2012 - A GUERRA CIVIL NA SÍRIA

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A fé não se discute mas o proselitismo que os homens comuns dela fazem pode ser livremente debatido. Por isso, em torno da guerra que actualmente assola a Síria, me ocorre contar alguns factos relativos ao proselitismo sunita.
O Presidente Assad não é flor que se cheire à semelhança de Mubarak, Sadam Hussein, Kadahfi e outros que tais mas...
... mas conseguiu, na sequência do longo trabalho do pai, fazer um país que era visitável por um ocidental. Era; agora já não é por causa da guerra em curso.
Os Assad significam um regime laico de orientação alauita, ou seja, uma variante do xiismo e, portanto, em clara divergência com o sunismo. A maioria da população síria é sunita.
A sede do sunismo continua a ser a Arábia Saudita que financia todo o proselitismo dessa fé.
Muhammad ibn 'Abd al-Wahhab an-Najdi (1703–1792 da era cristã) ficou conhecido por al-Wahhab e dividiu o poder com o então rei Saud da Arábia fundador da actual dinastia saudita. Al-Wahhab exigiu ficar com o poder espiritual enquanto o rei ficava com o temporal mas financiava o proselitismo da fé. Aínda hoje assim é.
Immanuel Kant e al-Wahhab foram contemporâneos e apontaram caminhos totalmente opostos para as respectivas civilizações com os europeus a seguirem o iluminismo e os wahhabitas a proclamarem que a sua é a última e única versão do Corão e que quem ousar sequer traduzi-lo (do árabe) é condenado à morte. A interpretação do Corão é literal e não são autorizadas outras leituras sob risco de pena capital.
Daqui resulta a ainda hoje imparável evolução da nossa Civilização ocidental e o completo imobilismo do sunismo wahhabita. E mal vai a «coisa» quando no versículo 5 da 9ª Surata o Corão determina que: Quando os meses sagrados houverem transcorrido, matai os idólatras onde quer que os acheis; capturai-os, acossai-os e espreitai-os (…)
Os fundamentos do radicalismo islâmico são, pois, historicamente muito anteriores à problemática da Palestina e de Israel.
Foi já em 1949 (da era cristã) que o Sheik Hassan al-Banna (1906-1949), um dos mais carismáticos teólogos wahhabitas, foi assassinado no Cairo. Eis algumas frases «simpáticas» que ele debitou para cima das massas crentes na sua fé:
- É da natureza do Islão dominar, não ser dominado, impor a sua lei a todas as Nações e fazer alastrar o seu poder ao planeta inteiro;
- O punhal, o veneno e o revólver… Estas são as armas do Islão contra os seus inimigos.
Por oposição, a fé xiita não é imóvel e reconhece que a mulher tem alma.
O que está em jogo na Síria é uma luta renhida entre o sunismo radicalizado às últimas consequências e o alauismo.
Eis, pois, os motivos que me fazem pensar que o clero sunita tem que ter mais medo do ditador na Terra do que da ira divina e que a questão não se resolve sem uma «revolução francesa» no mundo muçulmano de modo a que o Poder temporal deixe de se confundir com o espiritual. Mas isso só é possível com a criação duma predominante classe média laicamente instruida, o que os clérigos não querem para não perderem o Poder. Neste caso sírio, como no Egipto, etc., para o reconquistarem depois de terem estado dele ausentes enquanto os ditadores não foram derrubados.
Eu gostaria de poder ver todas estas matérias à distância mas não mo permito pois os muçulmanos já estão na Europa em grande força e os políticos ocidentais (que eu considero perfeitamente patetas nesta questão), parece tudo fazerem para que os radicais subam ao Poder nesses países cortando as pernas a quem nos tem defendido da crescente agressão sunita.
Sinceramente, tirando a questão atómica, não vejo tanto perigo no Irão (cuja hierocracia está à beira do abismo) como vejo nos sunitas. Mas o Irão tem petróleo e a Síria, não o tendo, é amiga de Teherão. E isso os EUA não perdoam. Cobiçando o petróleo iraniano e o regresso dessas ramas à esfera do Dólar, não olham a meios para alcançarem esses fins.
Mas, realmente, Assad não é flor de cheiro, não.
Tenho dito, até prova em contrário.
Henrique Salles da Fonseca
(na grande mesquita de Delhi)
