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A bem da Nação

ESTÓRIAS DE UMA CALOURA...

 

Naquele final de tarde calorento de um dia de Verão carioca estava bastante cansada. A perspectiva de encarar um ónibus atulhado de gente às 6 horas da tarde deixava-me desanimada. E, ainda, carregando aquele embrulho desengonçado que a cada passo que eu dava insistia em sair do seu esconderijo de papel pardo.

 

Mesmo sendo filha de imigrante sem muitos recursos, me considerava uma privilegiada. Depois de anos de estudo em colégios públicos, o que para aquela época dos anos 60 era uma vantagem, com muito empenho, esforço e sacrifício dos meus pais, através de um concorrido concurso público, entrei enfim na Faculdade Federal de Medicina e Cirurgia do RJ. Era a realização de um sonho acalentado desde o Colégio Pedro II.

 

Os livros das matérias básicas comprava, os demais buscava nas estantes da biblioteca da faculdade. A lista de matérias era enorme e como prova-de-fogo para os calouros as aulas de anatomia inspiravam um misto de terror e curiosidade.

 

Situada numa ala mais isolada, a Sala de Anatomia abrigava em suas paredes azulejadas mesas altas, para as dissecções, armários com ossos, já preparados para estudo (ossário), e tanques com corpos de indigentes, abandonados no IML, sem parentes ou donos. Murchos, escurecidos pelo formol, estavam prontos para dar a sua última contribuição à humanidade, o seu próprio corpo para estudo e primeira lição aos calouros: a humildade. Ali eles eram a prova cabal, a suprema verdade, sem o espírito que nos anima não somos nada. Só um monte de ossos e carne.

 

Depois das aulas, saí da Escola escondida, fugindo do trote, não queria minhas unhas cortadas, meu cabelo pintado e nem minhas roupas sujas de ovo. Fui a pé até a Central do Brasil para pegar o ónibus. No ponto as pessoas se apinhavam, procurando um lugar para entrar primeiro. O suor brotava da fronte e corria na face daquela gente como uma viçosa nascente. Ansiosos, todos queriam chegar a casa mais cedo, depois de mais um dia de trabalho. Filas se formavam na tentativa de ordenar a entrada nas conduções que, via de regra, chegavam sempre atrasadas. Já dentro dos ónibus os passageiros que ficavam em pé se acotovelavam, buscavam um pouco de espaço. Procurei com os olhos um lugar para me acomodar, quem sabe com um pouco de sorte alguém se levantasse na próxima parada e eu assim poderia, enfim, me sentar. Mas qual nada, parecíamos sardinhas em lata. A cada solavanco, um protesto generalizado: - Como é que é, ó meu...vai mais de vagar...

 

Já quase sem ar, no meio daquela confusão de empurrões e odores, percebi que, como por encanto, as pessoas se afastavam e surgia um espaço. Alguém perto de mim se levantou e eu pude então, agradecida me sentar. Foi nesse momento que vi, ao me ajeitar, que do embrulho que eu carregava emergia, através do papel rasgado, branca e cheirando a formol, a cabeça de um fémur que levava para casa para estudar...

 

 Maria Eduarda Fagundes

 

Uberaba, 02/10/12

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