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A bem da Nação

A nau e a canoa


Tenho um amigo incondicional que se chama “Caramelo”. É um rafeirote baixinho, branco com malhas amareladas e com uma cara que delicia todas as Senhoras. Aos Sábados, pela manhã, vou passeá-lo para que varie dos cheiros do jardim cá de casa que ele já nem deve sentir. Um dos passeios de que o “Caramelo” mais gosta é ao “Jardim Guerra Junqueiro”, mais conhecido por Jardim da Estrela, ali bem à frente da basílica a que se segue uma ida à praia de Algés, mesmo ao lado da Torre de Belém; o programa acaba com uma passeata à trela ao longo do cais a que está atracada a fragata “D. Fernando”.

Eis como num ápice se passeia um cão frente às maiores glórias nacionais na poesia, na arquitectura e na tecnologia; mordomias exclusivas de quem mora em Lisboa. Não lhas explico porque ainda não dialogo com cães mas recordo sempre as condições históricas que criaram a iconoclasia do poeta republicano, a basílica da real gravidez, a epopeia dos descobrimentos e a língua portuguesa em Damão. Recordo essas realidades históricas sem rancores nem nostalgias, apenas procurando descortinar-lhes os fundamentos, já que hoje não somos nem mais nem menos inteligentes do que os de antigamente; apenas mudou o racionalismo. E hoje pensamos com tristeza na perda sucessiva de gerações de tão boa gente humilhada à grandeza falaciosa do despotismo, desses todos que nos governaram julgando que eram nossos donos em vez de nossos chefes. Olhando para trás, vemos como foram vãos os que quiseram mudar o país erigindo palácios na Serra de Sintra ou construindo naus em Damão com teca preciosa em vez de ensinarem os portugueses a ler e de cuidarem da nossa língua nos sertões africanos, na Costa do Malabar ou na foz do Rio das Pérolas. E quando lemos a revolta do poeta, não deixamos de pensar com tristeza na frustração que terá sido escrever num mar de analfabetos.

Mas tudo mudou entretanto e finalmente o iluminismo chegou. Hoje, não temos amos que nos obriguem a erigir castelos para os seus prazeres privados, que mandem construir naus imponentes para exibição nas cortes europeias ou que nos imponham limites inquisitoriais à imaginação. Hoje, já somos donos de nós mesmos, não temos que exibir aquilo que não somos e eis que estamos na alta tecnologia automóvel, na aeronáutica, na arquitectura, na informática, no “design” e na literatura. Já lá vai a sociedade conformada com o destino que os poderes supremos lhe haviam determinado e hoje temos um português a presidir à União Europeia, a lusofonia já contando com quatro prémios Nobel e Portugal a passar por uma verdadeira catarse que em pouco tempo o fará ultrapassar as velhas razões do subdesenvolvimento.

Os nossos governantes deixaram de ser Imperadores e nós passámos a fazer o que a razão nos aconselha convivendo com todos os povos em perfeita igualdade; já ninguém nos obriga a construir grandes e espaventosas naus e, afinal, até somos campeões a construir canoas.

Lisboa, Novembro de 2004

Henrique Salles da Fonseca

NOTA EXPLICATIVA: Nas provas de canoagem dos Jogos Olímpicos de Atenas, as canoas de quase todas as equipas eram de concepção a fabrico português.

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