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A bem da Nação

MAIS UNS COPOS...

 

 Desta vez do melhor!

 

Começámos a falar de vinhos e... como diz o Abade de Travanca, foi só para começar.

 

Não sou entendido em vinhos, só o bastante para apreciar. Um apreciador à minha moda e paladar, porque também não sou obrigado a gostar de Picasso, Juan Miro ou Tarsila do Amaral, apesar de valerem milhões.

 

A verdade é que ao almoço não me faltam – Deo Gratias – pelo menos dois ou três copos, que têm ajudado a minha saúde a desfazer-se dos cerca de 3.500 compridos que sou obrigado a ingerir por ano, isto se não me der uma torcedura na coluna ou uma gripe!

 

E faço com dizia Winston Churcill, “eu não sou exigente, para mim contento-me com o melhor!”

 

Apesar de não ser um apreciador de Champagne, reconheço que a sua preparação é extremamente exigente, daí ser uma bebida cara, mas ver, constantemente, os vencedores de qualquer prova desportiva – carros, corridas a pé, de bicicleta ou nado, ou ping-pong – abrirem “Veuve Clicquot” ou “Dom Pérignon” para jogarem tudo fora, uns para cima dos outros, acho um crime não só contra a economia, uma afronta a quem não tem dinheiro para beber esses vinhos e uma ofensa a Baco. Enfim, uma cretinice. Modismo é no que dá.

 

Aquela bebida, transparente, amarelinha, com um delicado gás, acreditem ou não é feita sobretudo de uvas Pinot Noir... tintas! É
verdade, com as uvas Pinot Noir de que se faz o maravilhoso Bourgogne, tinto, faz-se também o champagne branco! Como? Espremem pouco, para não esmagar a película que dá a cor (não se aflijam que esta não se joga fora! Aproveita-se para outro tipo de vinho.) E o célebre Dom Pérignon, um monge da abadia de Hautvilliers, degustador de génio, grande químico e físico, aperfeiçoou este vinho para o elevar à qualidade que tem hoje.

 

É feito duma mistura de uvas, concluindo que a mistura das três resulta melhor do que qualquer delas separadamente! Foi ainda Dom Pérignon quem passou a usar rolhas de cortiça, em vez do velho batoque revestido com um trapo oleado! Foi mesmo o “inventor” das rolhas de cortiça!

 

Apesar do Champagne ser muito famoso, caro, e obrigatório quando os emergentes querem aparecer, eu não troco pelo melhor vinho do mundo!

 

Colares. O maravilhoso vinho que está a desaparecer com o avanço da urbanização, e pela complexidade da sua multiplicação.

 

Colares, para quem não sabe, fica “ali”, na base norte da Serra de Sintra. Lugar lindo, aprazível, perto das praias das Maçãs, Grande e
Adraga. Conquistada aos mouros em 1147, foi sede de concelho com o primeiro foral concedido nos primeiros tempos da monarquia. Em 1154 Dom Afonso Henriques já refere o vinho da região, concedendo-lhe privilégios, e em 1255 D. Afonso III fazia doação do Reguengo de Colares a Pedro Miguel e sua mulher, Maria Estêvão, com a obrigação de plantar mais vinhas.

 

A fama deste vinho vinha de longe. Políbio, (c. 203 a.C. - 120 a.C.) já escrevia também que no seu tempo o vinho da península, era caro, valia 4 reis o litro! Na região existem ainda hoje, resistem, casas agrícolas romanas, algumas delas tão bem conservadas que mostram o sistema de aquecimento central da água!

 

O clima daquela região é especial: na base norte da Serra de Sintra, onde os ventos de noroeste, carregados de humidade do oceano se vêm chocar, dão à região a humidade necessária, e justa, para o florescimento da vinha.

 

Influem na qualidade deste vinho, o tinto da casta “Ramisco”, esta constante humidade e o seu terreno de areias. Areias do período
terciário, assentes sobre argilas cretáceas, mais recentes! Ao plantar o bacelo (a vara da videira que se planta para reprodução) a cava tem que encontrar a argila, onde ele é fixado. Como a camada de areia tem uma profundidade que oscila entre 1 e 8 metros, imagina-se o trabalho, imenso que é necessário para alcançar essa profundidade.

 

 

 

 

 

Não há muito tempo estas cavas, em vala, eram feitas à mão, e como as areias não são firmes, sempre havia o perigo de as laterais
desmoronarem quando o cavador lá estivesse dentro. Para evitar o pior, o capataz estava sempre atento, com um cesto de vime à mão, para lançar sobre a cabeça do trabalhador e ele não morrer asfixiado!  

 

O “Colares – Ramisco” tem outra particularidade notável: quando ainda no século XIX a malfadada filoxera, um inseto f... , atacou as
vinhas da Europa, devastando a maioria das plantações, acabou com as vinhas do Alentejo (ele e o Marquês de Pombal!!!) mas o “Ramisco” nada sofreu! O maldito insecto não conseguiu alcançar a raiz da planta! Isto porque desenvolvendo-se esta a grande profundidade, em areia, o insectozinho (miserável) quando começava a crescer não conseguia abrir caminho através da areia e morria! E esta, hein?

 

Sempre houve quem comparasse o “Colares-Ramisco” aos melhores vinhos de Medoc. E são de Medoc só, por exemplo, o Chateau
Lafite-Rothschild, o Chateau Margaux, Chateau Latour, e outros (“vinhos correntes” ) para milionários!

 

Colares chegou também a ter o seu castelo que com o tempo sumiu.

 

Mas o seu vinho, infelizmente raro, continua a não “pedir meças” aos notáveis, mesmo sabendo que hoje já não é 100% Ramisco, porque está a desaparecer. Mas assim mesmo...

 

Uma perda nacional!

 

E nas areias de Colares ainda resiste, igualmente pouco, o branco “Malvasia”. Vinho forte, ótimo para acompanhar peixe bem temperado,
“primo” do Muscat francês. (Só para fazer inveja: bebi hoje a última garrafinha que tinha desse vinho!)

 

 

 

Linhagens que estão a desaparecer e empobrecer o que de, MUITO BOM, Portugal.. ainda tem.

 

 

 

Rio de Janeiro, 17/05/2012

 

 Francisco Gomes de Amorim

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