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A bem da Nação

Conversa fiada – 7ª parte



Resumo da 6ª parte: O Ministro da Justiça afirma que a Justiça é um instrumento que impede o desenvolvimento económico mas tudo indica que não tem uma política arrojada de desburocratização do relacionamento das empresas com a Justiça, nomeadamente na área dos registos obrigatórios; a privatização dos Cartórios Notariais é uma solução errada pois é necessário acabar com a obrigatoriedade do registo notarial de inúmeros actos e apontar claramente no sentido do registo único tanto comercial como predial nas Conservatórias respectivas; a revisão do mapa judicial pode ser necessária mas está longe de ser suficiente para desencravar a Justiça portuguesa.


Jornalista: - Então que tal estava o café do intervalo?
Economista: - Estava muito bom; era de um lote com arábica de Timor.
Jornalista: - Pois, pois. Agora já temos outra vez café arábica . . .
Economista: - Nunca deixámos de ter certas variedades de café arábica; não andámos todos estes anos desde 1974 a beber só robusta. A novidade está em que voltámos a beber café de Timor e é precisamente isso que eu saúdo em especial. Aliás, nem sequer tenho os conhecimentos suficientes para afirmar que o café de Timor é melhor ou pior que os arábicas de outras origens. O que eu gosto de saber é que este é de Timor, comprado pelo Senhor Nabeiro numa época crucial para o povo timorense que finalmente passou a vender o café a quem muito bem decidiu fazê-lo em vez de ter que o entregar aos generais indonésios a preços decretados por Jacarta. Espero que tanto o Senhor Nabeiro como os agricultores timorenses tenham ganho dinheiro com esta operação comercial e que o negócio se repita “per saecula saeculorum” em total liberdade das partes negociadoras.
Jornalista: - E acha que a operação se repete?
Economista: - Desconheço totalmente. Não tenho informação sobre se o comprador pretende ou não continuar a comprar café em Timor nem se os timorenses querem continuar a vender café a Portugal mas também não considero que isso seja fundamental. Até pode, talvez, nem ter lógica. Aquela primeira transacção teve um significado muito importante como expressão da inequívoca solidariedade portuguesa para com Timor e da liberdade da agricultura timorense escolher o cliente. É isto que eu considero importante: que compradores e vendedores se possam livremente entender. Se o negócio foi bom, repete-se naturalmente; se não foi, não se repete, naturalmente também. Mas o símbolo da solidariedade e da liberdade já lá está.
Jornalista: - E acha que as relações económicas entre Portugal e Timor se podem desenvolver?
Economista: - Nas trocas comercias directas de bens de consumo corrente, tenho sérias dúvidas por causa da distância e das alternativas geograficamente mais razoáveis; nos investimentos, acredito.
Jornalista: - Investimentos de Timor em Portugal?
Economista: - Isso é possível no plano da teoria mas não vejo que seja esse o caminho mais plausível. Acredito mais nos investimentos de Portugal em Timor, por exemplo no petróleo, no melhoramento da produção de café, etc. Mas isso não significa que os produtos, depois, sejam exportados para Portugal. A lógica geográfica não será essa. Não se esqueça de que estamos a funcionar em plena globalização e, eventualmente, será mais interessante o petróleo timorense ser exportado para o Japão e o café para Singapura ou Nova Zelândia.
Jornalista: - Está a fugir de se referir à Austrália?
Economista: - Creio que Timor continua com alguns problemas de relacionamento com os seus dois vizinhos gigantes que tanto fizeram isolada e conjuntamente para o colonizarem. O trauma japonês de Timor já foi substituído por outros traumas mais recentes.
Jornalista: - Então por que referiu a Nova Zelândia?
Economista: - Porque, à semelhança de Portugal, não é uma potência hegemónica naquela zona do mundo com quem, em princípio, é mais fácil negociar.
Jornalista: - E Portugal é hegemónico em alguma parte do mundo?
Economista: - Ah! sim. Em muitos corações espalhados pelo mundo, em especial os que estão fora dos telejornais portugueses que tanto se empenham em denegrir Portugal.
Jornalista: - Realmente, é lastimável . . .
Economista: - Claro que também não preconizo que só se fale de maravilhas quando há problemas a resolver, à maneira do antigamente nos tempos da censura e das procissões, mas o escarafunchar constante nas feridas abertas e o chafurdar sistemático nos lamaçais é sintomático de quem se compraz no sindroma da carpideira que não foi sublimado pelos netos que, entretanto, aprenderam a ler mas continuam apegados à sórdida morbidez da avozinha masoquista e analfabeta.
Jornalista: - Caramba! Ainda costuma ver telejornais?
Economista: - Por decisão própria, vejo o do Canal 2 e no carro ouço os noticiários da Antena 2. Tem menos faca e alguidar que o resto; em princípio, não são “kitch”. Leio diariamente vários jornais on-line, portugueses e estrangeiros, o que me permite seleccionar o que me interessa e desprezar o que não me interessa.
Jornalista: - Completa liberdade de escolha?
Economista: - Sim, felizmente é nessa que estamos todos. Podemos seleccionar a informação. Há notícias que me parecem pequenas, outras cujo título me basta e outras de cujos títulos até fujo.
Jornalista: - De quais é que foge, por exemplo?
Economista: - Da quinta das celebridades, das facadas, dos futebóis.
Jornalista: - E quais é que lhe parecem pequenas?
Economista: - Normalmente, as que referem temas económicos e políticos estruturais e nos remetem para a versão impressa do jornal.
Jornalista: - E não vai comprar a versão impressa?
Economista: - É o que acaba normalmente por suceder. Aliás, esse é o objectivo dos jornais on-line: dar-nos uma lambuzadela e despertar-nos o interesse para irmos a correr comprar o jornal impresso.
Jornalista: - E acha isso mal?
Economista: - Não, de todo. Mal seria que não tivéssemos sequer acesso à lambuzadela. A sociedade da informação e conhecimento é um privilégio de que a nossa geração não pode prescindir e, confesso, fora do qual já nem sequer devo saber viver.
Jornalista: - Isso, em Portugal. E quando faz as suas frequentes viagens tropicais?
Economista: - As minhas viagens tropicais têm sido a países civilizados e não a civilizações trogloditas e isoladas do resto do mundo. Com excepção de Cuba em que a informação estava condicionada quando lá fui, tenho ido ao Brasil, Tailândia e Moçambique em que continuamos a ser informados a toda a hora como se estivéssemos em Lisboa, Paris ou Berlim.
Jornalista: - Mesmo em Moçambique?
Economista: - Claro! Moçambique tem uma televisão nacional que se dedica muito à telescola e os telejornais mais seguidos são os portugueses da RTP África e da RTP Internacional. Os canais sul-africanos que lá chegavam quando lá estive da última vez tinham tanta falta de qualidade que ninguém os via e os do Zimbabué são como os de Cuba: trogloditas. Se os jornalistas portugueses tivessem um mínimo de sentido de responsabilidade, não se ocupavam tanto a denegrir o nome de Portugal pois os portugueses que vivem por aquelas paragens só têm o espaço de tempo entre dois telejornais consecutivos para reporem o prestígio do nosso país no nível que naturalmente lá tem. É uma tarefa árdua, essa dos jornalistas, de tanto mal dizerem de Portugal.
Jornalista: - Mas então, Portugal não é visto como colonialista?
Economista: - Toda a gente sabe que Portugal foi conduzido de colonialista a colonizado em nome da solidariedade europeia que empurra o petroleiro “Prestige” para as nossas águas, que constrói centrais nucleares mesmo junto da nossa fronteira para recebermos directamente os dejectos, que pela via da PAC nos impede a produção de cereais para sermos um mero escoadouro dos excedentes franceses, que nos impõe as regras do PEC e ameaça com penalidades se não formos cumpridores quando os próprios patrões deles em Paris e Berlim avisam que não vão cumprir essas mesmas regras, que dizem que as águas açorianas são deles e mais o que se verá daqui para diante.
Jornalista: - Vejo-o muito céptico. Só vê contrariedades na política europeia?
Economista: - Vejo todo o interesse europeu em fazer com que Portugal desapareça como Estado soberano e, aí, pode o actual projecto europeu contar com toda a minha animosidade e é claro que com o meu voto contrário a uma qualquer – seja ela qual for – Constituição Europeia.
Jornalista: - Estou a ver que hoje não falamos das GOP’s.
Economista: - Mas temos estado a falar de assuntos que dão alguma perspectiva sobre o meu conceito estratégico português que é claramente atlantista por oposição ao europeísmo tão em voga.
Jornalista: - Ou um ou outro? Não há meio termo?
Economista: - Sim, há meio termo e para isso sugiro-lhe uma leitura de um documento intitulado “Bases do Conceito Estratégico de Defesa Nacional” que foi aprovado em Conselho de Ministros em Janeiro de 2003. É a política aí definida que dá cabimento às GOP’s que estamos a seguir no que respeita à Defesa Nacional e, portanto, a muitos aspectos da Política Externa.
Jornalista: - E, então, o que acha dessas GOP’s sectoriais?
Economista: - Acho várias coisas mas sugiro que essa análise fique para a próxima, depois de um breve intervalo.
Jornalista: - Muito bem. Então façamos um intervalo. Até logo.

Lisboa, Novembro de 2004

Henrique Salles da Fonseca

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