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A bem da Nação

COISAS DA ÍNDIA – 2

 

BASTIÃO PIRES EM COCHIM

 
 

Quando Bastião Pires chegou a Cochim os mecanismos da religião católica estavam já a funcionar perfeitamente e existiam muitas conversões: mulheres que se tinham ligado a soldados, marujos, comerciantes, à ralé, prostitutas que o constante e progressivo aumento da chegada dos portugueses veio aumentar o desejo de muitas mulheres nativas exercerem a mais antiga profissão do mundo.

 

Na propagação da fé cristã, os missionários do Padroado Português do Oriente não procuravam gente de qualidade ou de casta pura. Todas serviam e eram muito bem recebidas. Interessava, apenas, conseguir a conversão de grandes multidões. A selecção desses novos fiéis ficava para depois. A prostituição veio a ser um quebra-cabeças para Afonso de Albuquerque, porque pretendia que os seus homens não fossem atingidos pelas doenças venéreas, já muito desenvolvidas na Índia.

 Já antes de Albuquerque, em 1506, Dom Francisco de Almeida se insurgia contra as "mulheres de vida fácil". Desejava pôr termo e encerrar as casas de "porta aberta" de Cochim mas o hábito dos homens lusos de procurar essas mulheres já vinha de 1498, quando fizeram parte da armada de Vasco da Gama e descoberto o Caminho Marítimo para a Índia.

 

Onde as naus aportavam, os homens ataviados de cio pela longa permanência de meses nas águas dos oceanos, saíam para terra em busca do que a natureza do corpo lhes pedia. Vasco da Gama, na escala que fez em Quilôa em 1502, com a segunda armada para a Índia sob o seu comando, foi de tal ordem desassossegado por mulheres nativas e pelos seus homens que permitiu o acesso a bordo de 40 mulheres, que de suas vontades seguiram até Cochim.

 

Por lá ficaram depois. Antes de partir para conquistar Malaca, Albuquerque escolheu um local onde construir uma igreja afastada da fortaleza e substituir a capela dentro do baluarte. Mediu o terreno em frente do ancoradoiro das naus. Encomendou a obra e pensava Albuquerque que no regresso de Malaca estaria concluída mas tal não viria a acontecer durante os seus dois anos de afastamento. O empreiteiro tinha falecido e sumido o dinheiro adiantado. Bastião Pires, já Vigário de Cochim, informou El Rei Dom Manuel ter pedido dinheiro ao Vedor da Fazenda para as obras mais importantes. O Vedor respondera-lhe que a Fazenda não tinha provisões e o pouco, se ainda existisse, era bem melhor utilizá-lo em favor dos portugueses que em Cochim morriam à fome.

 

Bastião Pires decidiu ele próprio construir a igreja pedindo esmolas aos fiéis conseguindo valiosas dádivas de pardaus de ouro. Apesar de tanto ouro oferecido, a igreja ainda não estava construída em 1527. Em 1532, o novo vigário, Padre Manuel Vaz, comunicava ao Rei D. João III ter encontrado a igreja coberta de palha.

 

Com virulência atirava as culpas e o desleixo para Bastião Pires: «As obras da casa da oração não são mais, tão pouco menos que obras de Santa Ingrássia». Passado mais de nove anos, em 1514, uma carta da Câmara da cidade transmite ao Rei, em Lisboa que «....a igreja de Cochim estava cuberta de ola e feita hum palheiro».

 

 José Gomes Martins

(Bangkok)

 

http://portugalnatailandia.blogspot.com/2010/06/coisas-da-india-os-pecados-de-bastiao.html

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