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A bem da Nação

Conversa fiada – 8ª parte




Resumo da 7ª parte: A liberdade de compra e venda é fundamental como expressão de independência; as relações económicas de cariz imperial não fazem mais sentido na época da globalização e a solidariedade não é suficiente para justificar as relações comerciais; o prestígio de Portugal no exterior é real apesar da maledicência típica dos telejornais; a solidariedade europeia é falaciosa, o actual projecto europeu pretende exaurir a soberania dos Estados e, portanto, qualquer Constituição Europeia deve ser chumbada.


Jornalista: - E neste intervalo, o que tomou? Outro café de Timor?
Economista: - Não, desta vez tomei uma água gasosa natural engarrafada por uma empresa de capitais portugueses.
Jornalista: - E escolhe os produtos que consome em função da nacionalidade dos capitais?
Economista: - Pode ter a certeza que sim. A internacionalização da economia portuguesa tem sido feita pela negativa, com os estrangeiros a tomarem conta das nossas empresas enquanto que a penetração das empresas portuguesas nos mercados externos tem sido muito mais lenta e, no caso de Espanha, assintosamente dificultada pelos espanhóis.
Jornalista: - Mas porque é que os estrangeiros compram tantas empresas em Portugal?
Economista: - Porque os portugueses lhas vendem. Claro que os estrangeiros fazem muito bem; os portugueses é que se têm demitido das responsabilidades na sequência do ambiente que lhes tem sido criado de permanente agressão ao empreendedorismo nacional, conjuntamente com um declarado favorecimento do investimento estrangeiro. Devemos ser um dos poucos países do mundo em que se privilegia o que é estrangeiro e se denigre o nacional. Tempos houve em que os japoneses faziam haraquiri por questões de honra ofendida; nós afundamo-nos de livre vontade com um sorriso estampado pelas delícias proporcionadas pela devassa televisiva das futilidades mundanas de certas falsas celebridades.
Jornalista: - E isso a que se deve?
Economista: - A uma amplíssima divulgação do primado das vulgaridades, a uma enorme indiferença pelas matérias estruturais. Tudo uma questão de cultura . . . ou de falta dela.
Jornalista: - Mas acha que a população em geral é indiferente às questões importantes?
Economista: - Não, não. O povo, como é costume dizer-se, sabe muito bem distinguir o fundamental do acessório mas é tão encharcado com futilidades e estupidezes pelos responsáveis da programação televisiva que acaba por ficar baralhado. E, por outro lado, repare bem na “limpidez” da pergunta referendária a propósito da Constituição Europeia com que a “intelligenza” beneditina se prepara para gozar com o povo. Desculpe mas tenho que consultar uma cábula: “Concorda com a Carta de Direitos Fundamentais, a regra das votações por maioria qualificada e o novo quadro institucional da União Europeia, nos termos constantes da Constituição para a Europa?”.
Jornalista: - Porquê inteligência beneditina?
Economista: - O convento beneditino de baixo onde é a Assembleia da República.
Jornalista: - De baixo? Havia outro mais acima?
Economista: - Sim, é o actual Hospital Militar Principal. Os frades acharam que o de cima era insalubre e decidiram fazer outro mais perto da praia.
Jornalista: - Tanto convento?
Economista: - Sim e estes eram masculinos. Dos femininos, na mesma zona, basta referir o das Bernardas, das Clarissas, etc. Repare que na Idade Média – e até há relativamente pouco tempo – não havia Segurança Social e os conventos não eram apenas para rezar; eles também serviam para acolhimento de velhos e crianças desamparadas sendo mais tarde laicizados sob a forma de asilos e não se esqueça de que naquelas épocas remotas os militares também não eram ricos pelo que quando morriam – o que sucedia com muito maior frequência do que hoje – as viúvas ficavam desamparadas e alguém tinha que tomar conta delas se não houvesse família que disso se pudesse encarregar. E viúvas com filhos pequenos era do que mais havia na sequência das guerras e navegações. Por exemplo, o convento de Santos-o-Novo, ali junto ao Tejo, perto do convento da Madre de Deus, que ainda hoje lá tem gente a viver, na tradição do que acontecia antigamente. Portanto, os conventos eram muitos mas não sei se eram de mais.
Jornalista: - E quando foram extintas as ordens religiosas . . .
Economista: - . . . houve uma grande barafunda social pois os frades e as freiras foram postos fora do país e os desgraçados que estavam albergados nos conventos ficaram na via pública por não caberem nos incipientes asilos. Sabe que destruir é rápido; construir é muito mais difícil.
Jornalista: - E então, o que passaram a ser esses conventos?
Economista: - O património das ordens religiosas foi todo nacionalizado e, depois, houve a adaptação de uns a certas finalidades que o Estado passou a assumir (os tais asilos), a quartéis, prisões, etc. Poucos foram na altura adaptados a escolas; isso só sucedeu muito mais tarde, após a implantação da República. O mais significativo foi, contudo, o processo de alienação a privados desse enorme património em hastas públicas exímias no cambão. Há investigadores da nossa História que vêm publicando obras sobre esse processo. Nunca li nada sobre isso e, portanto, não conheço detalhes mas sugiro-lhe uma busca nas obras recentes do Dr. Vasco Pulido Valente e vai ver que encontra informação muito interessante. Pelo que me contaram, deve ser mesmo muito interessante.
Jornalista: - Mas já estamos a afastar-nos do fio que eu tinha traçado para hoje.
Economista: - Você não me disse que fio era esse e, portanto, eu vou falando pelo meu próprio fio. Mas, está bem, vamos lá para o seu fio.
Jornalista: - Acha que o referendo à Constituição Europeia vai passar?
Economista: - O facto de eu entusiasticamente desejar que chumbe, não obsta cabalmente a que passe. Espero que os portugueses desconfiem de pergunta tão rebuscada e que percebam que alguém os está a querer deslumbrar com tanta erudição e tão elevada ciência política. Sabe? O povo pode não ser erudito mas estúpido é que não é de certeza absoluta e era muito bem feito que mandasse os políticos enganarem outros, que a ele, povo, ninguém engana. Ou se explicam e têm o voto popular consciente ou não merecem confiança e levam um chumbo redondo; era isto que eu mais desejava. Como está, não é pergunta que se faça; isto é gozar com o pagode e chamar burro a quem não é.
Jornalista: - Veremos . . .
Economista: - Veremos . . .
Jornalista: - E agora, é altura de voltarmos às GOP’s?
Economista: - Claro que é. Estive a ler as GOP’s da Defesa e dos Negócios Estrangeiros pois acho que estão muito ligadas.
Jornalista: - E gostou do que leu?
Economista: - De um modo geral, sim, gostei. Claro que têm lá coisas que se lá não estivessem, caía o Carmo e a Trindade como por exemplo aquele intróito na política externa do reforço do Papel de Portugal como sujeito activo de construção europeia. Como eu acho que o caminho que se está a trilhar na UE é mau, tudo o que lhe diga respeito merece a minha desconfiança.
Jornalista: - E nesse intróito não há nada que lhe agrade?
Economista: - Sim, há muita coisa que me agrada. Até lhe digo mesmo mais: que me agrada muito. Por exemplo, refiro-me ao reforço da relação privilegiada com o espaço lusófono, com a política de privilegiar a NATO, a ONU e a OSCE, a defesa da língua portuguesa, a promoção da diplomacia económica activa. Isto são coisas que eu considero muito positivas e fiquei muito satisfeito de as ver como políticas perenes.
Jornalista: - E na Defesa?
Economista: - Na Defesa, como já lhe disse, há uma fundamentação muito substancial no tal documento aprovado em Janeiro de 2003 chamado Novo Conceito Estratégico de Defesa Nacional que me parece uma opção estrutural da maior relevância e que me agrada muito pois tem um grande equilíbrio entre o europeísmo e o atlantismo. Aliás, como o Ministro se manteve na passagem do anterior para o actual Governo, é natural que a tónica pessoal se mantenha e que haja continuidade política apesar de ter mudado o Primeiro Ministro.
Jornalista: - E para 2005?
Economista: - Claro que não lhe vou fazer uma análise de pormenor . . .
Jornalista: - Não, claro que não.
Economista: - Então, noto com interesse o processo de modernização das Forças Armadas, a revisão da política de contrapartidas e o fim do Serviço Militar Obrigatório – não no sentido de que num contexto de paz não fizesse muito bem a toda a gente ir à tropa mas porque no actual contexto os milicianos constituem um estorvo enorme ao profissionalismo que actualmente devemos desejar para as nossas Forças Armadas.
Jornalista: - Só vê coisas boas?
Economista: - Vejo um documento coerente com os interesses nacionais mas que não desce a detalhes que poderiam ser muito esclarecedores. Admito que seja um documento para “bon entendeur” e, portanto, haja coisas que escapem ao observador comum, como é o meu caso.
Jornalista: - E na política externa?
Economista: - Ah! aí há a tal enorme extensão de assuntos europeus que têm mesmo que lá estar sob risco de um golpe de Estado mas também há as tais políticas que eu considero essenciais para Portugal como por exemplo aquela com um nome que acho estupendo, a “Profundidade Atlântica”. Mas lá está o espaço lusófono, a cooperação, as Comunidades portuguesas e a diplomacia económica.
Jornalista: - Gosta, portanto? Só vê maravilhas?
Economista: - Não sou faccioso. Não vejo que utilidade pode ter a abertura de grandes Embaixadas em Nicósia, Luibliana e Bratislava. Cada vez acredito mais na inutilidade geral dessas missões diplomáticas e estou a ficar muito mais virado para coisas claramente úteis como a economia e a língua. Mas é claro que acho muito mais importante concentrar esforços de promoção da nossa língua em Goa, Damão, Diu e Malaca do que em Seul ou Hanói. Há coisas que não entendo facilmente mas também não posso ter a veleidade de estar de acordo com tudo.
Jornalista: - Fazia cortes?
Economista: - Muitos.
Jornalista: - Quer dar exemplos?
Economista: - Corrigia o sindroma da Avenida Infante Santo e revia a rede do Instituto Camões.
Jornalista: - Sim, sobre o Instituto Camões já deu um exemplo mas o que é isso do sindroma da Infante Santo?
Economista: - A Infante Santo é uma avenida em Lisboa que tem um hospital em cada extremidade. Na ponta de baixo tem um hospital privado que tem convenção com o Ministério da Saúde e, portanto, qualquer utente lá pode ir fazer análises, electrocardiogramas, etc. pagando aquelas ninharias que se paga nos hospitais públicos; na outra ponta há um hospital do Estado a que pouca gente tem acesso, o militar. Ora se o privado faz negócio prestando serviço aos utentes do Sistema Nacional de Saúde, porque é que o Hospital Militar não faz igual negócio? Terá assim tanto que fazer que não possa alargar a clientela e receber mais dinheiros? Ou será que não tem carências financeiras e tudo rola às mil maravilhas?
Jornalista: - Acha isso realmente importante?
Economista: - Isto pode não ser objectivamente muito importante mas se somar esta desimportância a outras que possam ser identificadas, talvez encontre uma verdadeira importância, nomeadamente para o bolso do contribuinte.
Jornalista: - Mas devia isso constar das GOP’s?
Economista: - Não. Talvez devesse constar das POP’s.
Jornalista: - Das quê?
Economista: - Das Pequenas Opções do Plano.
Jornalista: - Muito bem. E se fizéssemos um breve intervalo?
Economista: - Sim, vamos lanchar.

Lisboa, Novembro de 2004

Henrique Salles da Fonseca

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