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A bem da Nação

A TOCAIA

 

Foto: arquivo particular

 

Nestas terras triangulinas os sírio-libaneses fizeram desde 1880 local de recomeço de uma nova vida, longe das perseguições religiosas que nas Terras de origem lhes arrebatavam filhos e tiravam o chão. Era nas lojas de comércio por eles levantadas que se encontravam os Maiorais da região, aonde compras e vendas de gado se concretizavam entre invernistas e mascates, aonde as notícias chegavam e se divulgavam, e as tendências e disputas políticas se mostravam.

 

Na Venda do Jamir a conversa estava animada. O assunto, a disputa à cadeira de Prefeito, rolava tumultuado entre pareceres de simpatizantes e adversários do candidato do Coronel Ovídio, o Manda-Chuva do lugar. Vez por outra espíritos mais independentes afrontavam a escolha do Coronel, prestigiando e valorizando uma nova figura que chegara naquelas paragens já há algum tempo, o Dr. Ludovico, médico, boa gente, esclarecido nas novidades da capital. Quem sabe assumindo a Prefeitura ele não pudesse trazer mais progresso e recursos para aquela longínqua comunidade? A conversa fervilhava quando o Coronel chegou, sempre cercado pelos seus fiéis capangas. Chapéu Panamá, terno de linho bege, muito bem passado, botas de cano alto, onde se via o cabo de prata de uma faca ali enfiada. À cinta, no coldre, um “chimite”, pronto para qualquer eventualidade... O Coronel Ovídio era figura conhecida em toda a redondeza. Alto, magro, barba e bigode, sempre bem aparados. Tinha porte, olhar penetrante, observador, a quem não escapava nada. Fala macia, vagarosa, pensada, porém firme, como a daqueles que conheciam sua força e seu “gado”. Suas palavras e indicações políticas eram lei para seus seguidores, protegidos e agregados. Ser escolhido pelo Coronel era ser eleito na certa. Mas as coisas estavam mudando. A modernidade chegava com a estrada de ferro e as notícias da capital. O poder dos coronéis estava ameaçado e naquelas bandas a ameaça chamava-se Dr. Ludovico.

 

Estatura mediana, um tanto rechonchuda, olhos claros, risonhos, meia-idade, simpático, popular, fácies glabra, porém corada de quem apreciava uma boa prosa embalada por uma "branquinha", na birosca, à tarde, depois das consultas. Tinha senso de humor. Chegara com ideias e ideais para desenvolver a terra e explorar seus potenciais. Era médico, casado, sem filhos. Dava consultas de graça a quem não podia pagar. A boa política em poucos anos lhe valeu um hospital e o reconhecimento da comunidade que escolheu para viver e trabalhar. Foi quando resolveu, estimulado pelos amigos, se candidatar a prefeito. No interior, entrou na guerra do poder, angariou simpatizantes e também inimizades.

 

Com a política veio o desassossego, as ameaças veladas. Todos os dias bilhetes anónimos apareciam debaixo da porta de casa, incitando-o a que desistisse da candidatura. A presença dele não era mais benquista, não iria chegar às eleições vivo. Deveria ir embora antes que fosse tarde demais! Ali, naquelas terras sertanejas, ninguém escapava das tocaias... Apesar do medo, recuar naquela altura seria dar força ao candidato do Coronel, seria a negação a tudo que ele defendia e propagava, a liberdade de escolha, o progresso para a região. Não desistiria. Pacífico por natureza, no entanto, passou a andar armado. Nas viagens periódicas que fazia às propriedades rurais, levava sempre com ele um negro forte, alto e espadaúdo, um verdadeiro "armário", de nome Tertuliano, para lhe dar assistência. Topetudo, falador, o ajudante tinha fama de bom motorista e eventual atirador, para as situações mais difíceis...

 

Já perto das eleições, após um dia de chuva, ao voltar de uma fazenda, viram ao longe, na estrada enlameada, escorregadia, uns galhos de árvores bloqueando a passagem. Bateu no estômago "aquele" frio. Pensaram em dar ré e tomar outro destino. Mas, para o desespero dos dois, atrás deles um furgão se aproximava em zig-zag pelo caminho. Instintivamente o médico levou a mão à arma; era uma tocaia. Flauzino, o condutor da C-10, avaliando de relance a situação, com um sorriso nervoso na cara assustada, disse ao médico, pisando fundo no acelerador:

 

- Não se preocupe patrão, não vai ser um furgão ou uns pauzinhos de m... que vão nos parar não. Quero ver quem vai ter ”peito” pra ficar na nossa frente, passo por cima e ainda mando bala a quem vier atrás...

 

Mas, à medida que o carro se aproximava, viram com terror que era uma sinalização... A chuva havia danificado a pinguela que passava sobre o córrego, agora cheio com as chuvas de Verão. Tarde demais... a freada brusca, a derrapada, a bacada, vieram em cascata, violentas, estrondosas, rebentando a suspensão da caminhonete, disparando a garrucha, num estranho barulhão. As aves do Cerrado levantaram em assustada debandada geral... Tocaieiros... não foram vistos não... Só os fiscais de abatedouros clandestinos, que vinham no furgão, atrás, que por sorte da dupla desastrada, puderam ajudá-los a rebocar o que sobrou da C 10. Apesar do mergulho no córrego, salvaram-se apenas com algumas mossas e arranhões. Dias depois votaram e venceram a eleições!

 

Uberaba, 15 de Setembro de 2010

 

 Maria Eduarda Fagundes

 

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