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A bem da Nação

GRANDES HOMENS

 

 

1930 - junco pirata fundeado no porto interior de Macau, aprosionado pela Armada Portuguesa

 

Ao contrário do que está escrito na Wikipédia, foi em 1521 que a pequena península de A-mao Gao, foi concedida, pelo Celeste Império, a um punhado de marinheiros portugueses, por terem exterminado o famoso pirata Tchang-sy-láo, que assolava os mares da China. Concessão feita para que os portugueses a partir dali pudessem comercializar não só com a China, mas com todo o Oriente.

 

Esses privilégios foram não só confirmados, mas prometidos a seus sucessores e compatrícios, no ano de 1809, quando, mais uma vez, os portugueses deram prova do seu inigualável valor, ao derrotarem outro temível pirata, Apocha, com o nome de Qua-apou-Chay e seu parente Ajuo-Chay, descendentes da antiga dinastia que os tártaros haviam expulsado do trono.

 

Em 1785 estes chins revoltaram-se, querendo retomar o trono que lhe havia sido usurpado, conseguindo uma multidão de apoio às suas ideias e começaram a atacar navios chineses e algumas ilhas de Quang-tong. Satisfeitos com os sucessos obtidos e engrossando cada vez mais adeptos, em 1807 chegaram a ameaçar o interior de Cantão, que aparelhou 80 taós (juncos de guerra) e várias lorchas (embarcações semelhantes aos juncos, mas de menor porte), que acabaram completamente derrotados.

 

Qua-apou-Chay e Ajuo-Chay eram os donos dos mares da China e a sua frota alcançava 600 juncos, 350 do comando do primeiro e 250 do segundo, além de auxiliados por milhares de lorchas. Diariamente apresavam centenas de barcos e recrutavam mais gente, chegando a contar com 40 a 60.000 combatentes! Com este potencial nada parecia resistir-lhes. Decidiram por fim dar também caça aos portugueses, que até 1805 haviam sido respeitados.

 

O Senado de Macau mandou logo construir um brigue “Princesa Carlota” entregue ao Tenente Pereira Barreto, uma fragatinha “Ulisses” ao Capitão de Artilharia José Pinto Alcoforado de Azevedo e Sousa e uma pequena lorcha de 20 toneladas ao Piloto José Gonçalves Carocha.

 

Saídos para o mar, no primeiro encontro desbaratam 50 juncos e táos, entre eles um grande táo de 20 peças e 350 homens que foi abordado pelo Tenente Barreto, seguido de trinta marinheiros; de espada nas mãos mataram toda a tripulação, que não se rendeu nem um! O valente chefe do táo, o último a ser vencido, à vista da derrota, agarrou a mulher pelos cabelos, decepa-lhe a cabeça com um só golpe e abraçado ao cadáver atirou-se às ondas. Tal a fama deste português (Tenente Barreto) que passou a ser chamado de Tigre!

 

Para se desforrar da derrota sofrida, os piratas chins decidiram ficar também pairando perto de Macau e ao saberem da partida do Tigre na Ulisses para o Rio de Janeiro para cumprimentar o príncipe regente, que o promoveu a Capitão-de-Fragata, saquearam algumas ilhas próximas de Macau e voltaram a atacar ferozmente a esquadra imperial, que mais uma vez desbarataram.

 

Pouco tempo depois, um brigue vindo de Goa foi acometido pelos piratas com toda a sua esquadra, que o cercou. O brigue foi abalroado, centenas de homens o invadiram, e depois de totalmente vencido foi conduzido à vista de Macau com a bandeira portuguesa arrastando na água em sinal de desprezo.

 

A situação tornara-se difícil para Macau, e para o Imperador que assinou uma convenção com os portugueses em que a China acordou em pagar 80.000 taéis de prata (cerca de 40 gr. cada) e Macau poria em serviço as seis embarcações de que dispunha.

 

A “marinha” de Macau não dispunha de mais do que 6 navios, com 118 peças de pequeno calibre e 730 homens:

- Inquestionável, de 400 toneladas e 26 peças, 160 homens, e o comandante em chefe o Capitão de Artilharia, atrás mencionado;

- Palas: 18 peças, 130 homens sob o comando de Luiz da Costa Miranda;

- Indiana: 24 peças, 120 homens comandado por Anacleto Alves da Silva;

- S. Miguel: 16, com 100, comandado por Félix José dos Remédios;

- Belizário: 18, com 120, comando de José Alves; e

- Princesa Carlota: 16, 100 comando do Piloto António José Carocha

 

A estes juntou-se a armada chinesa composta de 60 táos, 1.200 peças de artilharia e 18.000 soldados e marinheiros.

 

No primeiro dia de combate a maior parte dos juncos inimigos fugiu e dispersou, alguns foram queimados, outros afundados. Dias depois, à vista de Macau, apareceram os revoltosos com três grandes grupos de navios e ali mesmo perderam mais quinze, sem que alguma baixa se fizesse do lado português.

 

Qua-apou-Chay viu que tinha a temer só dos portugueses e propôs respeitá-los, não se intrometendo eles comigo, pedindo que o avisassem para não perseguir os vasos portugueses que navegarão livremente! Recebeu como resposta que se sujeitasse ao Imperador, que em Janeiro de 1810 propôs amnistia ampla a todos que se entregassem. Três dias depois encontraram-se os combatentes novamente e cortada a retirada a Aguo-Chay este mandou parlamentários para se entregar com 100 juncos, 30 lorchas e 8.000 homens, que o magistrado, ministro Arriaga, escolhido pelo revoltoso chin como medianeiro, aceitou. As embarcações foram entregues e as tripulações dispersas.

 

A mesma proposta foi feita a Qua-apou-Chay, que recusou, apesar de se ver sem o apoio do primo e de tantos navios e continuou rondando as saídas de Macau, julgando-se capaz de derrotar os portugueses.

 

A 12 de Abril apresenta-se com a sua esquadra de 300 juncos, 20.000 homens e 1.500 bocas de fogo, manobrando para formar três divisões, procurando dispersar os poucos portugueses. Alcoforado, comandante em chefe, ataca sobre a sua frente com os seis navios, de tal forma que a vanguarda inimiga, composta dos maiores juncos não pôde resistir ao choque. Dez ou doze foram logo desmastreados, quatro afundaram e os restantes dispersaram-se, dando espaço à segunda divisão já agrupada em torno dos portugueses. O ataque foi feroz, mas estes, ao fim de uma hora puseram os juncos inimigos fora de combate em completa fuga. Restava a terceira divisão aumentada com os dispersos das duas primeiras, ao centro da qual flutuava a bandeira de Qua-apou-Chay. O comandante português não hesitou em segui-lo e mandou atacar, jogando artilharia em todas as direcções, sem que algum tiro deixasse de acertar o alvo e ferisse horrivelmente.

 

Um dos navios mais importantes era o tal pagode, sempre escoltado por grandes juncos e várias lorchas, mas o Carlota ataca todos, atraca-o de tal forma que em poucos minutos o mar ficou coalhado de ídolos e figuras infernais, sem escapar um único bonzo (sacerdote), nem pessoa que nele estivesse! Esta terrível perda para aqueles fanáticos e a morte pavorosa dos bonzos com a destruição dos ídolos, acompanhada do fogo incessante que os portugueses continuaram fazendo, todos os que puderam, fugiram. Os mais afoitos acabaram bloqueados, e Qua-apou-Chay, convencido da inferioridade dos seus meios, mandou parlamentário, propondo capitular. Pedia ainda ao comandante Alcoforado a honra de uma visita para conhecer de perto tão grande Capitão.

 

Temiam oficiais e marinheiros que isso seria um ardil e aconselhavam-no a não aceitar o convite, mas Alcoforado foi-se encontrar com o grande adversário que lhe disse: “Senhor, tinha intenção de forçar o bloqueio, sacrificando parte da minha esquadra, composta ainda de duzentos e setenta juncos... mas a galhardia com que acabais de confundir-me tira-me todos os desejos de lutar contra os portugueses. Vou entregar-me nas suas mãos.”

 

Foi aceite a capitulação, mas o entendimento entre o chefe revoltoso e o governador de Cantão, era de desconfiança mútua. Foi mais uma vez Alcoforado o homem de confiança a quem, ambos os lados, entregaram o desfecho da guerra, tendo Qua-apou-Chay recebido a dignidade de mandarim e Almirante Chefe do Celeste Império.

 

Saiu a frota imperial chinesa para o mar, passando por Macau. O inimigo vencido e reconciliado foi recebido com solenidade no Senado, e disse:

 

- “Deus imortal! Estão completos os meus desejos, vendo e abraçando os únicos homens que eram capazes de arrostar e destruir o meu poder. Onde está o valoroso comandante da Lorcha Carlota?”

- Às vossas ordens , respondeu Carocha, oferecendo-lhe a mão.

 

Qua-apou-Chay, com a gravidade chinesa, deu-lhe um demorado abraço, dizendo para os que o rodeavam:

 

-Eis o homem que mais dano me causou. Ele só, e a sua lorcha, inquietavam a minha esquadra; mas quem pode igualar os portugueses?

 

Eram assim os portugueses de antanho! Grandes homens que a história, medíocre ou covarde, esqueceu.

 

Hoje choram pelo comodismo a que se entregaram, deixando os governantes desbaratarem o país!

 

 

Rio de Janeiro, 21 de Março de 2011

 

 Francisco Gomes de Amorim

 

Condensado do livro “Quadros Navais”, do Comandante. Celestino Soares, Lisboa, Imprensa Nacional, 1941.

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