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A bem da Nação

CARTAGO - 2

 

Camilo anglófobo

 

[Afinal, parece que Camilo Castelo Branco escreveu "Noites de Insónia", donde transcrevo este seu trabalho histórico-literário, muito antes (1874) do "Ultimato", pelo que não foi este que influenciou o nosso grande
autor]

 

A Grã-Bretanha será a Cartago do futuro, como é, na sua maquiavélica e pérfida política, a Roma do passado, do presente e do porvir.

 

Aliança e aliados, na boca de qualquer governo inglês, diz um escritor liberal, quando não são palavras enganadoras, são, pelo menos, palavras sem sentido.

 

Sem sairmos do século XIX, desde o porto da capital da Dinamarca até às muralhas de Metz e trincheiras de Sédan são longas e monstruosas as provas da fé britânica e da lealdade inglesa. Hudson Lowe, o carcereiro do Prometeu moderno -- imagem do abutre roendo-lhe as entranhas nos rochedos de Santa Helena -- será a ignomínia e afronta eternas dos algozes da Irlanda.

 

Estamos nas amuradas do Belléphoron.

 

Entremos no convés.

 

Antes do desenlace final desta tragédia antiga, que parece modelada por Sófocles ou Eurípedes -- escrevia Napoleão ao príncipe regente de Inglaterra a seguinte carta:

"Alteza Real,

"Alvo das facções que dividem o meu país e da inimizade das grandes potências da Europa, acabei a minha vida pública e, à semelhança de Temístocles, venho sentar-me no lar do povo britânico. Abrigo-me à sombra das suas leis e para isso invoco vossa alteza real como o mais poderoso, o mais constante e o mais generoso dos meus inimigos.

Napoleão."

 

 

 

Responder com um asilo magnânimo e grandioso a esta invocação escrita, teria sido para a Inglaterra a mais nobre das vinganças e a página mais majestosa da sua história.

 

Irrisória ilusão! A orgulhosa Albion não vive de glória: vive de dinheiro. Quem deixou mutilar a Polónia, quem escravizou a Índia, quem fomentou a guerra civil nos Estados Unidos, quem viu impassível as desgraças da França e quem subjuga, pisa e tortura a Irlanda, escolheu adrede os leopardos para insígnia e emblema heráldico dos seus armazéns da city. A Inglaterra é a feira da Ladra da Europa. Seja assim para honra da raça latina onde não há filhos espúrios dos chatins do Oriente.

 

Napoleão vestiu aquela farda dos caçadores da velha guarda, como estivera em Marengo, Austerlitz ou Iena. Entrou com o general Becker e com os legionários dedicados da sua heróica Ilíada, num escaler -- último refúgio das suas glórias -- e subiu para o brigue francês, que ia levá-lo à esquadra inglesa. Becker quis acompanhá-lo nesta via dolorosa. "Não, não, general", bradou-lhe o vencedor de Arcoli, "cuidemos da França. Se entrardes comigo no Bellérophon dirão que me entregastes aos ingleses. Não quero que a França sofra a
responsabilidade, a suspeita, e nem sequer a aparência duma traição tamanha."

 

A bordo do Bellérophon estava o comandante Maitlaud, os seus oficiais e toda a equipagem esperando o vencido de Waterloo. Dias depois entrava na baía de Plymouth o Bellérophon às ordens do almirante Keith que o recebeu com o respeito obrigado com que o visitara a bordo dum pontão inglês o almirante Hotham.

 

A Inglaterra aceitou a afronta e o escárnio das potências aliadas. Disseram-lhe estas no artigo 2º da sua famosa declaração: "A prisão de Napoleão Bonaparte é confiada especialmente ao governo britânico."

 

Foi a Inglaterra o cárcere, foi o traidor e foi o algoz.

 

Aceitou três papéis infames.

 

Entregou à Europa o banido que lhe vinha pedir refúgio e hospitalidade, investiu-se na missão execranda de carcereiro e gizou, com a sua fértil imaginação, o cárcere da águia da Córsega, o antro onde ia sepultar o génio das batalhas.

 

Cuspam na memória, em parte talvez caluniosa, de Judas de Kerioth, no drama sangrento de Jerusalém, e respeitem e curvem-se reverentes diante dos sufetas da Cartago britânica.

 

[Nota: sufeta era um alto magistrado fenício]

 

Arrancaram-lhe a espada épica das cem batalhas, quando ele, abandonado e indefeso, meditava encostado à proa do seu cárcere flutuante -- e foi preciso que o genro do imperador da Áustria, o antigo tenente de Toulon, os encarasse face a face para que os almirantes da velha Albion estremecessem de vergonha e corassem de pejo satisfazendo-se, no seu vil orgulho, com as adagas de Bertrand, Savary, Lallemand, Gourgand, e de todos os outros legionários desta falange homérica.

 

[Bertrand, Savary, Lallemand e Gougand eram generais de Napoleão que foram despedir-se do Imperador a bordo do Bellérophon]

 

Napoleão não sabia chorar. Passou impassível por sobre quatrocentos mil homens, que juncavam os gelos da Rússia. Viu imóvel os desastres de Leipzig. Escutou silencioso em Fontainebleau o ruído surdo da catástrofe quando o império desabava. Afastou-se de Waterloo sereno, implacável e severo como o destino -- e nem uma lágrima deslizava por aquelas faces assentes num busto grego e que pareciam rasgadas pelo escopo de Phídias como ornamento do mais vasto crânio que a Providência ousou modelar.

 

Mas rebentou em pranto desfeito e corriam-lhe as lágrimas como em torrente caudal, ao ler os pormenores aviltantes da segunda ocupação de Paris.

 

Não era o imperador, não o general, não era o tenente de artilharia, não era o corso: era o último dos franceses -- se assim querem -- que chorava de vergonha e de raiva ao ver a nobre e formosa terra das Gálias pisada vilmente pelos cossacos do Don e pelos ignóbeis escravos do Czar de todas as Rússias.

 

Virtude, tu não és mais do que um nome!

 

Estas palavras, atribuídas a Bruto, e que são apenas a citação dum verso da Medéa de Eurípides, vieram reboar em Sédan e feriram, ainda nesta geração, as traições, as insídias e os ardis do segundo império que caiu a pedaços esfacelado e podre sob as garras da águia da Prússia.

 

O almirante Keith recebeu o último protesto de Napoleão. Era o seu testamento de vingança arremessado à posteridade.

 

Terminava assim:

"Apelo para a história: dirá ela que um inimigo, que durante vinte anos combateu o povo inglês, veio, em liberdade, no seio do seu infortúnio, buscar um abrigo à sombra das suas leis, que demonstração mais brilhante podia ele dar da sua estima e da sua confiança? Mas como respondeu a tanta magnanimidade a Inglaterra? Simulou estender-lhe a mão hospitaleira e quando o segurou nas garras, quando ele se lhe entregou na grandeza da sua boa-fé, traiu-o, e imolou-o."

 

O nome do herói firmava este protesto. Foi com a mão habituada a empunhar a espada da vitória, que o vencedor dos reis, escolhidos por direito divino, escreveu: Napoleão.

 

[Nota: Há na declaração 'à posteridade' de Napoleão uma lógica perversa, que facilmente se revela. Ele, o vencedor de cem batalhas, o homem que não chorava durante as muitas barbaridades que cometeu, julgava, dirigindo-se à mais prestigiosa e poderosa potência sua inimiga, que a venceria também com um golpe de retórica. Mas um estado, como o britânico, por muito justas que fossem as suas leis, não podia ser levado dessa maneira. A um tratante, tratante e meio! JR]

 

[a continuar]



Joaquim Reis

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