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A bem da Nação

LIDO COM INTERESSE – 59

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 Título: TEMPERAMENTOS FILOSÓFICOS

 

 

Autor: Peter Sloterdijk

 

Tradutor: João Tiago Proença

 

Editora: EDIÇÕES 70, Lisboa

 

Edição: Fevereiro de 2012

 

 

Já alguma vez lhe aconteceu chegar ao fim da última página de um livro e voltar logo de seguida à primeira? Pois foi o que me aconteceu com este livrinho de apenas 103 páginas de texto. E fiz mesmo mais: reli também o prefácio para ter a certeza de que agora, sim, também ali, havia de saborear coisas que à primeira me pudessem ter escapado.

 

O livro tem um subtítulo que o identifica como «um breviário de Platão a Foucault» e reúne os prefácios que Sloterdijk fez para cada filósofo integrado numa obra algo monumental com os principais textos originais dos 19 Autores bibliografados. Ficaram de fora Heidegger e Adorno cujos herdeiros, detentores dos respectivos direitos, não permitiram a reprodução dos textos seleccionados. Herdeiros também têm temperamento, não só os filósofos.

 

Sem lermos, portanto, a dita obra monumental com os principais textos originais – sem comentários de comentário a comentários – ficamos com uma panorâmica extremamente interessante (e sintética) do pensamento europeu desde alguns séculos antes de Cristo (Platão viveu entre 427 e 347 a.C.) e o pleno século XX (Foucault viveu entre 1926 e 1984).

 

E porque não ouso comentar, limito-me a respigar algumas das frases que chamaram a minha atenção.

 

Platão

(...) a filosofia logo no seu início é inevitavelmente uma iniciação ao grande, ao maior, ao maior que tudo; apresentou-se como escola da síntese universal; ensina a pensar o múltiplo e desmedido numa totalidade boa; é a introdução a uma vida sob um progressivo peso intelectual e moral; julga estar à altura da oportunidade de corresponder à crescente complexidade do mundo e à soberania intensificada de Deus através do esforço constante para alargar as almas; convida a uma mudança para uma nova construção muitíssimo espaçosa para a casa do ser; quer fazer dos seus alunos habitantes de uma Acrópole lógica; desperta neles o impulso para se sentirem em casa nas sete partidas do mundo.  

 

Santo Agostinho

A alma do augustianismo sóbrio está maculada por uma corrupção insanável. Por isso, o trabalho da recordação do bem supremo terminará no conhecimento desesperado de que ela nunca mais pode reencontrar, pelas suas próprias forças, a participação incólume na luz do bem. (...) o amor de Deus já não tem sequer o carácter de uma dedicação que afirma uma simpatia universal e incondicional mas sim o de um indulto fortemente selectivo, condescendente. (...) Na esfera augustiniana, mesmo os mais pios retêm até ao fim razões para duvidar da sua salvação.

 

Descartes

O que foi a Guerra dos Trinta Anos se não o combate de meras verosimilhanças que saltaram dos seminários teológicos para os campos de batalha? (...) Simboliza como ninguém a vitória do engenheiro sobre o teólogo.

 

Leibniz

O universalismo leibniziano significa a (...) sucessão tipológica do mago da Renascença no cientista universal, barroco. (...) conduzir estes impulsos “fáusticos”, cujas formas selvagens desembocavam em charlatanice (...) Onde estava a magia há-de estar a politecnia. (...) Leibniz, o último, o mais brilhante e mais frio dos doutores fáusticos, aplanou o caminho ao cortejo triunfal de uma ciência não fáustica

 

Kant

Civilidade significa pôr-se do lado civil entre filosofia monástica e filosofia civil (...) no sentido do republicanismo erudito (...) em que o homem kantiano é de raiz o companheiro de espécie e, nessa medida, cosmopolita. (...) Exige-se a todo o indivíduo racional que actue não só como membro útil da sua sociedade nacional como também que dê provas igualmente, e sobretudo, como funcionário da espécie dotada de razão. (...) Na sua religião civil os santos hão-de se tornar juristas e os heróis, parlamentares.

 

Fichte

O ofício de pregoeiro foi descoberto e justificado no princípio segundo o qual a aquisição da liberdade significa nada menos do que uma ressurreição dos mortos – daqueles mortos que continuamos a ser enquanto vegetamos na idolatria da realidade exterior. (...) como há-de ser bem sucedido o entendimento entre os vivos que estão bem vivos e os mortos que vão vivendo? Como é que os não alienados se hão-de dirigir aos alienados? (...) não terão os vivos de desesperar sempre dos mortos recalcitrantes? (...) A guerra civil entre o espírito filosófico e o senso comum é uma constante da história cultural da Europa antiga. Mas enquanto os antigos sábios se ocultavam em resignação da massa imutavelmente estúpida, têm os modernos, como iluministas, de passar ao ataque pedagógico. Fichte, o autor da sublime falácia segundo a qual a vida do género humano avança segundo um plano fixo que será alcançado porque deve e tem de ser alcançado.

 

Hegel

Se o espírito mete ombros à tarefa da sua dispersão através dos tempos, é porque só ao longo deles amadurece até ao fim dos tempos e acima do tempo. A nossa afeição ao provisório deve perecer até que tudo se tenha transformado em cinza e saber. (...) poderão intelectos finitos, num qualquer modo enfatuado, estar no fim? Poderão eles, com razões que sejam mais que presunções vaidosas, afirmar de si próprios que eles próprios anunciam e encarnam o fim? (...) Bem pode a maioria dos mortais prender-se ao provisório e vegetar até ao fim da sua existência na obscuridade e na obstinação (...) o reconhecimento de todos por todos estaria formalmente consumado através do acesso de todos ao estatuto da cidadania.

 

Schelling

(...) estava finalmente entre nós alguém que conhecia os segredos de Deus, a falar a partir do absoluto. (...) muitos houve que fitaram as suas peças de bravura com o olhar de lagarto da mediania serena. (...) No grandioso afastamento das grandiosidades impertinentes da razão, dá-se a conhecer a assinatura do pensamento contemporâneo e da filosofia do «ainda não».

 

Marx

Compreender as inspirações marxistas significa debruçar-se sobre a história espectral dos conceitos que, enquanto poder que se tornou Estado, espírito que se tornou técnica e dinheiro que tudo liga, sugam mais do que nunca a vida dos indivíduos. (...) O núcleo da sua crítica da economia política é necromancia.

 

Sartre

Explicável apenas pela sua liberdade, o homem é o ser sem perdão. (...) a Igreja católica foi um asilo para todos aqueles que se viram desprovidos de solo firme. (...) A vanguarda entre os absurdos anónimos que constituem o núcleo da modernidade (...) adquiriu um ponto de apoio sólido em atitudes e na vida talhada à medida da moda.

 

E porque o rol já vai longo, por aqui me fico. Outras frases bem interessantes poderia transcrever mas tiveram que ficar no tinteiro as de Aristóteles, Giordano Bruno, Pascal, Schopenhauer, Kirkegaard, Nietzsche, Husserl, Wittgenstein e Foucault.

 

Quer conhecê-las? Leia o livro completo e não se vai arrepender.

 

Lisboa, 24 de Novembro de 2012

 

 Henrique Salles da Fonseca

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