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A bem da Nação

Divagando pela Utopia – 2ª parte

Resumo da 1ª parte: Nesta série de diálogos dedicamo-nos à utopia e tanto melhor se tivermos tempo para a realidade; a moral e a economia têm que se basear em raciocínios puros para que de seguida possam perceber e moldar a realidade, nomeadamente a política; a política portuguesa é hoje kafkiana, a menos que a classifiquemos de absurda por totalmente alheia à moral.

 

Plausível -– No final da sessão anterior combinámos que hoje falaríamos da actual cotação do Dólar que está muito em baixo.

Utópico –- Bem, eu creio que a Rupia Indiana tem tido uma variação uniforme relativamente...

Plausível –- Desculpe. Estávamos a falar do Dólar americano.

Utópico -– Ah! Tem razão; o mundo está centrado no Dólar americano e nós, europeus, estamos sempre a estabelecer o paralelo dele com o Euro. Mas, à semelhança do que alguém dizia a propósito de outro tema, há mais mundo para além do Dólar. Esta quezília euro-americana constante é hoje perfeitamente artificial e vem dos tempos do General de Gaulle. São claramente ressonâncias da II Guerra Mundial que já deviam estar mais do que ultrapassadas. Creio que são totalmente injustas para os americanos e inconvenientes para os interesses europeus e não vejo nessa confrontação qualquer interesse estratégico relevante. Estamos quase numa de “nós fazemos o contrário dos americanos para provarmos que não dependemos deles”. Ridículo, é o adjectivo que aplico nesta atitude. Já reparou que todos blasfemam porque o Dólar subiu? E já reparou que todos blasfemam quando o Dólar baixa? Então no que ficamos?

Plausível –- Exactamente: então no que ficamos?

Utópico –- Ficamos numa de que devíamos considerar fundamental identificar os interesses europeus e defendê-los, independentemente do que os americanos façam ou deixem de fazer.

Plausível –- E que interesses são esses?

Utópico -– Comerciais, claro. Que estrutura comercial existe entre a Europa e os Estados Unidos? Se o Dólar está caro face ao Euro, isso embaratece as exportações europeias para a América e dificulta as exportações americanas para a Europa. Se o Dólar está fraco, isso encarece as exportações europeias para a América e facilita as exportações americanas para a Europa. Mas repare que o todo poderoso petróleo é internacionalmente cotado em Dólares americanos e até mesmo o Brent é nessa base que funciona.

Plausível –- Porquê?

Utópico -– Porque os europeus –- que o produzem e que o consomem –- ainda não foram capazes de fazer valer o Euro. Bem sei que o Euro ainda é uma criança que teve uma gestação artificial e que acabou por nascer tirada a ferros e, logo por azar dos europeístas, os maiores produtores europeus nem sequer pertencem à Zona Euro: a Noruega e Inglaterra. Mas isso altera por completo o raciocínio de há pouco. Quanto mais barato estiver o Dólar, mais barata fica a factura de petróleo apresentada aos países importadores, nomeadamente Portugal. Portanto, os interesses europeus não são minimamente solidários pois é lógico que os europeus exportadores de petróleo queiram um Dólar forte e os outros queiram um Dólar fraco. Como o relativismo é definido globalmente no seio do Banco Central Europeu, é bem de ver o tipo de discussão que se faz naquele Banco. Aliás, deve também ser por esse tipo de questões que já fomos corridos do BCE.

Plausível –- Quem é que foi corrido do BCE?

Utópico –- Os pequenos Estados Membro da UE, nomeadamente Portugal.

Plausível –- Mas...

Utópico –- Não há “mas” nem meio “mas”. É assim mesmo. Fomos corridos do Conselho de Administração do BCE e eu pasmo como é que os europeístas da nossa praça continuam a ter cara para aparecerem em público.

Plausível –- Bom, mas neste caso até estamos com sorte.

Utópico –- Neste caso do petróleo, sim. Mas e se fosse o contrário? Mas e noutras situações que se coloquem no futuro que nem somos capazes de adivinhar? Não nos deixam sequer opinar. Fazem o que muito bem entenderem e ponto final nessa discussão.

Plausível -– Mas achava correcto que o BCE tivesse um Conselho de Administração com 11 membros?

Utópico -– Tantos quantos uma equipa de futebol. O Coro da catedral de Dortmund tem muito mais elementos e todos cantam; só que têm maestro e o fazem de um modo coordenado e não à molhada. O problema não se coloca no número de membros do Conselho de Administração mas sim na decisão de excluir os pequenos para que as decisões sejam cada vez mais exclusivas de um número restrito de Estados Membro. Até que se chegue ao eixo Paris-Berlim e, depois, um pouco mais tarde, se radique apenas em Berlim com a belicosa expulsão de Paris por clamoroso e persistente incumprimento do então já velhinho e recauchutado PEC.

Plausível –- Mas a própria Alemanha não cumpre actualmente o PEC.

Utópico –- Isso é uma situação transitória enquanto não deglute por completo os neue Länder.

Plausível –- Os quê?

Utópico –- Os novos Estados, a ex-RDA.

Plausível –- Como deglutir?

Utópico –- Acha que os novos Estados tinham uma Economia capaz de funcionar com uma moeda tão forte como era o falecido Deutsche Mark? Avanço já que a resposta é negativa. Mas também é evidente que o processo de reunificação tinha que ser eminentemente político e não tecnicamente económico. Ou seja, a Economia tinha que ser mandada às urtigas e tinha que prevalecer a perspectiva política. No âmbito da reunificação não fazia qualquer sentido ter duas moedas num único país. Isso seria ab initio negar a própria reunificação. Seria um completo absurdo político e o processo era político e não económico. Quem preconiza ainda hoje que o Chanceler Kohl devia ter mantido as duas moedas em funcionamento, não queria mesmo que a reunificação se fizesse.

Plausível –- Mas foi um processo caro.

Utópico –- Não se pode ter tudo. Não é todos os dias que se compra um Estado inteirinho com alguns milhões de cidadãos. Era evidente que o processo de reunificação política ia ter um preço.

Plausível –- E a integração económica já está feita?

Utópico –- Não, nem nada que se pareça. Mas há-de lá chegar. Pode é demorar uma geração.

Plausível –- Bem, então enquanto esperamos pela nova geração de alemães, voltemos ao Dólar: a actual cotação não o preocupa?

Utópico –- Tem vantagens e tem inconvenientes, conforme as perspectivas importadora ou exportadora de produtos de consumo ou de matérias prima. O importante é que não haja oscilações bruscas. Mas isso tem muito a ver com a especulação bolsista; não tem quase nada a ver com a realidade económica. Quando os grandes operadores financeiros querem vender, lançam notícias que fazem subir as cotações; quando querem comprar, fazem cair o Carmo e a Trindade. E como o negócio deles é ganhar dinheiro com a obtenção das maiores margens possíveis entre a compra e a venda, cá andamos nós todos a reboque no sobe e desce duma interminável montanha russa. O mesmo se diga com as acções. Esses grandes operadores são habitualmente Fundos Financeiros nos quais participam milhares e milhares de pessoas e empresas com as suas pequenas, médias e grandes poupanças que compreendem muito bem a necessidade de se comprar e vender a tempo e horas. Se tomarmos em conta os dois lados do Atlântico, então teremos talvez que concluir que a maior parte dessas pessoas e empresas são americanas e que, portanto, é na América que quase tudo se decide nessas cotações. Os europeus falam muito mas quem decide são os americanos.

Plausível –- E acha isso correcto?

Utópico –- Não coloco a questão da correcção; constato a dimensão do fenómeno. A Europa não tem dimensão para se bater com a América. Mas olhe que o Dólar desceu apenas um pouco em relação a uma subida estrutural que tem tido de há relativamente muito tempo para cá. A subida é estrutural e esta quebra pode ser circunstancial. Os tais Fundos ditarão a moda mas eu creio que o «bilhete verde» não se deixa vilipendiar facilmente.

Plausível –- Mas há pouco ia falar sobre a Rupia Indiana.

Utópico -– Sim, é uma moeda de que se fala pouco mas que corresponde a uma Economia fenomenal. Mais que a China –- que continua com problemas políticos estruturais –- a Índia é a verdadeira esperança do mundo civilizado.

Plausível –- E o Japão?

Utópico –- O Japão já é uma grande realidade e, portanto, a evoluir, será num sentido equiparável ao americano e ao europeu. Está a passar por uma crise muito profunda que começou com o rebentamento da bolha na sequência do solavanco provocado pelo terramoto de Kobe e vai demorar muito tempo até que os imobilizados readquiram valores plausíveis e toda a escrituração ganhe credibilidade. Aquele sistema bancário e segurador vai ter que consolidar muita extravagância que fez durante décadas e só depois disso é que vai poder retomar uma vida normal. As loucuras pagam-se. As mentiras também.

Plausível –- Mas voltemos à Índia.

Utópico –- A Índia já é auto-suficiente no sector alimentar. Dir-me-á que há muita gente a comer muito pouco mas eu respondo-lhe que antigamente também havia essa mesma quantidade ou mais de gente a comer muito pouco ou quase nada e a Índia não era auto-suficiente e agora é.

Plausível –- E o Brasil?

Utópico –- Bem, proponho que falemos do Brasil e da Índia depois de um breve intervalo.

Plausível –- Muito bem. Façamos um intervalo.

 

Lisboa, Dezembro de 2004

 

 Henrique Salles da Fonseca

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