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A bem da Nação

CARTAGO - 1

 

A anglofobia de Camilo

 

Nota: O Ultimato inglês aconteceu em Janeiro de 1890. Camilo morreu em Junho desse mesmo ano. Se o nosso grande escritor escreveu o que se segue, influenciado pelo "ultimato" da nossa "Aliada", fê-lo mesmo no fim da vida. Quem sabe?

 

Caeterum, censo Carthaginem esse delendam

MARCUS PORTIUS CATO

 

L'histoire n'est pas seulement un drame, elle est une justice

LAMARTINE

 

A filantropia inglesa é puramente mercantil, assim como o são todas as suas virtudes, que deixam de o ser logo que se não conformam com os seus interesses.

FREIRE DE CARVALHO

 

Na deslumbrante e magnificente descrição da aurora bíblica do nosso globo, diz o Genesis que o Espírito de Deus era levado sobre as águas:

Et Spiritus Dei ferebatur super aquas.

 

Parece que a majestade divina escolhera este elemento, na sua esplêndida grandeza, para encetar a obra da criação. Seja assim neste modesto trabalho.

 

Busquemos os primeiros salões do nosso século nas solidões imensas do oceano. E a Cartago moderna, a nobre e fiel aliada de Portugal, à luz sinistra do execrando bombardeamento de Copenhague, em 1807, ao clarão avermelhado dos primeiros foguetes do coronel Congrève, ensaiados no acto da mais atroz e inaudita pirataria, mostrar-nos-á o Bellérophon, o Windsor Castle, e o Belfast, três salões em que a fé púnica da Grã-Bretanha se expandiu, no seio das ondas, à sombra das suas flâmulas, que são a divisa dos bastardos da raça latina.

 

[Notas: 1 - Em 1807, o reino da Dinamarca englobava a Noruega. Provavelmente porque a Dinamarca se entendera com Napoleão, a armada inglesa bombardeou Copenhague, o que deve ter sido a causa da separação da Noruega da Dinamarca, pouco tempo depois. 2 -- Bellérophon, ou, portuguesmente, Belerofonte, é um herói da mitologia grega, conhecido por ter morto um monstro, a Quimera. O nome
significa, aproximadamente, 'o que matou Belero', uma hipotética personagem, ou 'o dardo que mata'. O navio de guerra inglês que em 1815 levou Napoleão para Santa Helena era o Bellérophon. 3 -- O coronel inglês Congrève foi o inventor do foguete de guerra.]

 

duas infâncias na vida: a juvenil e a senil. Perdoem ao homem, que já vê a sombra projectada na beira do fosso da sua última jazida, estes ecos longínquos que vêm ferir-lhe o tímpano nas vésperas da sua dissolução física.

 

Convém que nos entendamos:

 

A Cartago na designação latina, a Karkhédôn no vocábulo grego, a Kereth-hadeshot ou em pronunciação dialéctica Karth-hadtha, segundo os termos púnicos e fenícios, finalmente a cidade nova pela tradução e tradição da capital cartaginesa significa, para mim, na actualidade, a futura ruína da rainha dos mares, da soberba, orgulhosa e egoísta Albion. E nada mais.

 

Deixemos passar as correntes históricas.

 

A análise verdadeira, justa e consciente duma sã e severa crítica atira às faces dos romanos com esse ignominioso epíteto de fé púnica, que só a eles cabe na antiguidade das ambições latinas e no ardiloso espírito dos Machiaveis da Itália, transmitido até ao último papa. E a mais ninguém.

 

Desde Rómulo até Antonelli são vastas as concepções de perfídia, erguidas, a princípio, no Capitólio, para ficarem mais tarde, como tradição e doutrina, nos salões do Vaticano.

 

[Nota: Cardeal Giacomo Antonelli (1808-1876) Este foi um cardeal muito reaccionário na cúria papal do seu tempo (?)]

 

Havia um dia em Roma, em que, ao comemorar o suplício e ressurreição de Cristo, subia às sumptuosas varandas da basílica de S. Pedro o escolhido entre os bispos, arremessava o facho do incêndio, o emblema do inferno, à praça pública, anatematizava os hereges, e invocava sobre eles a cólera do Eterno.

 

Era a fé púnica na singela e curta interpretação de Cipião, o Africano. A Igreja Católica, na ingenuidade destas crenças ferozes, segue as tradições latinas e a inocência virginal de Sula, de Mário, de Nero, de Constantino, de Alexandre VI, de S. Domingos e de todos os Simões de Monforte e de todos os Torquemadas da religião do operário nazareno.

 

[Notas: 1. Sula (138 - 78 a. C.) - membro duma família aristocrática empobrecida, consegue depois de uma carreira irregular, chegar a Ditador vitalício romano. 2 -- Mário (157 - 87 a.C.) -- Não sendo da elite romana, Mário viu-se limitado, mas mesmo assim conseguiu chegar a cônsul também por meios dúbios. 3 -- Nero (37-68) -- Imperador romano extravagante e louco. 4 -- Constantino (272 - 337) --Imperador romano de legitimidade duvidosa, oficializou o Cristianismo como religião de Roma, por influência de sua mãe, S.ta Helena, que, diz-se, encontrou a "Vera Cruz" em Jerusalém. Foi canonizado pela Igreja Ortodoxa grega. 5 -- Alexandre VI (1431 -1503) -- Papa espanhol (Rodrigo Borja). Muito corrupto, muito imoral, indigníssimo papa, teria praticado orgias sexuais, mesmo com a própria filha, Lucrécia Borja. Um verdadeiro anti-Cristo. 6 -- S. Domingos (1170-1221) - Fundador da Ordem dos Dominicanos ou Ordem dos Pregadores. Contemporâneo de S. Francisco de Assis, de quem foi muito amigo, não foi ele que fundou a Inquisição, nem a comandou, como há quem julgue. Excelentes pregadores, dominicanos foram manipulados por vezes pelos poderes políticos para lhes defender os seus interesses por meio da Inquisição. 7 -- Simão de Monforte (1160?-1218) -- nobre francês, foi a principal figura na cruzada cruel contra os albigenses da Provença. 8 -Torquemada (1420-1498), o Grande Inquisidor. Sinistro frade dominicano espanhol, responsável por cerca de 2000 autos-de-fé. Grande perseguidor de judeus e muçulmanos. Figura predominante da "Inquisição espanhola", é certamente uma vergonha para o país nosso vizinho.]

 

Olhemos para Cartago.

 

Vejamos o que era a fé púnica.

 

A cidade fenícia assombrava Roma. Dobrava-se, porém, aquela diante do orgulho da cidade de Rómulo. Curvava-se submissa a raça semítica na presença do povo indo-europeu.

 

Cartago sujeitara-se à dura condição de não defender os seus direitos, nem a sua própria independência sem autorização de Roma. Aproveitou-se Massinissa, príncipe da Numídia, deste abjecto e humilíssimo pacto, para avassalar o empório das riquezas de África; -- e quando a comissão, enviada pelo Senado, voltava ao Lácio, depois de ter fomentado e atiçado a discórdia, Catão -- no seu ódio implacável e cego pela torpe e abjecta cobiça, que o movia, terminava constantemente os seus discursos com a célebre frase, que revelava toda a negrura daquela alma: "E demais é preciso destruir Cartago" -- Delenda quoque Carthago.

 

E quando Cartago, confiada na lealdade romana, entregava e depunha todas as sua armas e máquinas de guerra, ficando indefesa e inerme -- agradecia-lhe, com a mais hipócrita e pungente das ironias, o cônsul Márcio Conserino, dizendo aos cartagineses: "Louvo-vos pela vossa pronta obediência em cumprir as ordens do Senado. Sabei agora a sua última vontade: manda-vos sair de Cartago porque
resolveu destruí-la."

 

E mais tarde -- ardia dezassete dias a cidade nova dos fenícios, por ordem expressa do Senado e, na voragem e horror do incêndio, saqueava a soldadesca infrene as imensas riquezas que sete séculos ali tinham acumulado.

 

A fé púnica é uma calúnia histórica, inventada pelos romanos, cujo ódio e ciúme, sem repouso nem trégua, sobreviveram à carnificina mais cruel e hedionda de que rezam as crónicas e lendas da antiguidade.

 

Aceitemos, pois, Cartago como a imagem do aniquilamento e da destruição.

 

Seja a fé púnica, na inversão da frase, o estigma e ferrete da lealdade latina.

 

 

 

(a continuar)





Joaquim Reis

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