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A bem da Nação

HISTÓRIAS VIVIDAS

 

 

Crónica de uma pequena cidade

                       

Debaixo de toldos improvisados, enfeitados com bandeirolas multicoloridas, sentados a uma das mesas que se aglomeravam naquele espaço exíguo, estavam o padre, o juiz e o médico da vila. Era uma noite de final de Junho quando a pequena comunidade estava reunida para comemorar São João e arrecadar dinheiro na quermesse para ajudar nos reparos que a velha Igreja já há anos pedia. O cheiro de pipoca quentinha, algodão doce, quentão e canjicada, pelo ar rescendia. Em algazarra, a rapaziada acompanhava com gargalhadas, a cada tentativa frustrada, o sobe e desce dos moleques no pau-de-sebo. Um calor reconfortante aquecia aqueles que da fogueira crepitante se aproximavam para espantar o frio. A bandinha, em altos e baixos, marcava presença tocando maxixes e modinhas enquanto os rapazes e as moçoilas, vestidas com roupas de chita, rendas e fitas, ensaiavam a quadrilha. Estopins, bombinhas, fogos de artifício, faziam a alegria da meninada em reboliço. As senhoras dedicadas, sempre muito ocupadas, ajudavam nas prendas e barraquinhas.

 

O prestigiado grupo de letrados a tudo assistia, versejava, punha em pauta as últimas noticias. O médico, novo na vila, já com fama de bom doutor e de ser também um “gozador”, atraía a atenção dos interlocutores com suas estórias.

 

- Mas então doutor, porque falhou ao nosso encontro semanal? Tem tido muito serviço? Perguntou o juiz.

 

Com um sorriso maroto, despertando curiosidade, respondeu jovem esculápio:

 

- O amigo sabe como é o trabalho de médico. Não tem dia e nem hora para acabar... . Na quinta-feira, ao fechar o consultório, no final da tarde, quando já me aprontava para o nosso habitual encontro, recebi uma chamada telefónica que me fez sair da rotina e mudar de rumo. Passei então que passei uma noite extraordinária...

 

A última frase do médico deixou o padre um pouco desconfortável, enquanto o juiz, atiçado, estimulava a prosa. Sem se fazer de rogado o jovem médico continuou...

 

- Estava-me preparando para sair quando o telefone tocou e uma voz feminina, amigável, particularmente me sensibilizou ao relatar que estava preocupada. A filha estava com febre e pedia que eu fosse vê-la. O que prontamente eu atendi. Ao verificar que não era nada de grave, apenas um pequeno resfriado, tranquilizei a jovem senhora, que agora já descansada, insistente, me convidava para ficar e jantar com ela. Foi assim que saí da rotina e que passei uma noite muito agradável com minha mulher e filha, lá em casa... Concluiu o médico com um sorriso ao ver a cara aliviada dos ouvintes.

 

Histórias de vida daqueles que vieram e vivem nas nossas longínquas e interioranas paragens...

 

 Maria Eduarda Fagundes

 

Uberaba, 27/07/12

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