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A bem da Nação

CAFÉ E CACHAÇA *

 

Faz 50 anos que deixei Évora, depois de ter vivido cinco na saudosa Mitra! Até hoje Évora está dentro do meu coração, e ainda a considero a mais bonita cidade de Portugal!

 

Lembro os bailaricos no Lusitano, no Harmonia e o “hotel” onde pagávamos 2$50 para dormir: a estalagem onde ficavam as carroças e mulas, no edifício onde depois foi a Rodoviária! Como se pode imaginar o “quarto do hotel” era qualquer espaço que se encontrasse em cima dum bocado de palha! Saudades? Sim!

 

Aprendi muito nessas terras. Não só na velha Escola de Regentes Agrícolas mas com o povo simples, cheio de sabedoria tradicional.

Não esqueço nunca uma “aula” recebida no Café Arcada! A meio da tarde, o Café quase vazio, entrou um casal, forasteiro, com um casalinho de filhos nos seus quinze anos, e sentaram-se numa mesa perto do balcão do bar. O criado aproximou-se, profissional, e aguardou ordens.

 

O velho Café Arcada antes de ser destruido pelo fogo

 

O pai de família: Eu quero um café. A mãe: P´ró meu marido não pode ser muito forte. O pai: Mas eu quero quente. A mãe: Para mim pode ser forte, mas não muito quente. O garotão: Para mim é forte e quente. A donzela: Para mim fraco e morno.

 

O criado, imperturbável, repetiu tudo, obteve a confirmação dos fregueses e foi ao balcão encomendar os cafés. Registou na máquina enquanto pedia ao colega:

 

- Sai quatro cafés.

 

Eu, sentado ao balcão, ouvi tudo aquilo e fiquei curioso para ver como o criado se desenvencilhava. Pegou nos cafés, colocou na bandeja, dirigiu-se aos clientes, e ar de interpretação da “mercadoria”:

 

- Forte e morno? Para mim. Quente e fraco? Eu. E por aí fora. Todos tomaram os seus cafés “individualizados”!

 

A minha admiração foi grande! Cumprimentei o esplêndido criado, agradeci a “lição” e dei-lhe uma gorjeta no valor de dois cafés: 1$00!

Agora, há já vinte e cinco anos que peregrino pelo Brasil, onde há pouco uma pesquisa feita para o Programa Brasileiro de Desenvolvimento da Aguardente de Cana, concluiu que o imposto que os portugueses impuseram na cachaça serviu para reconstruir Lisboa, arrasada pelo terramoto de 1755 e ainda manter as duas Universidades, em Lisboa e Coimbra.

 

Gravura francesa da época

 

Se isso assim aconteceu considero uma genialidade ter-se conseguido, com tão pouco, fazer tanto!

 

Quem, e onde se bebia essa cachaça toda? No Brasil? E recolhia-se tanto dinheiro assim que deu para reconstruir uma cidade violentamente arrasada por um terramoto? Ou em Portugal, concorrendo com as aguardentes locais, as bagaceiras, os vinhos, a geropiga, os abafados e até o Vinho do Porto?

 

Partindo do pressuposto que era no Brasil o principal consumo, devia por aqui andar tudo bêbado. E o índio que pouco dinheiro tinha, não deve ter contribuído para a reconstrução nem de uma pobre oca, nem os escravos, de uma modesta banza. Sobram os colonos. A beber assim não durariam duas gerações!

 

E quem sustentava as Universidades, se Lisboa consumiu rios de dinheiro para se reconstruir? Que bêbados?

 

Como não parece muito verosímil que tal sustentação fosse baseada no imposto sobre a cachaça, e como também não pretendendo desmentir a resultado da tal pesquisa, por falta de dados, sou levado a concluir que a cachaça deve ter, isso sim, contribuído para levantar o moral dos trabalhadores que reconstruíram Lisboa, dando-se a cada um, por dia, uma boa canada.

 

Nas Universidades, apesar de ser tradicional haver um ou outro professor chegado ao álcool, bem como alguns estudantes que ficaram famosos por terem levado dez e mais anos para concluir os cursos enquanto esvaziavam incontáveis barris, não consta nos anais daquelas venerandas instituições de ensino, que os professores fossem pagos com barris de pinga.

 

Quem sabe se foi por falta de suficiente número de bebedores que o Marquês “se viu obrigado” a fechar a Universidade de Évora? Com a descoberta que esta famosa pesquisa nos proporcionou, deve rever-se toda a história, e talvez não tenha sido por raiva dos jesuítas!

Valha-nos Deus. Já só faltava esta para ainda mais acirrar os ânimos contra os portugueses.

 

Em vez de guerra proponho que levantemos todos um bom copo de cachaça, e nos saudemos TODOS como irmãos. Ou será melhor bebermos um copo do milenar Tinto de Peramanca?

 

 Francisco Gomes de Amorim

 

* Escrito em 30/03/2001 (Há mais de onze anos!)

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