ser amolecida para permitir alguma política keynesiana nesta época mais bisonha. Jornalista: - E fala do preço do petróleo? Economista: - Sim, fala e dá-lhe um valor bastante inferior aos actuais 50 Dólares por barril. Perspectiva para 2005 qualquer coisa como 38,7 Dólares por barril o que – se vier a ser verdade como spot médio anual no próximo ano – exige quebras vultosas nas cotações que, por sua vez, acabariam por baralhar tudo e todos e voltariam a provocar desconfiança. Ou seja, o modelo pode não se aproximar da realidade se se baseia em premissas de menor credibilidade. E eu temo que este seja o caso, com consequências nefastas em todas as previsões para os outros agregados. Jornalista: - E que previsões são essas para 2005? Economista: - Bem, de memória, posso dizer-lhe que se está a prever um crescimento do nosso PIB na ordem dos 2,4% com exportações nos 6,2%. Ora, tivemos um PIB em 2003 com uma taxa de crescimento negativa de 1,2% e em 2004 prevê-se que não feche acima de 1%. Ou seja, o ano de 2004 não foi suficiente para repor a situação de 2002 e quanto às exportações, eu não vejo que elas possam cumprir objectivos tão elevados como os previstos no modelo porque os motores da economia mundial não são destino substancial dos nossos típicos produtos de exportação. Ou seja, o modelo que nos é apresentado pode ter pés de barro. Oxalá que eu me engane; dar-me-ia uma enorme satisfação. Jornalista: - Os EUA não contam para nós? Economista: - Sim, claro que contam. Mas em termos de comércio externo, o que mais exportamos para lá são os famosos “jogos de cama” – não se ria, é o conjunto de lençóis, fronhas, etc. e não isso que Você está a insinuar. Jornalista: - Mas eu não insinuei nada . . . Economista: - Não, claro que não; eu é que imaginei o seu sorriso. Jornalista (com o sorriso estampado na cara): - Mas voltemos às GOP’s. Economista: - Sim, voltemos. Se o modelo estiver errado também não será grande o problema porque andamos há muitos anos com modelos completamente estapafúrdios e ainda existimos. Mas, por exemplo, no Investimento, a célebre Formação Bruta de Capital Fixo, a previsão para 2005 é de um crescimento de 5,2% quando 2004 deve fechar com 2,5% e 2003 teve uma variação de -9,8%. O meu medo não está no erro nesta previsão; está na dúvida sobre se esta variação vai ou não ter alguma componente privada. É que historicamente, temos na Europa uma das mais elevadas taxas de FBCF sobre o PIB e, afinal, continuamos na cepa torta. Porquê? Porque a qualidade do investimento deve ser muito fraca e sem repercussão no crescimento real da nossa Economia. Se se trata de investimento privado, tudo bem; os agentes económicos privados geralmente não se suicidam com investimentos irracionais. O meu medo está na possibilidade de aquele crescimento significar o regresso do Estado como investidor em obras de rentabilidade duvidosa ou mais do que duvidosa. Para além da rentabilidade, mais temo ainda pela utilidade dessas obras já que, afinal, elas acabam por ter um efeito multiplicador muito duvidoso na nossa Economia e vão mais beneficiar as Economias dos países de origem da mão-de-obra imigrante que a elas acorre para substituir os portugueses que já não querem sujar as mãos nas obras. Jornalista: - Mas se o modelo definido para 2005 está errado, o que acha que deve ser feito? Economista: - Eu não vou ao ponto de afirmar que o modelo está errado; limito-me a dizer que não acredito nalgumas premissas. Aliás, já tive a oportunidade de medir a evolução das previsões macroeconómicas para Portugal num determinado ano, partindo das antecipações feitas pelo nosso próprio Governo, pelo Banco de Portugal, pela Comissão Europeia, OCDE e FMI ao longo do ano antecedente (prazo relativamente curto) e acabar por medir desvios da ordem dos 400% e de uma certa variável ter fechado em negativo quando no início todas as previsões para ela eram positivas. Portanto, não nos devemos preocupar muito com os modelos que nos apresentam e devemos, isso sim, ir acompanhando a situação global e distinguindo o fundamental do acessório, o que é real e o que é especulativo. Jornalista: - Mas se não podemos fiar-nos no modelo, fiamo-nos em quê? Economista: - Temos que nos fiar nas nossas próprias capacidades de raciocínio e de síntese, em função do máximo de informação a que queiramos dar credibilidade. Jornalista: - Isso significa que para si nem toda a informação é credível? Economista: - Não sou cliente do “Borda d’Água”, não. Jornalista: - A propósito de água. Vamos fazer um intervalo? Economista: - Sim, vamos interromper um pouco e sugiro que depois do intervalo passemos à apreciação das GOP’s sectoriais. Jornalista: - Combinado. Então até logo. Lisboa, Novembro de 2004 Henrique Salles da Fonseca

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