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A bem da Nação

RESSACAS LUSITANAS – 3

 

Sair em viagem por esse mundo já foi uma grande atracão. Hoje é uma obrigação. Para estar um pouco com a família e os velhos amigos e... depois de ficar estafado voltar para casa e tentar recuperar o fôlego!

 

Mas sempre, sempre, na bagagem de volta vêm uns quantos livros. Praticamente só de história, seja de que país for, onde continuo sempre a aprender, e cada vez mais me certificar que os erros se repetem porque os homens não mudam. Vai-se à Lua e a Marte, atingem-se níveis técnicos insuspeitáveis há meia dúzia de anos, mas desde Adão e Eva a única coisa que mudou foram as modas – começou com a mulher pelada, vestiu-se toda, escondeu-se com roupas de valor igual ao que queriam e podiam aparentar, e hoje voltam a estar quase nuas! O bicho, bem lá no fundo, não muda. De jeito nenhum! E babacas são os que ainda continuam teimando que ética, honradez e respeito, são os valores pelos quais se deve lutar. Mentira. Em dezenas de milhares de anos, quando aparece alguém com essas ideias na cabeça... é corrido da sociedade. Talvez melhor, da luta pela saciedade, jamais suficiente.

 

Mas voltemos aos livros, uns comprados outros muito amavelmente oferecidos. Vamos falar de um de cada vez.

 

Voltemos a Mafra, ao sumptuoso Palácio. Na saída tem uma pequena loja, e lá comprei, além dum livrinho com o DVD do concerto dos seis órgãos – para quem gosta de música barroca é uma beleza –alguns livros e folhetos sobre as famosas linhas de Torres Vedras, onde acabou o sonho napoleónico de conquistar Portugal.

 

Muito bem documentado, sobre a 3ª invasão francesa comandada pelo senhor Massena, marechal, conde, duque, príncipe, tudo presentinhos do seu amigalhaço Banaparte, trazendo mais de 100.000 homens de guerra, e que foram derrotados por uma estratégia, imposta por Wellington, e copiada logo a seguir pelo marechal Kutuzov, que espatifou o outro imenso exército napoleónico que pretendia conquistar a Rússia: terra queimada!

 

Napoleão – que eu admiro – tinha no entanto o defeito de se julgar o “único esperto da paróquia”, determinava aos seus exércitos que obrigassem os países conquistados, e/ou derrotados, a alimentar os vencedores, sem precisar de grande estrutura de abastecimento que lhe custaria uma fortuna. Quase todos os babacas da Europa central – italianos, austríacos e outros germânicos, e... – tinham a obrigação de dar a papinha aos franceses! E deram.

 

Wellington, contra o espanto e primeira reacção negativa do povo português, obrigou-os a abandonarem tudo, queimarem víveres, nada deixarem de que o inimigo pudesse valer-se, e a refugiarem-se em Lisboa e arredores. Foi um Deus nos acuda. Os franceses saíam à caça de pilhagem, e pilhavam tudo que viam, estupravam, assassinavam, assaltavam os próprios companheiros de armas, e até tropas inglesas, tal o desvario da fome.

                       

A desordenada (sempre) fuga dos aldeãos portugueses

 

Mas nada disso lhes valeu. O exército francês enquanto caminhava deixava os campos e as estradas juncadas de cadáveres e doentes agonizantes, e assim chegou perto das Linhas de Torres. Com um exército de esfaimados, doentes, esfarrapados, indisciplinados... derrotados.

 

Vendo que não podia vencer a defesa anglo-lusa, Massena ordenou a retirada, o que fez com muita categoria, e sempre com os anglo-lusos castigando a retaguarda, continuando a matar neles.

 

Deixou em terreno português, cerca de 60.000 mortos!

 

Estima-se que só portugueses terão morrido, entre guerra, fome e epidemias, mais de 200.000! E quando os agricultores voltaram para as suas terras tiveram que começar tudo do zero. Foram subsidiados em sementes e alguns animais, mas a fome era tanta que nalguns lugares o povo cortava grama que cozinhava para comer!

 

A Sopa de Arroios, distribuída a milhares de refugiados dos campos.

(Gravura de Domingos Sequeira e Gregório Francisco de Queirós, 1813)

 

Usavam a técnica de guerrilha, e tão bem e tão valentemente, que conseguiam, com pouca gente, ir segurando o exército francês no seu avanço, para sempre dar tempo a que as defesas de Lisboa estivessem prontas.

 

Semelhante táctica de combate foi utilizada dezoito séculos antes pelo grande lusitano Viriato que deu cabo da cabeça das legiões romanas!

 

O Conde de Rosnay, ao serviço do invasor, escreveu que “Portugal era um dos países mais bárbaros e ignorantes da Europa, mas reconhecia a decisão dos portugueses na defesa da sua independência, que sublinha como inatacável e invencível, além de considerá-los mais civilizados e mais bravos do que os espanhóis mas, também, mais dissimulados e perigosos. Não aceitando a lei da guerra que obriga o vencido a alimentar o vencedor, tanto o aldeão como o citadino ou os ricos são capazes de assassínio se lhes exigem, sem prévio pagamento, um pouco de pão, toucinho ou vinho.”

 

“Portugal é o símbolo da resistência e a Espanha o pântano que engoliu os exércitos franceses”, segundo Donald Horward (que muito escreveu sobre as Guerras Peninsulares).

 

Os soldados portugueses portaram-se de tal forma que Wellington, lhes chamava os galos lusitanos; em 1815 pediu que Portugal lhe mandasse algumas tropas para o reforçarem antes da decisiva batalha de Waterloo, a que Portugal não acedeu! Wellington afirmou que “os seus galos de combate” lhe haviam feito falta! Nesse ano no Congresso de Viena, entre embaixadores das grandes potências europeias, cuja intenção era a de redesenhar o mapa político do continente europeu após a derrota da França, os termos de paz foram estabelecidos com a assinatura do Tratado de Paris (30 de Maio de 1814), no qual se estabeleciam as indemnizações a pagar pela França aos países vencedores.

 

No encerramento do Congresso, pelo Artigo 105 do Acto Final, o direito português ao território de Olivença foi reconhecido. Apesar da sua inicial resistência a esta disposição, a Espanha terminaria por ratificar o tratado mais tarde, em 7 de Maio de 1817, nunca havendo entretanto cumprido esta disposição ou restituído o território oliventino a Portugal.

 

Resumindo: Portugal por diversas vezes na sua história ficou muito pior do que está hoje. Não tarda que grande parte comece a comer, também, a grama... desde que chova.

 

Mas que, a ser verdade o manter-se a mesma alma de Viriato e dos soldados que lutaram nesta guerra peninsular, logo terão saído do buraco em que se encontram.

 

Não parece é ser possível com a mediocridade da governação que tem. Nem que mudem os políticos todos. Precisa dum Viriato ou dum Zé do Telhado.

 

De falas mansas e vigaristas o país está farto.

 

Rio de Janeiro, 18/10/2012

 

 Francisco Gomes de Amorim

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