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A bem da Nação

DEVANEIOS

(*)

PADRE GOÊS EXPLORADOR DO SERTÃO AFRICANO

(Séculos XVI/XVII)

I

 

Adams Segued, soberano da Etiópia, resistiu à implantação do Cristianismo do Rito Latino nos seus domínios, de 1577 a 1597, pelos missionários jesuítas. Proibiu o casamento dos etíopes com os portugueses e até mandou prender por algum tempo o Bispo André de
Oviedo. A pregação da Doutrina Cristã do Rito Latino foi suprimida com severas penas aos infractores. Goa enviara à Etiópia três missionários brancos, dois deles descobertos e presos, enquanto o terceiro foi simplesmente martirizado.

 

Para fazer face à situação, Pe. Belchior da Silva, brâmane de Goa, voluntariou-se em socorrer os cristãos minoritários do Rito Latino na Etiópia, embarcando em Setembro de 1597 num barco à vela indiano do porto de Baylur, nas proximidades de Diu, com destino ao porto de Melinde, no Este Africano. Na época, Goa dominava toda a extensão da costa oriental africana, de Sul a Norte.  

 

O missionário goês, de tez morena ou bronzeada, palmilhou todo o sertão do Leste Africano durante penosos oito meses até chegar ao seu destino, em Maio de 1598. Do seu curioso itinerário, fez um relato minucioso nas Cartas endereçadas ao Arcebispado de Goa. Homem de saber e de virtudes não teve dificuldades na sua pregação levando muitos etíopes a aceitar o Cristianismo do Rito Latino. Evangelizou, baptizou e recristianizou muitos etíopes durante longas décadas, fundando e construindo novas paróquias e igrejas até sua morte (s.d.), no olor de santidade. Levado por humildade cristã, declinou a Dignidade Episcopal que lhe fora proposta de Roma, mas aceitou o cargo de Vigário-Geral do Apostolado de Abissínia (1603/04).

 

2

 

Explorador pioneiro do sertão africano

 

Lamentavelmente nunca se fez a divulgação das citadas Cartas enviadas ao Arcebispado de Goa, com circunstanciado relato do que vira nos longos e penosos oito meses de sua penetração no sertão do Leste Africano. Sabe-se que este explorador pioneiro não teve o apoio nem dos Governos nem das Instituições, como sucedeu com os exploradores do século XIX, cujas façanhas andam cantadas e decantadas até aos nossos dias. A História Universal nunca pode ter outra moral que não seja imparcial, enaltecendo o valor, a coragem e o sofrimento dos exploradores de qualquer origem e etnia.

 

Eis a razão de ser deste modesto apontamento destinado a prestar a minha admiração pelo Pe. Belchior da Silva, meu ilustre conterrâneo, que serviu até seu decesso o Padroado Português do Oriente e a Igreja de Roma, num espírito de bem-fazer e de
voluntariado, apenas munido de três armas: Breviário, Crucifixo e Rosário!

 

Quase decorridos uns 250 anos, o sertão africano voltou a ser explorado por seis figuras marcantes da História Universal, três delas estrangeiras e três portuguesas. É de jus que sejam evocadas nessa ordenação convencional dos seus nascimentos e respectivas façanhas. Ei-las:

 

1. David Livingstone (1813/73), médico e descobridor de lagos e de cataratas do sertão africano;

 

2. Henry Morton Stanley (1841/1904), repórter jornalístico e descobridor de lagos e rios;

 

3. Hermenegildo de Brito Capelo (1841/1917), Oficial da Marinha naval Portuguesa, que percorreu o sertão de Angola a Moçambique;

 

4. Verney Lovett Cameron (1844/94), oficial da Marinha Naval Inglesa, que percorreu o interior do sertão da margem do Lago
Tanganica até ao Porto de Benguela (Angola);

 

5. Alexandre Serpa Pinto (1846/1900), participante na Expedição ao Centro da África (1877) que do Bié-Angola  ao Rio Zambeze (1878) percorreu sozinho o Continente passando as cataratas de Vitória, o deserto de Kalahari e as incipientes vilas e cidades de Pretória, Pietermaritzburg e Durban, da África do Sul (1879);

 

6. Roberto Ivens (1850/98), Oficial da Marinha Naval Portuguesa e Chefe da Expedição da Travessia do Continente Africano com Brito Capelo e Serpa Pinto e co-autor do livro «De Angola à Contracosta» (1886).

 

A extensa e arriscada viagem do Pe. Belchior da Silva através do sertão do Leste Africano feita sozinho, sem quaisquer apoios, sem
mantimentos, nem roupas ou cobertores, merece ser considerada como um feito extraordinário a emparceirar-se com os feitos históricos dos acima citados exploradores do século XIX.

 

Alcobaça, 29.05.2012                                                             

 

 Domingos José Soares Rebelo

 

 

Fontes (consultadas):

  • Dicionário Enciclopédico de Língua Portuguesa (2 vls.) -ed. R. Digest, Lisboa, 1992;
  • Goans Abroad and in British Lands (A Study) by D.J.Soares-Rebelo, Mombasa-Kenya,1944;
  • Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira (Cf.Abissínia), Lisboa, 1946.

      

Fontes (sugeridas):

  • Ethiopia Oriental & Varia Historia de Cousas Notaveis do Oriente por Frei João dos Santos -Évora, 1609; Histoire de L`Éthiopie Orientale, traduite de portugais de R.P. Jéan dos Santos, réligieux de S. Dominique, 1684;
  • Quadros Biographicos dos Padres Illustres de Goa (Estudos) em 2 vs -Rangel, Bastorá, Bardez, Goa pelo Mons. Francisco Xavier Expectação Barreto (Cf. Volume II –Pe. Belchior da Silva),  1899/1907.

(*)- Gorgora Nova, Etiópia, edificada por portugueses v. http://www.google.pt/imgres?q=eti%C3%B3pia&um=1&hl=pt-PT&biw=1024&bih=735&tbm=isch&tbnid=JSx7L2_dXZxtQM:&imgrefurl=http://olavilnius.blogspot.com/2009/04/7-maravilhas-gorgora-nova-etiopia.html&docid=xVL2uTA4LUAvkM&imgurl=https://1.bp.blogspot.com/_LhqfVW4bsMc/SeeWYwAwVII/AAAAAAAABRM/NUQlv7zDnmE/s400/7etiopia04.jpg&w=400&h=300&ei=3CfLT6i1CurR0QWpxJWnAQ&zoom=1&iact=hc&vpx=725&vpy=186&dur=7414&hovh=194&hovw=259&tx=162&ty=144&sig=109573699884915906692&page=6&tbnh=166&tbnw=222&start=77&ndsp=16&ved=1t:429,r:11,s:77,i:284

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