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A bem da Nação

SANTA IRMANDADE

 (*)

 

Encontrei na Internet, entre as fábulas de Florian

- Um fabulista francês posterior a La Fontaine -

A fábula introdutória da colectânea -

«A Fábula e a Verdade» -

Que, no meu stress,

Li com muito interesse, por ver nela

A explicação da expressão tão bela

“Verdade nua e crua”

Como a que estava no poço

Da fábula de Florian,

Despidinha, coitadinha,

Antes de encontrar uma irmã.

Vejamos a qualidade

De tanta fraternidade:

«A Verdade, toda nuinha,

Saiu um dia do seu poçozinho,

Qual Carochinha

Postada à janela

Da sua casinha.

Com o tempo, a sua graça

Estava um pouco esvaída.

Jovens e velhos fugiam à vista dela,

Que maçada!

A pobrezinha

Ali andava amarfanhada,

Sem lugar achar onde habitar.

A Fábula, ricamente vestida,

Com plumas e diamantes,

Falsos na sua maioria

Mas muito brilhantes,

Como ouropéis imponentes

Disse-lhe com simpatia: “Bom dia!

Que faz você neste caminho

Tão sozinha, pobrezinha?”

Responde a Verdade

Com a seriedade

Da sua temeridade:
“Como vê, estou gelada;

Em vão peço a quem passa

Uma casa como abrigo,

Muito embora sem postigo.

Mas, coitada!

A todos eu meto medo,

Credo!

E sem nenhum amigo!

Vejo bem

Que uma velha já nada obtém.”

“Você, todavia, é mais jovem do que eu,

Responde a Fábula, com a lealdade

Da sua sinceridade.

“Sem vaidade,

Em toda a parte eu sou bem acolhida,

Minha amiga. Mas também, Dama Verdade,

Porque anda tão despida?

Isso não está nada certo: olhe, alindemo-nos:

Que um mesmo interesse nos reúna.

Venha para a minha capa,

Cubramo-nos

E juntas caminhemos.

Em casa dos sábios, por sua causa

Eu não serei repelida;

Por minha causa, em casa dos loucos,

Você não será escarnecida:

Servindo, por este meio, cada uma o seu prazer,

Graças à sua razão, e graças à minha loucura,

Com alegria,

Verá, minha irmã, que por onde quer que andemos

De parceria,

Faremos boa figura.»

Ainda hoje é assim

Para ti e para mim,

Já o li em qualquer parte,

Creio que foi em Camões:

Por vezes a Verdade é tão estranha

Que mais parece patranha,

E a Mentira, tão arteira,

Que parece verdadeira.

Leiamos então Camões

Que para tudo tem soluções,

E vendo o desconcerto do Mundo

Que dá mais vantagens à Sorte,

Por ordem do Profundo

Do que ao Mérito real

- O que sucede ainda hoje, em Portugal –

Achou melhor voltar-se para Cristo

Para perceber melhor o porquê disto:

«Verdade, Amor, Razão, Merecimento,

qualquer alma farão segura e forte;

porém, Fortuna, Caso, Tempo e Sorte,

têm do confuso mundo o regimento.

Efeitos mil revolve o pensamento

e não sabe a que causa se reporte;

mas sabe que o que é mais que vida e morte,

que não o alcança humano entendimento.

Doutos varões darão razões subidas,

mas são experiências mais provadas,

e por isso é melhor ter muito visto.

Cousas há i que passam sem ser cridas

e cousas cridas há sem ser passadas,

mas o melhor de tudo é crer em Cristo.»

A Verdade irmã da Fábula,

Foi Florian que o mostrou.

Dois séculos antes dele,

O nosso Camões sublinhara

O inacreditável mais crível,

O real menos de crer.

E a harmonia dos opostos

Dá para todos os gostos.

 

 Berta Brás

  

(*)http://www.google.pt/imgres?q=f%C3%A1bula%2Be%2Bverdade&um=1&hl=pt-PT&biw=1366&bih=643&tbm=isch&tbnid=IS4IFrEXcYHorM:&imgrefurl=http://biclaranja.blogs.sapo.pt/12637.html&imgurl=http://fotos.sapo.pt/biclaranja/pic/000tbpy5/s500x500&w=349&h=500&ei=Dn84UN_aOuPT0QX9zIDABA&zoom=1&iact=hc&vpx=541&vpy=111&dur=1089&hovh=269&hovw=187&tx=119&ty=167&sig=109766553202599468647&page=1&tbnh=137&tbnw=96&start=0&ndsp=21&ved=1t:429,r:2,s:0,i:75

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