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A bem da Nação

O MEU MELHOR AMIGO – 2

 

A PARENTELA DO CARAMELO

 

AMOR FATAL

 

 

Mãe extremosa e caçadora exímia, a Rita cadela apareceu perdida (abandonada?) nos idos de 90 do século passado na quinta dos meus cunhados em Azambuja. De imediato adoptada, levaram-na a uma inspecção médica para despistar algo que pudesse fazer perigar o equilíbrio sanitário da casa. Saudável, calculou a Veterinária que a Rita tivesse então cerca de 5 ou 6 anos de idade. A partir daí, viveu mais 15 anos, ou seja, morreu com 20 ou 21 anos de calendário o que em termos humanos lhe daria a equivalência de mulher de Matusalém, Noéma, da tribo cananita (o que no caso vem mesmo a calhar). E, mesmo assim, morreu por vontade própria pois sentiu-se abandonada por quem ela considerava ser o seu dono (que viajara por 6 meses) e deixou de comer e beber. Não fora assim, até quando viveria?

 

Liberal de usos e costumes, teve todas as gravidezes que a mãe Natureza lhe conseguiu dar: nem mais uma nem menos uma. Deu-se mesmo o caso de nalgumas dessas gravidezes haver filhos de mais que um pai. Seria uma extravagância luxuriante ou uma luxúria extravagante?

 

E assim foi que certa vez nasceram o Caramelo e o Kadhafi, claramente filhos de pais diferentes. Quem foi o pai de quem? O mistério ficará para a eternidade...

 

Mas como não estou aqui para julgar os princípios morais dessa famosa Rita que, qual Desdémona, pôs tanta cabeça (canina) a girar, passo ao resto da história que hoje quero contar.

 

E o que distinguiu estes dois irmãos? O Kadhafi ficou na quinta onde nasceu e o Caramelo foi adoptado por mim e veio para Lisboa. Assim foi que um se formou em ruralidade e o outro adoptou uma atitude perfeitamente urbana. Mas afinal é o rural que tem uma história de pasmar enquanto o urbano se limita a ser membro duma matilha de bípedes cujo chefe é o dono dele, eu. A propósito, vou ver se esta posição de chefe de matilha me dá alguma equivalência para mais algum curso universitário que não tenciono frequentar...

 

Ao contrário do Caramelo que é um verdadeiro «gentledog», a ruralidade do Kadhafi não o especializou em relações públicas com humanos não deixando, contudo, de ter sentimentos de tal modo fortes que, à semelhança dos dramas da Renascença, morreu de amor.

 

Sim, o Kadhafi deu-se de amores pela Dinky (assim escrito, o nome transmite uma elegância muito mais apurada do que se prosaicamente se escrevesse Dinqui). Mas diga-se em abono da verdade que sempre foi um amor perfeitamente platónico pois a nobre Dinky nunca se deixou cobrir quer pelo rural quer por qualquer outro cão que dela se aproximasse, tanto nobre como plebeu. A Dinky presa a uma corrente longuíssima e o Kadhafi ao «Deus dará», viviam juntos até que o destino os separasse. E certa vez a Dinky, já velhota, mostrou que não se sentia bem. De imediato a dona (a minha cunhada) a levou à clínica veterinária onde lhe foi diagnosticado um distúrbio hepático. Mas o mal era rijo e a idade avançada e certa manhã a Dinky estava inerte para sempre. A seu lado, viúvo destroçado, Kadhafi mostrava que os sentimentos caninos são tão fortes como os homólogos humanos. Não recuperou da tristeza profunda que o levou a deixar de comer e beber até que passados poucos dias foi ele que foi encontrado definitivamente inerte.

 

Kadhafi, irmão do Caramelo, morreu de amor.

 

Rural, sim, mas com muito nobres sentimentos.

 

Lisboa, Novembro de 2012

 

 Henrique Salles da Fonseca

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