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A bem da Nação

DUAS HISTÓRIAS DE VOLTAIRE

 

 

Era sabido que Voltaire fazia representar as suas tragédias no seu teatro em Ferney: o seu maior prazer era de aí representar um papel; nunca algum comediante, o mais entusiasta, se tinha ocupado com tanto ardor, como ele, com o personagem que lhe cabia.

 

Queria que o seu traje ficasse pronto com oito dias de antecedência e dava uma imensa canseira aos alfaiates pelas frequentes e minuciosas alterações que lhes mandava fazer. Um dia, devia representar o papel de Cícero em Catilina, vestiu logo pela manhã a sua toga romana e saiu para o jardim a recitar o seu papel; que interrompia para dar algumas instruções ao jardineiro.

 

Este, espantado de ver o seu amo naquela figura não conseguiu reter uma gargalhada. Voltaire irritou-se profundamente:

 

- O que você acha de estranho na minha roupa? Cícero passeava como eu no seu pomar antes de ir para o Senado: eu o represento esta noite; acha que deveria usar duas toiletes?

 

Voltou para dentro de casa de mau humor sem perdoar ao jardineiro de ter rido no nariz de Cícero.

 

 

O belo palácio (Chateau) de Ferney

 

Voltaire gostava muito dum filhote de águia que vivia presa numa gaiola no seu palácio de Ferney. Um dia, a jovem águia envolveu-se com dois galos e foi gravemente ferida. Voltaire, desolado, mandou um “expresso” a Genève com ordem de trazer um homem que passava por hábil “médico de animais”. Na sua impaciência, não fazia outra coisa se não ir do ninho do pássaro à janela do seu quarto, donde se avistava a estrada; por fim apercebeu-se do seu mensageiro trazendo atrás o “que Esculápio tanto desejava”; deu um grito de alegria, correu para ele, recebeu-o de forma especialmente acolhedora, pediu-lhe e prometeu-lhe muito, em favor do seu doente. O aldeão muito espantado com aquela recepção a que não estava acostumado, examinava as feridas da jovem águia. Voltaire inquieto, procurava ler nos seus olhos os seus receios ou esperanças. O “doutor” declara com ar convicto que não se podia pronunciar antes do nascer do Sol e prometeu voltar no dia seguinte, depois de ter sido generosamente pago. Até ao dia seguinte, Voltaire não sossegava; enfim a decisão foi que não respondia pelos dias da águia. Nova fonte de inquietudes.

 

A primeira pergunta que Voltaire fazia cada manhã a uma das suas criadas, chamada Madalena, encarregada de o acordar, era:

 

- Como está a minha águia?

 

Bem docemente, meu Senhor, bem docemente.

 

Um dia Madalena responde-lhe a rir:

 

- Ah! Meu senhor, a vossa aguiazinha já não está doente.

 

 – Ela melhorou! Que bênção!

 

– Ela morreu!

 

– Morta a minha águia? E você me anuncia essa notícia a rir?

 

– Pela minha fé, meu Senhor, ela estava tão magra!

 

– Como magra!, gritou Voltaire, furioso, - Que bela razão! Você não tem outra coisa a fazer se não matar-me porque eu sou magro. Olha a velhaca! Rir da morte da minha pobre águia porque estava magra! Lá porque você tem o cu gordo, pensa que só a gente da sua espécie tem direito à vida? Saia, saia já daqui!

 

Voltaire... magrinho!

 

Madame Denis acorreu aos gritos do seu tio e perguntou-lhe porque estava tão colérico. Voltaire contou-lhe, sempre resmungando:

 

- Magro! Magro!... É preciso então que me matem, a mim...

 

E exige que Madalena seja despedida. A afeiçoada sobrinha tem que obedecer e manda que a desgraçada se mantenha escondida no palácio. Ao fim de dois meses Voltaire perguntou por ela.

 

- Ela está bem infeliz, diz-lhe madame Denis. - Não conseguiu arranjar trabalho em Genève desde que se soube que ela tinha sido despedida do palácio de Ferney.

 

– É culpa dela. A que propósito rir da morte da minha águia só porque estava magra?... Mas também não quero que ela morra de fome; manda-a voltar; mas que nunca mais se apresente na minha frente, entendeste?

 

– Oh! Meu tio, ela terá cuidado.

 

– Mas que tome atenção.

 

Eis que Madalena sai do seu esconderijo, mas evitando encontrar o seu amo. No entanto um dia Voltaire ao sair da mesa, encontra-se face a face com ela. Madalena fica aflita, baixa os olhos, cora, e quer balbuciar alguma desculpa.

 

– Não falemos mais nisso, disse-lhe Voltaire. - Mas ao menos lembra-te que não é preciso que me matem por eu ser magro!

 

Rio de Janeiro, 19/02/2011

 

 Francisco Gomes de Amorim

 

BIBLIOGRAFIA:

Avant-Popros” in “Pensées, ... de Voltaire” – Imprimerie de A. Égron. An X. 1802. Ouvrage posthume

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