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A bem da Nação

POSTAIS ILUSTRADOS LXIII

 

 A ECONOMIA DO FUTURO

 

PARTE I

 

A teoria sem a prática de nada vale,

a prática sem a teoria é cega

Vladimir Illich Ulianov

(conhecido por Lenin)

 

Em 8 de Janeiro de 2006, foi publicado no blogue “Quadratura do Círculo” um texto que, agora, passo a transcrever e que, com algum humor, dissertava sobre Economia. O próprio título era, disso, exemplo. Para vos falar da Economia do futuro, se é que a Economia tem futuro, inicio este tema com a transcrição das minhas palavras de então.

 

*******

“Teologia da Economia”

 

Um livro aberto, um crânio e, na estante, a dupla

cavidade de vidro, com a sua armação delgada,

onde um pouco de areia, tirada da eternidade,

realiza o seu trânsito misterioso e sagrado,

exprimindo o tempo...””

Em ”A Montanha Mágica”,

 Thomas Mann


 

Na sequência deste texto, e no contexto, Thomas Mann refere-se, ainda, a improvisações “líricas” que conduzem a uma sequência de associações estranhas.

 

E eis aqui os ingredientes para a elaboração de uma Teologia da Economia.

 

Temos um livro aberto e um crânio; parceria indispensável se viver dentro deste um cérebro filosofal e o livro estiver aberto em Salmos que cantem o Dinheiro, o Poder e o Povo.

 

A ampulheta é o recipiente onde a eternidade, corporizada em areia, percorre o misterioso e o sagrado exprimindo o tempo.

 

Eu escolheria escrever um douto “espremendo o tempo”. Para já não falar de outras espremidinhas que levamos...

Mas eu não sou o Thomas Mann.

 

E tal como ele, não estou a brincar com coisas sérias... Estou aqui, apenas, a fundamentar, uma Teologia, dado que temos uma Trindade (a atrás citada em Salmos) e sobressaem conceitos como misterioso e sagrado que fazem parte da religiosidade das coisas terrenas...

 

Nas improvisações “líricas” eu arranjaria um alguidar de barro bem vermelho e punha lá as ideias do Karl Marx e do Engels, do Adam Smith e do Keynes que misturaria bem com uma grande académica colher de pau, enfeitada de fitas de várias cores.

 

A mistura seria executada (não é executada que eu quero dizer! A língua portuguesa é muito traiçoeira) com movimentos vigorosos.

 

À medida que a papa fosse engrossando (e creio que no estado a que chegámos alguma coisa vai engrossar) eu ia adicionando Trotsky e Estaline, por um lado, Milton Friedman e Galbraith, por outro, e a papa estaria a chegar ao estado de ebulição.

 

Acrescentaria, para dar sabor à coisa, umas pitadas de nazismo e maoismo e um toque subtil de dirigismo soviético e capitalismo. Entretanto, o alguidar já se partiu com o aquecimento desta fervilhante mistura e foi preciso arranjar um plano Marshal para colar os cacos.

 

Isto, são associações, além de estranhas, extremamente perigosas. É que são mesmo muito perigosas quando assimiladas por entes com o crânio embrutecido por sucessivas lavagens ideológicas (ou Teológicas?) e que engolem a primeira papa que se lhes dá.

 

Recordo, só a título de exemplo, uma frase que ouvi dezenas de vezes de um alto dignitário europeu, que, brandindo o punho esquerdo, em reuniões gerais de alunos, afirmava a sua Teologia. “Ousar avançar, lutar e vencer sob a direcção da classe operária”.

 

Santa ingenuidade! Crânios jovens!

 

Mas, enquanto a Utopia vai persistindo no seu caminho, arrebatando sorrateiramente crânios, provinda da sua Mãe, a Dialéctica; daí Heraclito ser avô da Utopia; enquanto, como dizia, a Utopia destrói crânios, com os seus indefectíveis utópicos tecnocratas que entre outras coisas são responsáveis por mimos como a burocracia e a tecnocracia (a Burocracia é irmã gémea da Tecnocracia e não é fácil entender uma sem a outra), ambas são progenitoras da papelada infamante e da teia fiscal opressora em que nos enrodilharam.

 

Sequelas posteriores da Revolução Industrial!

 

Confesso que nesta altura o meu crânio já está baralhado com tanta asneira... Nem sei se ainda o tenho em cima do pescoço.

 

As minhas parcas poupanças vão sendo guilhotinadas com tantos procedimentos teológicos. Procedimentos teológicos? Ah, a Igreja já admite o uso do preservativo em condições específicas.

 

Condições específicas? Aqui está um dos grandes mistérios da Teologia. Mas, voltando à vaca fria, o postmodernismo e o positivismo vão tentando explicar se a parte é um todo ou se, ao contrário, o todo é que é uma parte da parte. É então, neste preciso momento histórico, que se chega à brilhante conclusão também histórica de que “o dinheiro governa o mundo”. E cá está o primeiro elemento da Trindade. O Dinheiro!

 

Já se vão apercebendo do que é a minha Teologia. Por outro lado, do fumo daquela mistura, atrás citada, feita num grande alguidar de barro vermelho, vão saindo pequenas faúlhas de ditaduras e democracias.

 

A Democracia, segundo a Teologia, é o Poder do Povo. Mas, a Ditadura, como prática abjecta que é, não faz parte da Teologia, dado que é só um no Poder a arrogar-se que representa (ilegitimamente) o Povo. Eu diria que se arroga representar apenas o Estado, apesar de o Estado ser apelidado de Ente Público, por muitos Professores de Finanças. E aqui temos o segundo e o terceiro elemento da Teologia, o Poder e o Povo. Creio que ao Povo está destinado o ofício de Santo (não confundir com Santo Ofício). É esta a minha Teologia da Economia. Até fui simpático. Não vos macei com fisiocratas e mercantilismo. Não vos macei com socialismo utópico e científico. Tinha-me imprudentemente esquecido do Vladimir Illitch. Não vos macei com economias puras de mercado, nem com mãos invisíveis. Mãos invisíveis? Imaginem! Protejam os bolsos.

 

Alguns contribuintes (este termo também é usado com outro sentido bem pejorativo) para a Teologia de Economia eram prestidigitadores no Circo Mundial e faziam famosos números de magia com as várias correntes das teorias económicas clássica, neoclássica, moderna, postmoderna, etc... etc... etc...

 

Não vos macei com Pareto; nem com a teoria da ofelimidade. Não vos macei com políticas estruturais ou de conjuntura. Não vos macei com políticas de exportação, sociais, de desenvolvimento, de reinserção, de inserção, de emprego, quiçá, de desemprego; políticas de saúde, de educação, monetárias, fiscais e de preços.

 

Entre outras invenções para nos confundir e chatear.

 

A propósito de política de preços aconselho vivamente o Governo a ler o Leon Walras, entre outros.

 

Perceberam alguma coisa do que eu escrevi? Eu também não.

 

Escrevi esta Teologia só com um intuito, i.e, para que se não sintam infelizes por não perceberem porque é que se consente no aumento trepidante dos preços dos combustíveis em preito de vassalagem ao deus Lucro? Porque é que se fecham escolas e maternidades em nome de uma poupança de um Estado mal organizado e mal estruturado, cujos gastos perdulários deviam ser controlados, comprometendo irremediavelmente as gerações futuras que são os nossos filhos e netos?

 

Porque que é que na sede da economia capitalista mundial, os EUA, os bancos apresentam 15% de lucro, e acham um excelente resultado e aqui neste canto pequenino a Oeste da Europa o lucro apresentado pelos bancos é superior a 30% e acham pouco?

 

A título de exemplo julgo que um dos maiores bancos privados portugueses aumentou os lucros em 44% (um total de 199 milhões de euros de proventos) em relação a igual período de 2005 e para isso contribuiu o facto de ter reduzido as despesas com pessoal em 10%! Quanto às empresas portuguesas, aumentaram largamente, no final do ano passado, os seus depósitos à ordem ou a curto prazo, na banca comercial e de investimento; depósitos esses que já totalizavam 28,4 mil milhões de euros.

 

Então, onde está a crise? Pergunta um amigo meu e conhecido jornalista.

 

A crise está, provavelmente nos nossos bolsos, por via da celebrada Teologia da Economia, segundo este meu Amigo.

 

Isto tudo num país governado por socialistas.

 

Não se sintam infelizes por não perceberem. Comungo da vossa dificuldade; não percebo.

 

É que “eles” de certeza certezinha, também não percebem...

 

Ou então o celebrado socialismo baixou do nível da gaveta (uns 50 cms

acima do solo) para o caixão (uns 7 metros abaixo da terra...)

Quod erat demonstrandum!

 

 

*****

 

Como costuma dizer o Ilustre Proprietário deste blogue, continuemos…

 

 

 Luís Santiago

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