Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

COM A VERDADE ME ENGANAM


Muito se discute à volta do controlo que empresas de telecomunicações (telefónicas) exercem sobre a gestão de empresas jornalísticas. Promiscuidade intolerável, atira-se de um lado. Cristalina estratégia empresarial, esgrime-se do outro. Afinal, em que ficamos? Por mim, sinto que, se fosse tudo às avessas, a discussão não seria tão animada. Na realidade, esta é uma peça em que os actores principais raramente vêm à boca-de-cena - um iceberg que só mergulhando fundo se faz uma ideia do seu real tamanho. Mergulhemos, pois.
Que a concessionária dos correios não foi criada para que lhe mandemos bilhetinhos, ou que as telefónicas não existem para que tenhamos alguém com quem falar - parece ser consensual. Uma e outras oferecem os meios para comunicar, mas não são parte da comunicação. Nada impede, porém, que, insatisfeitas com a procura, decidam estimulá-la, oferecendo novidades - de preferência, obtidas a baixo preço. Outros o fazem, sem escândalo para ninguém: as grandes superfícies têm marcas próprias, as Bolsas também criam valores negociáveis, os jornais fazem concursos, etc. São iniciativas legítimas - sempre que não discriminem quem queira colocar nessas mesmas prateleiras, lado-a-lado, novidades concorrentes. É um ponto a favor das estratégias empresariais que respeitem as regras da concorrência em todos os tabuleiros (e, se me é permitido, a favor da regulação sensata e da supervisão independente dos mercados).
Esta referência a regras da concorrência, porém, arrasta-nos para mais fundo. Dado que não é usual as empresas cobrarem-se delas-próprias, como saber se uma estratégia baseada na produção de infor-mações (de conteúdos) visa, de facto, expandir a procura de telecomunicações, ou serve outros fins? Simples. Veja-se como evoluem as receitas e as despesas das telefónicas (ou os seus resultados, desde que se elimine, primeiro, a subsidiação de umas actividades por outras, tão frequente em grupos empresariais) - e conclua-se. Ninguém melhor que os accionistas para tirar este tipo de conclusões. Fosse tudo como a teoria descreve, e os accionistas das telefónicas apenas estariam interessados na valorização do seu investimento e nos dividendos, pois mais nenhuma outra vantagem poderiam alguma vez de lá extraír. Quem melhor que eles, então, para apreciar estratégias que bulem com os seus bolsos - e decidir em conformidade? Só que as coisas não se passam assim. Em empresas de capital aberto (como são várias telefónicas) cruzam-se accionistas iguais àqueles que acabei de referir e accionistas "idiossincráticos" - isto é, investidores: interessados, acima de tudo, em expandir, valorizar e rentabilizar as suas participações financeiras, em bloco, e não cada um dos seus investimentos isoladamente considerado; que têm estratégias próprias que de alguma maneira vão subordinar, ou condicionar, a actividade de cada uma das empresas em que participem; e que, last but not the least, propendem a deslocar o grosso dos resultados para onde não tenham com quem dividi-los. São estes que, por definição, orientam e mandam - posto que só mandando poderão levar por diante as suas próprias estratégias. Mas, o que valem os conteúdos para um accionista tipicamente idiossincrático?
Umas braçadas mais, e começamos a distinguir grupos envolvidos em jogos de poder político (grupos de poder). A informação, a informação em bruto e a informação burilada, a que se difunde e a que se esconde, são os verdadeiros trunfos no jogo do poder: jogador com "boa imprensa" é jogador bafejado pela sorte; jogador com "má imprensa" é jogador arrumado. Só que, recolher, tratar, difundir informações (no caso, conteúdos com valía política), e estar razoavelmente seguro de que esses conteúdos chegam ao conhecimento dos destinatários sem saturar, exige organização, muita organização - e dinheiro, muito dinheiro. A convergência de interesses entre investidores idiossincráticos e grupos de poder, em torno de conteúdos e telefónicas, começa assim a desenhar-se: (i) as telefónicas cujo património esteja praticamente amortizado geram grandes lucros que, se não se lhes der melhor aplicação, terão de ser distribuídos por todos os accionistas, sem distinção (a necessidade de atraír concorrentes para o mercado e permitir que estes amortizem os seus pesados investimentos leva o regulador a condescender com tarifas relativamente altas); (ii) a indústria de conteúdos, essa, é trabalho-intensiva - pelo que a ligação a empresas com "algibeiras fundas" não deixa de ter os seus atractivos; (iii) poder instrumentalizar a liquidez gerada aqui e colher benefícios acolá é, para qualquer accionista idiossincrático, uma tentação demasiado forte - e o pretexto de produzir conteúdos que estimulem a procura de telecomunicações se no é vero, é bene trovato; (iv) no jogo do poder, a vitória é tanto de quem ganha como de quem apoiou com os trunfos decisivos - porque ambos arriscaram. Numa palavra, a esta profundidade já não há meninos-de-côro, e é aqui que a promiscuidade se instala. As coisas poderiam não ser assim, se os outros accionistas das telefónicas pusessem perguntas pertinentes, talvez incómodas, e exigissem respostas claras - afinal, são eles que acabam por pagar tanta convergência. Não querem, ou não sabem - e as coisas são como são. Contrariamente ao que por aí corre, porém, nada disto é exemplo de excesso, mas de falta de mercado: falta de regulação e supervisão, sem dúvida - mas nos mercados financeiros, não no da comunicação social; e, acima de tudo, demissão e desinteresse dos investidores não-idiossincráticos - sem os quais não há checks and balances que assegurem empresas e mercados eficientes.
Puxar esta discussão para o campo da isenção é, com a devida vénia, uma ilusão e um lôgro. Ilude, quem pretende que é possível relatar sob todos os ângulos tudo o que acontece. Escrever é escolher. Editar, também. E escolher implica rejeitar, logo, manter oculto. Engana-se e engana quem insiste na isenção. Em vez de lutar por uma boa causa, como crê, está objectivamente a tentar adormecer nos outros a capacidade crítica; a insinuar que nada mais eles precisam conhecer; enfim, a presumir-se de luzes que obviamente não tem. Quando é bem simples o que se espera dos media: antes do mais, que sejam muitos - e de todas as cores; que tenham linhas editoriais traçadas às claras - com as quais possam ser permanentemente confrontados; que assinalem, sem subterfúgios, os desvios à sua orientação editorial; que indiquem, por rotina, a quem pertencem e como se sustentam. Até porque, em ambiente plural, a pouca credibilidade (e qualidade) deste ou daquele meio não é problema de quem lê, ouve ou vê - é, sim, problema de quem lá trabalha e de quem nele tenha investido bom dinheiro.

A. Palhinha Machado

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D