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A bem da Nação

E SE KANT SOUBESSE ARITMÉTICA?

 

 

As guardiãs do templo encarregavam-se de transmitir aos crentes as respostas dos deuses. Faziam-no por palavras vagas e sentidos amplos de modo a que todas as realidades que no futuro o problema respondido pudesse assumir ficavam cobertas pelas sábias respostas. Os deuses nunca se enganavam e o comércio divino ficava assegurado.

 

Embuste puro.

 

A clareza da comunicação está na razão directa da seriedade do comunicador e só embusteiros podem afirmar que a clareza se confunde com inocência.

 

Antes de agarrarmos na caneta (ou de começarmos a mexer os dedos sobre o teclado), temos que definir exactamente o que queremos dizer. Em primeiro lugar, temos que saber como a «história acaba»; a escrita é a construção do silogismo que conduz à conclusão. Se assim não for, a divagação impera, a leitura cansa, os jogos de palavras ridicularizam o escritor, a mensagem esvai-se e corre-se o risco da crítica de que andamos por cá apenas a consumir oxigénio.

 

«E tudo esprimido, deu em nada» – eis o que muito me apetece dizer quando leio certos filósofos que mais parecem pitonisas ou holandeses errantes ao leme de navio fantasma: parece não saberem onde querem chegar, não têm rota definida, jogam com as palavras como se fossem poetas, escrevem frases longuíssimas que parecem destinadas a levar o leitor à errância. E aplicam palavras de quilo demonstrando grande erudição.

 

Nós, os leigos que pagamos impostos, ficamos espantados com tanta sapiência, gastamos o chão a caminho dos dicionários da nossa própria língua e chegamos ao fim com a consciência de grande ignorância, se não mesmo de estupidez: fé no oráculo e espanto frente à pitonisa.

 

E, contudo, as coisas podiam ser muito mais fáceis. Corria-se o risco de perda do encanto perante raciocínios de grande erudição sobre conceitos tão gerais que só um deus concebe mas, em compensação, haveríamos de perceber a filosofia com relativa facilidade, a escrita enxuta seria a norma e a transparência dos raciocínios atrairia mais crentes.

 

E como os maiores filósofos da História tinham outras profissões que não essa de andarem pelos jardins a filosofar, aqui fica a sugestão para quem se profissionalizou nesses pensamentos que de tão elevados ninguém de bom senso lhes chega: agarrem num desses filósofos e decomponham-lhes as frases de modo inteligível pelo comum dos mortais.

 

Mas antes de iniciarem a tarefa, vão aprender um pouco de aritmética e de matemática elementar.

 

Todos sabemos que uma frase tem que ter sujeito, predicado e complemento directo mas caso este falte, conclua-se a frase com reticências para que tudo fique na tal vacuidade tão ao vosso gosto, filósofos de profissão.

 

E se se considerar que uma vírgula corresponde ao sinal mais (+) somando duas ideias e o «e» corresponde ao sinal vezes (x) misturando duas ideias, tudo se torna mais lógico e enxuto. E não hesite em fazer frases curtas apenas com uma ideia pondo os conceitos complementares entre parênteses ou mesmo em notas de rodapé.

 

Prezado jovem filósofo de profissão: se tiver inquilinos que lhe paguem rendas confortáveis, agarre-se à “Crítica da razão pura” do seu mestre Kant e pode ter a certeza de que fica com trabalho para o resto da sua longa vida. Não ficará na História como um grande produtor de filosofias novas mas as hostes que lhe pagam as rendas hão-de ficar-lhe agradecidas por ter desmantelado um mito. Mas não explique, traduza apenas.

 

E se Kant soubesse aritmética? Eventualmente, os crédulos transformavam-se em crentes.

 

Lisboa, Maio de 2012

 

 Henrique Salles da Fonseca

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