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A bem da Nação

DOS USOS E COSTUMES AMBAQUENCES

 

 

(Ambaca é um município de Angola, cuja sede é Camabatela. A cerca de 250 km a NE de Luanda)

 

Extracto de um relatório de Manoel Alves de Castro Francina, 1846:

 

Os usos e costumes desta gente são difíceis de descrever; todavia, segundo as melhores informações, o mais notável entre eles é a maneira por que fazem os seus cazamentos, enterramentos, e óbitos. Nos casamentos observa-se o seguinte:—Depois de um esplendido jantar, quando elle dá para isso, o noivo é quasi violentado a recolher-se com a noiva ao quarto preparado, onde com antecipação se põe ao pé da cabeceira da cama uma arma carregada: depois de duas horas, mais ou menos, os parentes da noiva impacientes por saber se ella foi ou não achada intacta, e se o noivo é ou não varão perfeito, batem fortemente á porta com immensa gritaria, sem duvida ajudada pelo Baccho, que em taes occasiões sempre se gasta (ou caxaça) até que o noivo dê signal de si, e da honradez de sua mulher, disparando um tiro por uma janella, com a arma de que já fallei, ao qual correspondem todos com applausos e repetidos tiros, ficando depois os noivos tranquillos o resto da noite, em quanto os parentes e amigos folgam contentes e satisfeitos. Se o noivo não dá o tiro, provado fica que o matrimonio não está consumado ou que em algum delles ha falta; neste caso ficam tristíssimos, e tratam logo de indagar de onde ella provém. Se o homem acusa a mulher de falta de honradez, o sogro ou outros parentes tratam, por meio de dadivas de resolve-lo a que não faça o caso mais publico por meio de separação, ao que quasi sempre se annue; mas se pelo contrario ella accusa o homem de impotente, o casamento é immediatamente desmanchado, e fica o homem por este facto mal visto e aborrecido.—O mesmo observam os não casados, servindo-se de uma garrafa cheia de agua-ardente para provar a honradez da amasia, e meia para o contrario. —Outros ha casados, que tem o estado de casado como nada, porque sendo-o, têem em casa (por grandeza) além de pessoas livres (por amasias) um sem numero de mucambas, em quartos preparados no fundo de seus grandes quintaes, onde não entra um só escravo (homem) em que supponham já malícia: as respectivas mulheres são mudas expectadoras.

 

Nos enterramentos e óbitos seguem o seguinte: declarada a moléstia, é logo mudado da casa do amasio ou amasia para a de seus parentes, para ser tratado, e acontecendo fallecer é então carregado para a própria habitação, a fim de se tratar do enterramento, antes do qual procede-se a muitas nigromancias, fazendo até deitar o morto com a amasia, ou vice-versa, para terem copula; depois d'isto feito corta-se ao morto algum cabello, e as unhas, e metendo-as com diversos milongos em um pequeno embrulho, são levados a enterrar em logares privativos a que chamam «Quindos», levantando sobre a sepultura um tumulo, onde assentam diversas quinquilherias, como figuras de barro, pratos, tigellas, garrafas, etc, o qual é abrigado por uma casinhota que se faz de pé para a mão, a que dão o nome de «Quindumbila ». Este logar é diariamente varrido por pessoa de família, ou escravo reservado, e de tempos em tempos lançam sobre o dito tumulo algumas bebidas, e manjares em signal de commemoração: depois de todo este processo são ambos levados em tipóias differentes para a casa do sogro, a que elles chamam «Sogaragema» ahi fica o que sobrevive, e levam então a enterrar o cadáver no cemitério mais próximo (por haver muitos); concluído o enterramento, aquelle é levado ás costas de pessoa do mesmo sexo á borda do 1.° rio, que encontram, onde é lançado para ser lavado, ao que elles chamam tirar o «Usse», e sendo depois reconduzido para a sua casa fica encerrado por oito dias, privado de comer cosido, de lavar o rosto, e até mesmo de fallar a pessoa de differente sexo; também fica privado de ter claridade no quarto: nestes dias de óbito se matam muitas criações para sustento dos hospedes, que também presenteam ao individuo de nojo, para mais continuação e sustentação dos grandes batuques, constituindo-se assim sucessivos banquetes, em quanto duram os meios, nos quaes nada mais realça que completo prazer, e satisfação. Muitos ha que não tendo meios para fazer brilhante o óbito, lançam mão de algum parente, e o vão hypothecar por dinheiro ou fazenda, a quem dão o nome de «Gunge». Depois de oito dias é que se varre o quarto, podendo então ter claridade, e comer quente, e convocando-se então todos os parentes fazem sentar o filho mais velho, quando os tenha, em uma benza (pequeno assento quadrado, feito de bordão), põe-se-lhe á cabeça uma caginga (espécie de solideo feito de palha de palmeira desfiada), e se lhe pede a apresentação de todos os papeis do defunto, para verem se ha liberdade a fazer valer, quando não possam annulla-las, e finalmente apresentando todos os bens que houver; o tio do «Cabingano » (entre nós o primeiro herdeiro) tudo leva, por ser este entre elles o considerado legitimo herdeiro (sendo irmão materno), e o desgraçado filho fica sem nada, principalmente sendo menor, e que não tenha podido subtrahir alguma cousa.—O viuvo ou viuva conserva-se por um anno guardando castidade, e só depois deste tempo se pode unir a outra pessoa quando o fallecido não tenha deixado parente em gráo mais chegado, com quem neste caso deve amancebar-se; para se declarar o desembaraço do viuvo ou viuva convoca-se de novo a parentalha, mata-se então um cabrito, e uma galinha, que cozinham com certas mindráculas para todos comerem; e se aquelle não prova da tal comezana, o acusam de incastidade, fazendo-lhe recair criminalidade, de que facilmente são convencidos, expiando-a depois com dadivas por elles arbitradas, e convencionadas.

 

Os da classe mais elevada passam pela maior parte destas cousas muito em segredo.

 

As mulheres de Ambaca logo que parem são levadas a um rio para serem lavadas, ou em gamelas em casa, segundo a posição dellas, sem que disso lhes resulte o menor mal.

 

DAS OPANDAS OU ADULTÉRIOS.

 

Quando qualquer homem desconfia da fidelidade de sua amasia, ou mesmo não desconfiando pretende com ella ganhar alguma coisa, força-a por meio de pancadas, a dizer que tem commettido opanda com este, ou com aquelle, e se o não faz é victima de seus furores; naquelle caso o amasio manda chamar logo um dos parentes della, que de ordinário é o tio, e fazendo-lhe patente a declaração, o encarrega da cobrança da expiação do crime, arbitrada em enormes quantias; o sugeito que o não tem commettido, mas, a quem é attribuido o crime, se recusa pagar, é citado para a presença do Chefe, e quando mesmo assim não é por testemunhas convencido, se resolve depois a pagar dentro em pouco tempo, por temer os feitiços, de que se servem muito a miúdo. Com esta acusação de infidelidades nem por isso o acusador se separa da acusada, porque deste procedimento lança mão muitas vezes, attribuindo opandas ora a um, ora a outro. Se a mulher ajudada por seus parentes se resolve a separar-se de tal monstro ou flagello, este faz logo conta aos dispêndios que tem feito desde os seus primeiros amores, e ella ou seus parentes, resignados a não querer que continue a viver em companhia de similhante homem, pagam toda a despeza, levando-se então em conta alguns offerecimentos que della tenha recebido, ou de sua família, formando-se assim uma conta corrente. —O mesmo ajustamento de contas se faz quando uma mulher lembada por qualquer homem, isto é, buscada da casa de seus paes, a troco de dinheiro adiantado, e achada por este imperfeita: ou estando unidos por um, ou quando muito dois annos, não tenham tido filhos; e neste caso são obrigados a separar-se dando se a mulher a outro, porque suppõem que o defeito sempre está no homem, a quem dão então o nome de «NBaco ou Xole.»

 

(a continuar, se...)

 

02/04/2011

 

 Francisco Gomes de Amorim

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