DEVANEIOS
NA SAGA DOS XÊTES DE GOA (Sécs. XVI/XXI)
XÊTE, XÊTTE e XÊTTY são étimos da língua concani falada em Goa e nas terras limítrofes. Sua transliteração em português deu o étimo SETY, conforme se encontra escrito nos Arquivos da Torre do Tombo, e em inglês gerou o étimo SHETYE.
Antes de discutir o tema em epígrafe urge frisar que o Estado da Índia, fundado por Albuquerque em 1510, apenas abrangia os distritos provinciais de Tisvadi (Ilhas), Salcete e Bardez com uma área de c.1044 km2 e assim mantidos até os anos de 1700. Outras nações europeias vieram fundar suas “colónias” na Índia, pelo que Portugal, em defesa e em consolidação do minúsculo Estado da Índia, guerreou os pequenos potentados indianos circunvizinhos, conquistando-os e anexando assim ao seu citado Estado, uma área de 2.655 km2, que foram a origem de sete novos concelhos provinciais: Bicholim, Canácona, Perném, Pondá, Quepém, Sanguém e Satari. Após a invasão de 1961, o Estado da Índia (sem Damão nem Diu) deu lugar ao actual Estado de Goa com 3.702 km2 e que inclui as chamadas “Novas Conquistas” do século XVIII.
No plafond histórico descrito, de 1541 a 1630, os indus de Goa, incluindo os Xêtes e ourives profissionais da casta charadó ou outra, tiveram duas opções, a saber: a saída de Goa com seus parcos haveres móveis e seus deuses ou a aceitação da Fé Cristã pelos jesuítas (Salcete), franciscanos (Bardez) e dominicanos et alii (Tisvadi). Do exame minucioso dos Registos do Arquivo Geral de Goa, compilado por Francisco Paes e depois divulgado e comentado pelo arqueólogo e historiador Panduronga Sacarama Sinai Pissurlencar (f.1969), apurou-se que, de um milhar de indus de Goa cristianizados na citada época, apenas alguns dos Xêtes, ourives profissionais, foram cristãos: Mallu Vittu Xêtty, em Parrá (1580); Vitu Xête, filho de Boguna Xête, em Aldonã (1595); três Xêtes - Bicu, Logu e Vitu – em Colvale (1595). Não houve qualquer Xête cristão convertido em terras de Tisvadi. Na Província de Salcete, Issara Sety (Xêtte) fez-se cristão em Davorlim (1625) com o nome de Miguel Vaz, enquanto seu pai Marta Sety abraçou o Cristianismo com o nome de Domingos Vaz.
Dos Registos do Arquivo Geral de Goa não constam as profissões dos indus cristianizados, ignorando-se no punhado de Xêtes se houve ou não um ourives cristão. Todavia no alvorecer do século XX o filho duma mãe solteira, filha de pai cristão e ourives profissional, natural de Raia, Salcete, recorreu ao Tribunal reclamando seus direitos de filiação, embora ilegítima, com o patrocínio do advogado Soares Rebelo (1873/1922) (Cf. Investigação de Paternidade Ilegítima, Nova Goa, 1902, in Volume IV de Obras Completas, Alcobaça, 2010). Actualmente, todos ou quase todos ourives de Goa são da cepa indu, através do país.
Há quem remonte a ancestralidade do clã Shetye aos anos de 1534/44 e afirme que o seu fundador fora oriundo da aldeia Narve, de Bicholim. Relata-se mais que ele emigrara de Goa para Kholapur no Maharastra, levando consigo seus deuses e os parcos haveres familiares, para escapar à onda de cristianização aí ocorrendo. Desse Sety (Shetye) nasceu na grande Índia uma pequena comunidade com seus membros radicados na Índia, na Europa e até mesmo nos estados norte-americanos de Carolina do Norte, Florida, Louisiana e New York.
Os primeiros ourives indus a pisar o solo americano, porém, foram dois inominados e naturais de Taleigão (Tisvadi) que, apanhados a tratar dos seus arrozais inundados pelas chuvas copiosas da monção de 1699, foram presos, julgados e condenados à expulsão de Goa para Brasil como presos das galés, pelo desrespeito dum Edital da Inquisição de Goa proibindo o trabalho braçal em dias domingos. Nessa ocasião também foram apanhados 38 cristãos de Taleigão, de 18 a 60 anos de idade, não-excomungados mas condenados a dois anos de galés ou da Casa de Pólvora (onde eram frequentes as mortíferas explosões). Seu crime fora o desrespeito do Edital da Inquisição. Todos esses 43 goeses foram condenados em nome da sublime religião do Salvador da Humanidade. O tempora! O mores!
Alcobaça, 27.08.2012
Domingos José Soares Rebelo
