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A bem da Nação

OS MILITARES E OS OUTROS

 

 

A intervenção militar é um recurso que serve para dar tempo aos políticos a quem, esses sim, cumpre resolver o problema. Solução militar para problema político é coisa que hoje não existe.

 

Mas problema bem grave é quando os militares se metem a políticos. E porque é que o fazem? Vaidades e caudilhismos à parte, fazem-no quando se cansam da inaptidão dos políticos na resolução do problema que eles, militares, foram chamados a colmatar. E como toda a revolução é ilegal, o distúrbio e a desorientação conduzem habitualmente a situações bizarras de inversão de valores, de subida ao comando de algum subalterno, de o novo inimigo ser a hierarquia anterior e o novo aliado ser o antigo inimigo.

 

Quando o «barco» é apanhado por um «tsunami» destes, que atitude deve assumir quem, alto na hierarquia, se viu repentinamente “nos cornos do toiro”?

 

As respostas estão tipificadas:

  1. A do oportunista que se cola à revolução e a integra de corpo (e sabe-se lá se de alma também);
  2. A do mártir que se revolta contra a revolução triunfante, tudo dá por perdido, tudo perde e faz correr o risco de todos tudo perderem;
  3. A do homem inteligente que tenta salvar o maior número possível de «náufragos».

Celebramos hoje um homem inteligente.

  

Estando o Império militarmente perdido no Largo do Carmo, em Lisboa, não nos teatros africanos, coube ao então Coronel Tirocinado Manuel Menezes rumar a Moçambique para gerir a transição que culminaria na independência. Fê-lo no cumprimento duma missão militar resultante duma revolução confirmada contra que não valeria mais terçar armas cumprindo a sua própria determinação de que não mais se justificava que um único soldado português morresse em Moçambique. Foi a parte portuguesa no Comando Conjunto da transição e não constam dramas que tenham ficado para a História nesse período em que as nascentes Forças Armadas moçambicanas ensaiavam os primeiros passos no âmbito duma imprescindível despolitização em que a vertente castrense deveria moldar todo o futuro da segurança de Moçambique. O ambiente de cooperação que o Coronel Tirocinado Manuel Menezes conseguiu estabelecer terá impedido que em Moçambique se registassem tensões por demais evidentes noutros processos de transição.

 

Arriada a Bandeira Portuguesa com a honra que se lhe deve, regressou Manuel Menezes a Portugal e é claro que, cumprida missão espinhosa sem glória mas com honra, foi promovido a Brigadeiro.

 

A guerra civil que se seguiu à independência moçambicana tudo teve a ver com a determinação de entregar o país à esfera soviética e isso, é bem de ver, foi uma circunstância política que mais uma vez fez «chegar à frente» os militares (neste caso, já os das Forças Armadas de Moçambique) e absolutamente nada teve a ver com o ambiente de relativa serenidade em que Manuel Menezes fora parte principal.

 

Mais uma vez, os militares a terem que assumir atitudes em resultado da inaptidão ou loucura de outros.

 

Tudo visto e consumado, temos hoje um exemplar ambiente fraterno nas relações entre Portugal e Moçambique com uma cooperação de total equidade e proveito mútuo. Isso se deve a homens como Manuel Menezes que na sua espinhosa missão soube gerir um processo cujos contornos políticos não estava em condições de discutir mas de cujas consequências muitos poderiam vir a beneficiar.

 


Bem disposto, no dia em que fez 91 anos, 15 dias antes do fim

 

Com o seu recente falecimento, é em nome dos benefícios actuais que Portugal lhe deve prestar um especial agradecimento.

Fica apenas na esfera familiar uma dúvida por esclarecer: - Quem vai trinchar o peru no próximo Natal, Tio Manel?

 

Lisboa, Julho de 2012

 

 Henrique Salles da Fonseca

ET: No regresso de Moçambique, Manuel Menezes seguiu directamente para os Açores a fim de serenar os flamantes ímpetos independentistas de alguns dos seus conterrâneos - na sequência do que foi promovido a General.

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