PORTUGAL, O MUNDO MUÇULMANO E A EUROPA
“Em muitas coisas não pareces sucessor
de Pedro, mas sim de Constantino”
S. Bernardo, ao Papa Eugénio
No fim do século XI, princípios do XII, a Europa Cristã estava cercada.
A Norte pela calote polar; a leste por eslavos hostis e pela ameaça constante de Mongóis e Tártaros; a Sul e SE pelos povos islamizados, em rápida expansão. Esta expansão tinha, até, ocupado toda a Península Ibérica em poucos anos, a partir de 711, sendo travados por Carlos Martel, em 732, já no actual Sul de França.
Uma pequena bolsa de cristãos resistiu, porém, nas Astúrias e foi a partir daí que a Reconquista teve inicio, a partir do séc.IX. A navegação desde o Mediterrâneo até à Corunha não era dominada por nenhuma das partes e os conflitos eram constantes.
No princípio do século XII um magistral personagem que ficou conhecido na História por S. Bernardo, abade de Claraval (1090-1153) – a quem devemos muito da Europa que herdámos – ajudou a delinear uma estratégia para aliviar e resolver este sufoco (cerco): atacar directamente o Islão no seu coração – e libertando a cidade santa de Jerusalém – e conter ou expulsar as ameaças nos flancos.
Esta estratégia já vinha do tempo em que o Papa Urbano II pregou a Cruzada (o que aconteceu pela 1ª vez, em 1095, no Concilio de Clermont Ferrand) e incentivou a saída dos sarracenos da “Ibéria” – a Cruzada do Ocidente (que só se concluiu com a queda de Granada, em 1492). Tudo isto se veio a apoiar na criação e desenvolvimento das Ordens Militares e Religiosas, em que se distinguiram a Ordem Teutónica (fundamental para conter
as hordas bárbaras vindas de leste) e os Templários. Estas Ordens organizavam e enquadravam a colonização das terras libertadas e garantiam a sua defesa.
| São Bernardo de Claraval O.Cist | |
|---|---|
| São Bernardo de Claraval, representado em A Short History of Monks and Monasteries de Alfred Wesley Wishart, 1900 | |
| Abade de Claraval e Doutor da Igreja (Doctor Mellifluus) | |
| Nascimento | ?1090 em Castelo de Fontaine-lès-Dijon, Borgonha |
| Morte | 20 de Agosto de 1153 |
| Canonização | 18 de junho de 1174 por: Papa Alexandre III |
| Festa litúrgica | 20 de Agosto |
D. Afonso Henriques correspondeu-se com o Abade de Claraval – e é possível que ainda fosse seu parente – e Portugal muito deve a este monge (e estratega), depois Santo e doutor da Igreja, a sua independência.
Toda esta estratégia teve um sucesso parcial (não conseguiu destruir o Islão nem segurar Jerusalém), mas garantiu, com o desenvolvimento dos estados/nações europeus, a segurança das fronteiras da Europa, com uma zona de fractura nos Balcãs.
O declínio dos povos árabes e assimilados do Norte de África, bem como dos Persas, foi compensado com o Império Otomano cujo alargamento foi parado em Lepanto, em 1571 e às portas de Viena, em 1525 e 1683 (sendo atacado pela “retaguarda”, pelos portugueses, a partir de 1497), e circunscrito basicamente à Península da Anatólia, após os turcos terem sido derrotados na IGG. Durante 500 anos a guerra marcou sempre a sua presença.
A expansão europeia pelas quatro partes do mundo e o seu poderio crescente, levou a que várias das suas potencias ocupassem a maioria dos territórios islamizados do Norte de África e do Médio Oriente, durante o século XIX e princípios do XX.
Na sequencia da II GM e com a evolução do Direito Internacional e os “ventos” de autodeterminação dos povos, cada um destes países foi ganhando a sua independência baseada nas fronteiras coloniais e herdando todas as vicissitudes da sua atribulada História.
A complicar toda esta situação foi criado na Palestina, em 1948, o Estado de Israel, acabando assim um vácuo político da “nação” judaica que durava há cerca de 2000 anos. Um evento único na História da Humanidade.
Esta ocorrência deve-se, fundamentalmente, à acção do movimento Sionista fundado pelo húngaro Teodor Herzl (1860-1904), e cujo primeiro congresso teve lugar em Bale, Suíça, em 1897; no sentimento de culpa europeu e sequelas por causa do “Holocausto” e, sobretudo, pelas promessas do governo inglês feitas durante a IGG (declaração de Balfour, de 1917), entregue ao Barão de Rotchild, um dos principais apoiantes da causa sionista, em troca do apoio desta à entrada dos EUA na guerra, contra os alemães. Um facto muito pouco estudado e evidenciado por historiadores, políticos e diplomatas…
Ajudava ao caso, o facto da Grã – Bretanha deter o mandato para a administração da Palestina, outorgado pela defunta Sociedade das Nações, em 1922.[1]
Ora a instauração do Estado de Israel, do modo como foi feita e pela não resolução adequada da situação dos povos que por lá habitavam havia séculos, levaram à não aceitação do “status quo”, por parte da grande maioria do mundo muçulmano, o que tem originado, desde então, várias guerras, terrorismo internacional e uma instabilidade permanente.
Jerusalém é, por via de tudo isto, um epicentro que está sempre na linha da frente de uma deflagração bélica a nível mundial.
A decadência de séculos, a memória de uma antiga civilização florescente, a ocupação colonial europeia, as sucessivas derrotas militares e a pobreza endémica em contraste com a opulência malsã das cliques de governantes, transformaram a reconhecida resignação do árabe num sentimento de profunda humilhação e revolta.
O único traço de união e esperança é a religião, a que se agarram como tábua de salvação e coesão por não lhes restar mais nada. Mas, por outro lado, é a própria religião, pelas imposições dogmáticas que faz e por querer dominar o pensamento, a vida social e o próprio Estado, que impede qualquer progresso e evolução. Por isso a investigação científica quase desapareceu, as artes plásticas não têm expressão, a literatura é pobrezinha, enfim a cultura e o engenho definharam. O mundo muçulmano não inventa nem cria nada que se veja, desde o século XII…
A baralhar ainda mais as coisas existem divisões religiosas profundas, entre muçulmanos, as mais visíveis das quais são entre Sunitas e Xiitas.
Como pano de fundo actual, devemos ainda considerar duas realidades da maior importância: a primeira é a dicotomia entre a “UMA” e os regimes políticos que governam os respectivos povos; a outra é a geopolítica do petróleo (e gaz natural).
A UMA representa a comunidade dos crentes, ou seja a irmandade de todos os povos submetidos ao Islão. Esta ideia é universalista e não entende a necessidade de fronteiras ou de estados diferenciados. Aspira a um novo “Saladino”que una todos os crentes numa única humanidade…Esta ideia percorre transversalmente todos os povos islamizados e torna-se, por vezes, antagónica da existência de poderes diferenciados e locais. A realidade politica definida pelas fronteiras coloniais apenas serve para exacerbar este conflito.
A geopolítica do petróleo torna o Ocidente refém da sua importância, dado que as sociedades desenvolvidas basearam a sua riqueza e progresso material nos combustíveis fósseis. E deixaram desenvolver-se, no seu seio, verdadeiros “estados dentro do estado” que são os colossos das grandes companhias que exploram e negoceiam o produto. Ao ponto dos interesses destas multinacionais chegarem a sobrepor-se ao interesse dos países ocidentais. Agora também da Rússia.
Ou seja não se faz o que se deve, mas sim o que interessa a este negócio/dependência.
Por outro lado os povos dos países muçulmanos produtores não se sentem tocados, na sua generalidade, com os benefícios que esta enorme riqueza e “arma” estratégica lhes poderiam proporcionar.
O resultado é o aumento das tensões sociais, a pobreza arrastada e a falta de qualidade de vida; a demografia galopante, cuja tradição social, imperativos religiosos e interesses políticos, potencia, vai obrigar à emigração em massa, por causa do desemprego existente.
As maiores vitimas deste fluxo migratório, que se descontrolou, foram os países europeus da margem norte da bacia mediterrânica.
A situação está prestes a gerar conflitos insanáveis devido ao excesso de permissividade das leis das sociedades ocidentais e porque as comunidades islâmicas não se integram, por norma, nos países de acolhimento.
As tentativas dos países da UE em os integrar falharam redondamente e as tentativas para dourarem a realidade com o “multiculturalismo”não resistem à mais leve análise. A recente confissão da Srª Merckel deu – lhe o golpe de misericórdia.
Mesmo iniciativas políticas para melhorar o comércio e o desenvolvimento económico e social, como foram as 5+ 5 e a Declaração de Barcelona, respectivamente em 1990 e 1995, foram tardias e pouco lograram e os recentes eventos mataram-nas de vez.
Finalmente a constituição de duas forças militares da UE, para o Mediterrâneo, a Euroforce e a Euromarforce, criadas em 1995 (em que participam forças da França, Espanha, Itália e Portugal), foram vistas pelos países do Magreb, como uma ameaça.
E foi assim que chegámos à actual sucessão de eventos de revolta político/social, que varre todo o mundo islâmico de Marrocos ao Iémen, com um efeito de dominó notável. E que, tanto quanto se sabe, “ninguém” provocou ou previu. E não parece ir parar por aqui…
Para a Europa a que pertencemos, estes eventos além de irem evidenciar, mais uma vez, as perplexidades europeias e a falta de entendimento crónico e atempado dos “27”, vão ter reflexos previsíveis em quatro áreas fundamentais:
- Aumento do preço do petróleo/gaz e perturbação no seu mercado;
- Aumento, por arrastamento, de todos os restantes bens, de que os mais graves parecem vir a ser, os alimentos;
- Instabilidade/ameaça relativamente ao investimento já efectuado, ou a efectuar, nos países atingidos;
- Aumento da emigração e possível exacerbar das tensões entre as comunidades de emigrantes, já existentes.
Acresce a todo este quadro as incógnitas em catadupa relativamente à estabilização político/social em cada um dos países ora afectados pelas sublevações populares. Cada um irá ter o seu “processo revolucionário em curso”…
E não é estimável que se venham a estabelecer regras de estado de direito democrático, como são entendidas no Ocidente (embora a sua prática deixe muito a desejar), em virtude das tradições politicas, culturais e religiosas dos povos em questão. E é difícil de prever o grau de influência do “Fundamentalismo Islâmico”…
A perigosidade do momento aconselhava a que os países europeus (já que persistem na ideia da União), abandonassem a única coisa que têm sabido e tido a coragem de fazer, que é a de aproveitar as crises ou o seu intervalo, para fazerem uns negócios e tentar resolver as crises politico/sociais com subsídios a esmo. Não tem sido bonito nem eficaz.
Melhor seria imporem regras estritas dentro dos seus territórios, relativamente ao comportamento dos emigrantes. Quem chega integra-se e cumpre a lei; quem não quer não entra ou é expulso na hora. Ponto final. A emigração tem, aliás, que ser parada, por uma simples razão demográfica: com os números actuais a Europa desaparecerá em poucas décadas. É tão simples quanto isto e não há “direitos humanos” que nos valham!
A Europa, isto é, os países europeus, têm que voltar a querer defender-se. Têm que ter uma estratégia e esta não existe sem Forças Armadas a sério. Os conflitos e as guerras não vão desaparecer.
O modelo de desenvolvimento tem que voltar a ser baseado em valores (respeitar o dos outros não quer dizer destruir os nossos…), e não no negócio a qualquer preço. E já se devia ter, há muito, começado a encarar seriamente alternativas aos combustíveis fósseis.
Os problemas dos países muçulmanos têm que ser confinados e resolvidos por eles próprios. E as relações têm que ter reciprocidade, isto é, se não deixarem construir igrejas nos seus países, por ex., nós não podemos fechar os olhos a isto e facilitar os pedidos das suas comunidades…
Ter estadistas que entendam o que se passa e tenham nervo para tomar medidas sérias e difíceis, parece ser uma miragem enquanto os políticos forem escolhidos maioritariamente nos oriundos das juventudes partidárias e eleitos em pugnas circenses de grande visual e medíocre substancia.
Entre nós, portugueses, passámo-nos a julgar “pequeninos” e por isso nos tornámos indigentes e saloios. Senão atalharmos caminho, brevemente teremos os nossos dias de “raiva”.
25.02.2011
TCorPilAv (Ref.)
[1] Outro ponto pouco conhecido, mas curioso, tem a ver com o facto de se ter pensado instalar o Estado de Israel, no planalto angolano…
In http://macua.blogs.com/moambique_para_todos/

