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A bem da Nação

LIDO COM INTERESSE – 57

 

 

 

Título: DJAN OU A ALMA

 Autor: Andrei Platónov

Tradutor: António Pescada

Editora: ANTÍGONA, Lisboa

Edição: 1ª, Setembro de 2012

 

 

(...) ao lado das habitações estavam deitados dois camelos mastigando diverso lixo à sua volta para não se aborrecerem nem pensarem em coisas inúteis. Eis um exemplo do suave humor com que Andrei Platónov (1899 – 1951) salpica esta novela.

 

E quem eram os djan? Eram fugitivos e órfãos de toda a parte, escravos velhos e extenuados que tinham sido expulsos da casa dos beis, seus antigos proprietários, mulheres que traíam os maridos e que fugiam com medo, viúvas que não queriam mais ninguém como marido, gente que não conhecia Deus, que troçava do mundo, criminosos... Enfim, uma amálgama de indigentes vivendo no deserto, comendo as pobres ervas que a severa natureza permitia, a quem apenas restava a alma e, mesmo essa, muito adormecida.

 

Mas o Estado Soviético não queria pobres que pela sua mera existência negassem o paraíso socialista e nomeou um jovem economista, nascido entre os djan mas educado em Moscovo, para que liderasse aquele povo e nele construísse o socialismo... E Nazar Tchagatáev, com sangue na guelra, dedica-se apaixonadamente à missão que lhe fora confiada até que... chegamos à última página com pena de não haver mais para ler e tudo se conclui de um modo tipicamente russo.

 

É claro que não conto o final pois com isso estragaria a leitura de livro tão agradável mas posso transcrever algumas passagens que apreciei especialmente.

 

Assim, na caminhada pelo deserto a fim de encontrar o povo djan, o nosso herói passa a ter a companhia de um camelo a quem salvara da morte certa dando-lhe de beber num poço que arduamente escavara, até porque (...) lhe parecia também um membro da humanidade. (pág. 46)

 

Mais à frente, próximo da exaustão, deita-se algures e fica a ver as lagartixas e outros bichos pois (...) na realidade também aqui, no Amudária e no Sari-Kamich, havia todo um mundo difícil, ocupado no seu destino. (pág. 57).

 

O russo afastou-se a sorrir. Quase todos os dias, durante sessenta anos, a sua vida esteve a ponto de acabar mas ele não tinha morrido uma única vez (...) (pág. 88)

 

(...) porque é que as pessoas procuram tanto o infortúnio, a desgraça, quando a felicidade é igualmente inevitável e muitas vezes mais fácil de alcançar do que o desespero? (pág. 90)

 

A luta de classes começa quando o opressor vence o «espírito santo» contido no escravo; a blasfémia contra aquilo em que o amo acredita, contra a alma e o Deus do amo, nunca tem perdão, enquanto a alma do escravo é submetida à consumição na mentira e no trabalho arrasador. (pág. 127)

 

Há sempre um lugar vazio na alma onde um homem quer guardar a sua felicidade. (...) a alma torna-se alheia: ela pensa bem daquilo que é mau, aborrece-se em nós e promete aquilo que não haverá, pensa naquilo que não existe. (pág. 129)

 

(...) quando se esquece depressa aqueles que morreram e desapareceram, a vida torna-se completamente sem sentido e lastimável e só restará a cada um lembrar-se de si próprio. (pág. 146)

 

Para que viveram as pessoas antes, se ela, aquela rapariga turcomana desconhecida, estava agora ali perplexa com o seu pensamento e a sua aflição? Que infelizes teriam sido os pais dela, toda a sua tribo, se em nada podiam ajudar a sua filha: viveram em vão e morreram e ela ali estava outra vez sozinha, como em tempos estivera a sua pobre mãe... (pág. 154)

 

Sim, fiquei com pena de ter chegado à última página, a 178, desta novela escrita em 1935 mas que só foi resgatada das estantes do esquecimento da censura soviética em 1999. Boa leitura!

 

Outubro de 2012

 

 Henrique Salles da Fonseca

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