Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

A bem da Nação

PORTUGAL, O MUNDO MUÇULMANO E A EUROPA

 

“Em muitas coisas não pareces sucessor de Pedro, mas sim de Constantino”S. Bernardo, ao Papa Eugénio

 

No fim do século XI, princípios do XII, a Europa Cristã estava cercada.

   A Norte pela calote polar; a leste por eslavos hostis e pela ameaça constante de Mongóis e Tártaros; a Sul e SE pelos povos islamizados, em rápida expansão. Esta expansão tinha, até, ocupado toda a Península Ibérica em poucos anos, a partir de 711, sendo travados por Carlos Mardel, em 732, já no actual Sul de França.

    Uma pequena bolsa de cristãos resistiu, porém, nas Astúrias e foi a partir daí que a Reconquista teve inicio, a partir do séc. IX. A navegação desde o Mediterrâneo até à Corunha não era dominada por nenhuma das partes e os conflitos eram constantes.

 

Santo Bernardo de Claraval

Bernardo de Claraval

    No princípio do século XII um magistral personagem que ficou conhecido na História por S. Bernardo, abade de Claraval (1090-1153) – a quem devemos muito da Europa que herdámos – ajudou a delinear uma estratégia para aliviar e resolver este sufoco (cerco): atacar directamente o Islão no seu coração – e libertando a cidade santa de Jerusalém – e conter ou expulsar as ameaças nos flancos.

     Esta estratégia já vinha do tempo em que o Papa Urbano II pregou a Cruzada (o que aconteceu pela 1ª vez, em 1095, no Concilio de Clermont Ferrand) e incentivou a saída dos sarracenos da “Ibéria” – a Cruzada do Ocidente (que só se concluiu com a queda de Granada, em 1492). Tudo isto se veio a apoiar na criação e desenvolvimento das Ordens Militares e Religiosas, em que se distinguiram a Ordem Teutónica (fundamental para conter as hordas bárbaras vindas de leste) e os Templários. Estas Ordens organizavam e enquadravam a colonização das terras libertadas e garantiam a sua defesa.

    D. Afonso Henriques correspondeu-se com o Abade de Claraval – e é possível que ainda fosse seu parente – e Portugal muito deve a este monge (e estratega), depois Santo e doutor da Igreja, a sua independência.

    Toda esta estratégia teve um sucesso parcial (não conseguiu destruir o Islão nem segurar Jerusalém), mas garantiu, com o desenvolvimento dos estados/nações europeus, a segurança das fronteiras da Europa, com uma zona de fractura nos Balcãs.

    O declínio dos povos árabes e assimilados do Norte de África, bem como dos Persas, foi compensado com o Império Otomano cujo alargamento foi parado em Lepanto, em 1571 e às portas de Viena, em 1525 e 1683 (sendo atacado pela “retaguarda”, pelos portugueses, a partir de 1497), e circunscrito basicamente à Península da Anatólia, após os turcos terem sido derrotados na IGG. Durante 500 anos a guerra marcou sempre a sua presença.

    A expansão europeia pelas quatro partes do mundo e o seu poderio crescente, levou a que várias das suas potências ocupassem a maioria dos territórios islamizados do Norte de África e do Médio Oriente, durante o século XIX e princípios do XX.

    Na sequencia da II GM e com a evolução do Direito Internacional e os “ventos” de autodeterminação dos povos, cada um destes países foi ganhando a sua independência baseada nas fronteiras coloniais e herdando todas as vicissitudes da sua atribulada História.

    A complicar toda esta situação foi criado na Palestina, em 1948, o Estado de Israel, acabando assim um vácuo político da “nação” judaica que durava há cerca de 2000 anos. Um evento único na História da Humanidade.

    Esta ocorrência deve-se, fundamentalmente, à acção do movimento Sionista fundado pelo húngaro Teodor Herzl (1860-1904), e cujo primeiro congresso teve lugar em Bale, Suíça, em 1897; no sentimento de culpa europeu e sequelas por causa do “Holocausto” e, sobretudo, pelas promessas do governo inglês feitas durante a IGG (declaração de Balfour, de 1917), entregue ao Barão de Rotchild, um dos principais apoiantes da causa sionista, em troca do apoio desta à entrada dos EUA na guerra, contra os alemães. Um facto muito pouco estudado e evidenciado por historiadores, políticos e diplomatas…

    Ajudava ao caso, o facto da Grã – Bretanha deter o mandato para a administração da Palestina, outorgado pela defunta Sociedade das Nações, em 1922.[1]

   Ora a instauração do Estado de Israel, do modo como foi feita e pela não resolução adequada da situação dos povos que por lá habitavam havia séculos, levaram à não aceitação do “status quo”, por parte da grande maioria do mundo muçulmano, o que tem originado, desde então, várias guerras, terrorismo internacional e uma instabilidade permanente.

    Jerusalém é, por via de tudo isto, um epicentro que está sempre na linha da frente de uma deflagração bélica a nível mundial.

    A decadência de séculos, a memória de uma antiga civilização florescente, a ocupação colonial europeia, as sucessivas derrotas militares e a pobreza endémica em contraste com a opulência malsã das cliques de governantes, transformaram a reconhecida resignação do árabe num sentimento de profunda humilhação e revolta.

    O único traço de união e esperança é a religião, a que se agarram como tábua de salvação e coesão por não lhes restar mais nada. Mas, por outro lado, é a própria religião, pelas imposições dogmáticas que faz e por querer dominar o pensamento, a vida social e o próprio Estado, que impede qualquer progresso e evolução. Por isso a investigação científica quase desapareceu, as artes plásticas não têm expressão, a literatura é pobrezinha, enfim a cultura e o engenho definharam. O mundo muçulmano não inventa nem cria nada que se veja, desde o século XII…

    A baralhar ainda mais as coisas existem divisões religiosas profundas entre muçulmanos, as mais visíveis das quais são entre Sunitas e Xiitas.

     Como pano de fundo actual, devemos ainda considerar duas realidades da maior importância: a primeira é a dicotomia entre a “UMA” e os regimes políticos que governam os respectivos povos; a outra é a geopolítica do petróleo (e gaz natural).

     A UMA representa a comunidade dos crentes, ou seja a irmandade de todos os povos submetidos ao Islão. Esta ideia é universalista e não entende a necessidade de fronteiras ou de estados diferenciados. Aspira a um novo “Saladino”que una todos os crentes numa única humanidade…Esta ideia percorre transversalmente todos os povos islamizados e torna-se, por vezes, antagónica da existência de poderes diferenciados e locais. A realidade politica definida pelas fronteiras coloniais apenas serve para exacerbar este conflito.

     A geopolítica do petróleo torna o Ocidente refém da sua importância, dado que as sociedades desenvolvidas basearam a sua riqueza e progresso material nos combustíveis fósseis. E deixaram desenvolver-se, no seu seio, verdadeiros “estados dentro do estado” que são os colossos das grandes companhias que exploram e negoceiam o produto. Ao ponto dos interesses destas multinacionais chegarem a sobrepor-se ao interesse dos países ocidentais. Agora também da Rússia.

     Ou seja não se faz o que se deve, mas sim o que interessa a este negócio/dependência.

    Por outro lado os povos dos países muçulmanos produtores não se sentem tocados, na sua generalidade, com os benefícios que esta enorme riqueza e “arma” estratégica lhes poderiam proporcionar.

    O resultado é o aumento das tensões sociais, a pobreza arrastada e a falta de qualidade de vida; a demografia galopante, cuja tradição social, imperativos religiosos e interesses políticos, potencia, vai obrigar à emigração em massa, por causa do desemprego existente.

    As maiores vitimas deste fluxo migratório, que se descontrolou, foram os países europeus da margem norte da bacia mediterrânica.

     A situação está prestes a gerar conflitos insanáveis devido ao excesso de permissividade das leis das sociedades ocidentais e porque as comunidades islâmicas não se integram, por norma, nos países de acolhimento.

     As tentativas dos países da UE em os integrar falharam redondamente e as tentativas para dourarem a realidade com o “multiculturalismo”não resistem à mais leve análise. A recente confissão da Srª Merckel deu – lhe o golpe de misericórdia.

     Mesmo iniciativas políticas para melhorar o comércio e o desenvolvimento económico e social, como foram as 5+ 5 e a Declaração de Barcelona, respectivamente em 1990 e 1995, foram tardias e pouco lograram e os recentes eventos mataram-nas de vez.

     Finalmente a constituição de duas forças militares da UE, para o Mediterrâneo, a Euroforce e a Euromarforce, criadas em 1995 (em que participam forças da França, Espanha, Itália e Portugal), foram vistas pelos países do Magreb, como uma ameaça.

     E foi assim que chegámos à actual sucessão de eventos de revolta político/social, que varre todo o mundo islâmico de Marrocos ao Iémen, com um efeito de dominó notável. E que, tanto quanto se sabe, “ninguém” provocou ou previu. E não parece ir parar por aqui…

    Para a Europa a que pertencemos, estes eventos além de irem evidenciar, mais uma vez, as perplexidades europeias e a falta de entendimento crónico e atempado dos “27”, vão ter reflexos previsíveis em quatro áreas fundamentais:

  • Aumento do preço do petróleo/gaz e perturbação no seu mercado;
  • Aumento, por arrastamento, de todos os restantes bens, de que os mais graves parecem vir a ser, os alimentos;
  • Instabilidade/ameaça relativamente ao investimento já efectuado, ou a efectuar, nos países atingidos;
  • Aumento da emigração e possível exacerbar das tensões entre as comunidades de emigrantes, já existentes.

     Acresce a todo este quadro as incógnitas em catadupa relativamente à estabilização político/social em cada um dos países ora afectados pelas sublevações populares. Cada um irá ter o seu “processo revolucionário em curso”…

     E não é estimável que se venham a estabelecer regras de estado de direito democrático, como são entendidas no Ocidente (embora a sua prática deixe muito a desejar), em virtude das tradições politicas, culturais e religiosas dos povos em questão. E é difícil de prever o grau de influência do “Fundamentalismo Islâmico”…

    A perigosidade do momento aconselhava a que os países europeus (já que persistem na ideia da União), abandonassem a única coisa que têm sabido e tido a coragem de fazer, que é a de aproveitar as crises ou o seu intervalo, para fazerem uns negócios e tentar resolver as crises politico/sociais com subsídios a esmo. Não tem sido bonito nem eficaz.

      Melhor seria imporem regras estritas dentro dos seus territórios, relativamente ao comportamento dos emigrantes. Quem chega integra-se e cumpre a lei; quem não quer não entra ou é expulso na hora. Ponto final. A emigração tem, aliás, que ser parada, por uma simples razão demográfica: com os números actuais a Europa desaparecerá em poucas décadas. É tão simples quanto isto e não há “direitos humanos” que nos valham!

     A Europa, isto é, os países europeus, têm que voltar a querer defender-se. Têm que ter uma estratégia e esta não existe sem Forças Armadas a sério. Os conflitos e as guerras não vão desaparecer.

    O modelo de desenvolvimento tem que voltar a ser baseado em valores (respeitar o dos outros não quer dizer destruir os nossos…), e não no negócio a qualquer preço. E já se devia ter, há muito, começado a encarar seriamente alternativas aos combustíveis fósseis.

    Os problemas dos países muçulmanos têm que ser confinados e resolvidos por eles próprios. E as relações têm que ter reciprocidade, isto é, se não deixarem construir igrejas nos seus países, por ex., nós não podemos fechar os olhos a isto e facilitar os pedidos das suas comunidades…

     Ter estadistas que entendam o que se passa e tenham nervo para tomar medidas sérias e difíceis, parece ser uma miragem enquanto os políticos forem escolhidos maioritariamente nos oriundos das juventudes partidárias e eleitos em pugnas circenses de grande visual e medíocre substancia.

     Entre nós, portugueses, passámo-nos a julgar “pequeninos” e por isso nos tornámos indigentes e saloios. Senão atalharmos caminho, brevemente teremos os nossos dias de “raiva”. O país, com muçulmanos ou sem eles, irá para o fundo.

 

25.02.2011

 

   João J. Brandão Ferreira

                   TCorPilAv (Ref.)    

 


[1] Outro ponto pouco conhecido, mas curioso, tem a ver com o facto de se ter pensado instalar o Estado de Israel, no planalto angolano…

In http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2007
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2006
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2005
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2004
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D