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A bem da Nação

O ARTISTA E A SUA AMADA

 

John Ruskin (1819-1900), historiador inglês de Arte europeia, artista desenhador por mérito próprio e um dos espíritos que mais influenciou o pensamento artístico e a estética no século XIX,  teve o seu primeiro arrebatamento sentimental quando se deparou com a estátua fúnebre de Ilaria di Caretto, sobrejacente ao seu túmulo, na igreja de San Martino, em Lucca. Ilaria tinha sido a segunda mulher de Apulo Guinigi, senhor de Lucca, e morrera muito nova, logo após o casamento. A estátua obedece aos cânones medievais tardo góticos. É obra de Jacob della Quercia e foi executada no início do século XV, logo após a morte de Ilaria. A jovem defunta é representada deitada, com a cabeça coroada por um turbante apoiada em duas almofadas, vestida com a simplicidade medieval e tem aos pés um cão, símbolo da fidelidade (conjugal, supõe-se).

O esteta de Além-Mancha ficou deslumbrado com a doçura do rosto oval, a singeleza e graça do gesto dos braços e  mãos e, sobretudo, com a finura do recorte dos lábios onde aflora um sorriso enigmático, quase giocondino, que nunca se sabe se inspirado por Deus ou pelo diabo. E tudo isto lhe era oferecido gravado  em mármore imaculado. Ruskin teve ali e então a sensação sublime de ter alcançado a vera essência do belo: - a graça imarcescível.

Em carta aos seus pais, John confessa que sentiu um impulso quase irresistível para se estender ao lado de Ilaria, partilhar com ela as almofadas de pedra, cobrir as mãos frígidas da jovem com as suas e deixar-se ali ficar para todo o sempre na doce companhia da beleza pura e eterna. Ao cabo de repetidas visitas, decidiu-se finalmente: - desenhou o perfil de Ilaria e guardou o desenho entre as suas coleções (posteriormente famosas) de sketchs.   Ilaria porém não se resignou com a  condição de   apontamento e continuou a fazer-lhe  sentir o seu encanto de forma cada vez mais aguda.

 

 John Ruskin retratado (com as pedras)  por um pintor pré-rafaelita

Fonte Wikimedia Commons

  

 

Após o regresso a casa, JR foi à Escócia onde visitou os Gray, velhos amigos de seus pais. Deparou-se então com a beleza irradiante da filha do casal, Euphemia (1828-1897), agora feita mulher. Sem mais, pediu-a em casamento e a mão da jovem foi-lhe prontamente concedida.  Effie, como ficou conhecida, seria festejada em Londres pela formosura da sua pessoa e vivacidade do seu espírito. Em Veneza, onde o casal passou um ano que permitiu a John escrever um dos seus livros mais apreciados - "As Pedras de Veneza", Effie tornou-se o centro da vida social. Ao que se sabe, os cônjuges sempre se estimaram. Assim mesmo, ao cabo de  cinco anos, o casamento foi anulado por não consumado. Ao depor no inquérito conduzido pelas autoridades eclesiásticas, o artista-crítico justificou o seu abstencionismo com a alegação de que não quisera macular a beleza de sua esposa. Acrescentou que não desejaria encher a casa de crianças porque não tinha paciência para "putti". Se o motivo foi este, o escritor andou bem-avisado pois Euphemia, no seu segundo casamento, presenteou o novo marido com nove filhos. 

Havia contudo alguma coisa mais. John Ruskin, numa carta a um amigo citada pelo seu biógrafo Tim Hilton, opina que a realidade carnal da mulher estraga o seu encanto. "A carne não é material que inspire e estimule um artista; a pedra é", afirmou o esteta.  Para amar, seria preciso manter as distâncias. Sem prudente afastamento, a imagem que o homem forma da mulher na sua mente evapora-se num ápice. Tal confissão foi vista ao tempo como indício de que J.R. não suportava a mulher como organismo vivo, ilação que não condiz com a teoria de beleza por ele próprio enunciada. Nos seus escritos diz-nos que "a Beleza da forma é nos revelada nos organismos que se desenvolvem perfeitamente de acordo com as suas leis de crescimento e nos dão a aparência de execução bem conseguida da função que lhes é própria". Ao que parece, a coerência não seria talvez a maior virtude de Ruskin.

 ***

 A história porém não acabou aqui. Já beirando os sessenta, John Ruskin apaixona-se vivamente por uma jovem que frequentava a sua casa onde vinha receber lições de desenho. Tratava-se de Rose La Touche, filha de um irlandês puritano radicado em Londres, em Park Lane, no Mayfair. A jovem ia nos seus dezoito anos quando JR lhe propôs casamento. Ela pediu-lhe que esperasse três anos. Ruskin aceitou e, ao cabo de três anos, Rose rejeitou-o apenas para morrer de doença, solteira, pouco tempo depois. Ruskin fica louco e entra em delírio. Nos sucessivos poemas que dirige à sua antiga discípula, confunde Rose com Ilaria. Chega a afirmar que logo na primeira vez que a viu percebeu que Rose era Ilaria reencarnada. Ilaria saíra lá das profundezas do esquecimento para o visitar em sua casa. Ruskin tinha enfim encontrado a reposta à dúvida que o perseguia desde Lucca. - Quem inspirara - Deus ou o diabo -  o sorriso ambíguo esculpido por Jacob della Quercia nos lábios de Ilaria? Agora sabia: - não fora Deus.  E assim concluiu: - "a mulher apaixona-se por mando de Satanás".

 John Ruskin recuperou paulatinamente  a saúde mental e viveu até final do século, tendo sido objecto de inúmeras homenagens mas a obra literária que produziu a partir de então nunca mais atingiu o brilho que a caracterizara anteriormente.

 

 

Rose La Touche, 1878: Fonte. Wikimedia

 

Estoril, 10 de Agosto de 2012

 

 Luís Soares de Oliveira

 

 

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