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A bem da Nação

LOURENÇO MARQUES

 

 

Do seu estabelecimento

 

 

 

Assim que D. João II tomou conhecimento da entrada de Lourenço Marques na baía que levou seu nome, escreveu logo a Dom João da Castro que estava como Vice Rei na Índia:

 

Dom Joam de Castro Amiguo. Eu elrrey vos emuio muito saudar. Per bernaldo nacere capitão da naao de garcia de saa que chegou aquy no mês de feuereiro pasado receby a carta que me escreuestes de moçambique e dou muytas graaças a noso senhor da boa viagem que le­vastes, de que folguey de me dardes conta tão particularmente; ......

Do descobrimento daqueles rios que fez Louremço marques folguey de saber, e parece que será cousa muy ymportante e necesaria acabarse bem de saber, pelo que vos emcomemdo muyto que ordeneis loguo mamdar da ymdia pêra iso hum navio ou fusta, qual vos parecer maes comveniente: e pela emformaçam e pratica que jaa disto tem louremço marques me parece meu serviço emcarregardelo desta viagem, ao qual dareis regimemto muy particular de tudo o que faça e procure de saber. E parecemdouos bem leuar ele no dito navyo algüas mercadorias, como parece que será necesareo, será bem mamdardeslhas, com as quaes ele poderá milhor resgatar as da terra, e saber uerdadeiramemte as que haa nela. E do que se nisto fizer me avisares. E posto que uos diga que mamdeys a isto Louremço marques, não o encaregareys diso, senam parecendouos que he tam soficiente pera iso que podereyes de mamdar a iso outra pesoa...

 

Bartolameu froes a fes em allmeyrim a oyto de março de 1546.

- Rey

Pera dom Joam de Castro

 

(Ainda que foi Lourenço Marques o primeiro explorador da bahia d'esse nome e rios que n'ella esboçam é de ver que já fora conhecida dos nossos navegadores desde a epocha em que D. Manuel mandou Cyde Barbudo(1) e Pedro de Quaresma(2) examinar a costa desde o Cabo até Sofalla para obter noticias de Francisco de Albuquerque e Pedro de Mendonça quen'aquellas paragens tinham desapparecido: a armada sahiu de Lisboa em setembro de 1505, e o regimento dado a Cide Barbudo pode ver-se nos Annaes marítimos e coloniaes, serie 4.a paginas 162 e seguintes.)

 

O que parece se ter passado a seguir foi um quase abandono dos portugueses com o comércio naquela baía, até à sua “retomada” em 1781.

 

Portugal, por ter descoberto o caminho para a Índia, reservava-se o exclusivo do comércio europeu desde o Cabo até Sofala. Para norte já havia árabes e indianos há muito tempo.

 

A "cidade" original não era uma cidade: era uma ilha. A uma distância regulamentar do Presídio, fez-se um aldeamento precário. Na parte baixa desse aldeamento vê-se a Rua dos Mercadores - a original rua de Maputo - mais tarde a Rua Araújo

 

Quatro anos antes, 1777, um aventureiro inglês, Guilherme Bolts, homem culto, arguto e diplomata, tipo “homem das arábias”, depois de ter trabalhado para os ingleses na Índia, e de ter enriquecido por meios escusos – que tudo perdeu porque a companhia inlgesa lhe sequestrou os bens - aparece em Lisboa e daqui vai a Viena e Trieste, onde consegue que alguns comerciantes lhe confiem um navio e mercadorias, esperando o “belo e lucrativo retorno”. Como a sua fama era conhecida em Portugal, onde nada conseguiu, passou à ilha da Madeira onde também não lhe venderam vinhos, depois Rio de Janeiro e finalmente em Lourenço Marques, onde não encontrou qualquer autoridade que o prejudicasse. E ali fundou uma feitoria, em nome de sua magestade imperial a arquiduquesa Maria Theresia Walburga Amalia Christina von Österreich, arquiduquesa e soberana da Áustria, Hungria, Bohemia, Croácia, Mântua, Milão, Galícia e Lodomeria, Parma e Países Baixos Austríacos. Pelo casamento, tornou-se duquesa da Lorena, grã-duquesa da Toscana e imperatriz consorte do Sacro Império Romano-Germânico. (É considerada um dos "déspotas esclarecidos", mas não se pode negar que não tenha sido “um bom partido” e uma grande parideira: teve 16 filhos!)

 

Bolts quiz a seguir negociar na Índia onde após uma série de “portas fechadas” conseguiu por fim fazer algum negócio, o que mereceu forte censura dos ministros e deputados da Junta da Fazenda da Índia. Dizia o ministro: “O dito Bolts tem arte, destreza, e astúcia, acompanhada de um grande conhecimento do comércio na Ásia, para poder persuadir e talvez determinar a Corte de Viena com estas ideias a formar uma Companhia em Trieste, ainda que ocorra o mesmo que à de Ostende”. Para ele “Bolts era um aventureiro e pirata por se intitular diretor geral de uma companhia que nem existe”!

 

Isso não o impediu de assonhorear do comércio com os régulos da região, correndo até com navios ingleses que ali aportaram.

Em 3 de Maio de 1777 assinou o primeiro tratado com o régulo Capela que designa por Rajá Mohaar Capelle, sempre assinando em nome de sua Magestade Imperial!

 

Dias depois assina novo tratado com o régulo Matola, a quem chama Rajá Chibanzan Matola, assinado também pelo Rajá Mafumo, que lhe vendeu toda a terra onde hoje se encontra a cidade de Maputo!

 

Portugal decidiu então correr dali com os “intrusos invasores” e a 31 de Março de 1781 ancorou, em frente do forte de S.José uma fragata, comandada pelo tenente-coronel Joaquim Vicente Godinho de Mira, que ali encontra três outros navios: um português, outro inglês e o terceiro, o Principe Fernandi da companhia de Trieste.

 

Godinho de Mira assim “que deu fundo” mandou logo apresar o navio “imperial” e com alguma tropa desceu em terra e sem encontrar resitência tomou conta da bateria de artilharia! No dia seguinte arvorou a bandeira portuguesa, notícia que logo se espalhou por toda a região, e os régulos acorreram para saber o que se passava, sendo o primeiro o régulo Mafumo, recebido a bordo com toda a dignidade.

No texto anterior transcrevemos o relato da visita do rei da Matola, o segundo a comparecer. No dia seguinte:

 

Em o dia 5 de abril, pelas nove horas da manhã, chegou a bordo da fragata uma pessoa do rei Capélla, mandado pelo dito, a fazer-nos saber que elle vinha já em marcha para ter o gosto de nos fallar, e que espe­rava nós fossemos encontrá-lo ao logar onde se fazia a agua, porque a bordo o dito rei não podia vir; o tenente coronel lhe procurou o motivo de não querer vir à fragata aonde já o rei Matolla tinha vindo, e entre elles era costume virem a bordo de todas as embarcações que ali che­gavam; a pessoa do rei não respondeu nada, senão que o rei não vinha a bordo, a que respondeu o tenente coronel fizesse o que quizesse, comtanto que o dito rei ordenasse se nos viesse vender tudo que precisasse a fragata e que passasse ordem para se deixar fazer aguada, e tudo o mais que fosse preciso á fragata de Sua Magestade Fidelíssima; com esta resposta se foi a pessoa do rei, e o tenente coronel desembarcou para a terra aonde tinha a tropa da legião, e achando-se no mesmo sitio o ca­pitão de mar e guerra, chegaram a este tempo pessoas do dito rei, di­zendo que o rei era já perto d’aquelle sitio, e nos queria ali mesmo fallar e que vinha acompanhado da sua gente, que seriam três mil cafres antes mais do que menos; o tenente coronel respondeu que fossem dizer ao rei, que podia vir, que ali esperava, ainda que o logar era bem impróprio; retiraram-se as pessoas, e o tenente coronel fez desembarcar as peçinhas de amiudar, e alguma tropa de infanteria, e pondo tudo em or­dem esperou o dito rei, que não tardou muito em chegar ao dito logar aonde se achava a tropa formada com os seus ofticiáes, o capitão de mar e guerra, e alguns, oíficiaes do corpo de marinha, que todos estes se avànçaram alguns passos a receber o rei e conduzi-lo a uma pequena bar­raca, aonde depois de muitos cumprimentos lhe foi dito pelo tenente co­ronel a pouca rasão que o rei tinha para deixar fazer estabelecimentos n’aquêlles logares, não o podendo, nem devendo consentir ali outra na­ção que não fossem portuguezes, a quem só era permittido o poder ali ir commerciar, e que por esta vez mandava Sua Magestade Fidelíssima fazer-lhe constar, que não era do seu real agrado aquelles estabelecimen­tos, que lhe levaria muito a mal todas as vezes que elle consentisse n'aquellas terras alguma outra bandeira que não fosse a de Portugal; foi respondido pelo rei, que elle não queria a outros amigos senão os portu­guezes, e que se estes tivessem continuado em levar saguates grandes, e roupas para a sua gente, que elles não teriam recebido outros, nem deixariam levar o seu marfim senão aos portuguezes, a quem elles tratam como irmãos; depois d'esta falla lhe assegurou o tenente coronel, que haviam vir áquelle sitio bastantes embarcações a levar-lhe os géneros precisos, e que elles olhassem a bandeira de Sua Magestade Fidelíssima com aquelle respeito, amor e veneração que deviam; que tivessem o maior cuidado, em que se lhe não fizesse nunca insulto, aliás seria obrigado a tornar áquelle logar aquella mesma fragata para os castigar. O rei protestou amisade e respeito á bandeira de Portugal; a esta resposta deu-se-lhe muito de comer, muito mais de beber, deu-se-lhe saguate com que foram satisfeitos, e se despediram, e ao sair da barraca se lhe deram nove tiros de peçinha; marchou a tropa para elle ver, de que gostou muito, e deram grandes gritos a sua gente; isto se passou tudo sendo presente todo o corpo de officiaes, e eu que por verdade o escrevi e me assignei,==Antonio Joaquim Pinto Gollares, escrivão,

 

 

 

N.-

1.- Cide Barbuda foi capitão do mar. Quando D. Francisco de Albuqueque, em 1505, se perdeu na volta de Cananor a Portugal, D. Manuel I ordenou que saisse de Lisboa uma esquadra, cujo comando foi entregue a Cide Barbuda e Pero de Quaresma, com a finalidade de procurarem Albuquerque e Pero de Mendonça que com ele viajava. Barbuda navegou até ao Cabo e dali a Sofala, mas todas as pesquisas foram baldadas.

2.- Pero Quaresma foi um dos construtores da fortaleza de Sofala em 1506.

 

26/07/2012

 

 Francisco Gomes de Amorim

 

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