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A bem da Nação

A BATATA E O CARAPAU

(*) 

 

Berram os comunistas contra o capitalista que lhes estragou a festa. Mas como já berravam antes de qualquer capitalista lhes estragar a dita, a diferença não é, afinal, muito grande.

 

E como a existência de democracia só é reconhecida quando as esquerdas berram, então berrem para aí à vontade enquanto o povo vai às compras com desconto! Ou seja, o estômago manda muito mais que a cartilha. Como se viu, as lojas do supermercado encheram-se a abarrotar de putativos manifestantes que, não dispondo do dom da ubiquidade e para grande ira dos da cartilha, faltaram às manifs.

 

Mas apetece-me confabular um pouco sobre os acontecimentos do 1º de Maio passado apesar de não ser meu costume abordar temas assim tão concretos. Aliás, sou o primeiro a dizer que só devemos referir factos para ilustração das ideias que discutimos. Eis por que trato esta como a excepção que confirma a minha própria regra.

 

Terá a cadeia de supermercados tido como objectivo mostrar ao mundo que em Portugal a revolução do 25 de Abril já acabou? Desconheço totalmente se foi esse o objectivo mas custa-me crer que uma empresa se arrogue missão de política pura. Mais: custa-me crer que o possa legalmente fazer pois não me consta que tal desiderato tenha cabimento na sua razão social. Seria, pois, uma bizarria sem qualquer sofisticação que lhe ficaria muito mal e que juridicamente corresponderia a dar o flanco sem hipótese de fuga para qualquer escapatória.

 

Arredo, pois, a hipótese de pirraça política às esquerdas.

 

Então, do que se tratou?

 

Tratou-se de dizer que em Portugal o mercado de produtos agrícolas e de agrícolas transformados é um oligopsónio com o risco todo
concentrado na oferta e com um método pavoroso de formação de preços.

 

Traduzindo de «economês» para português: em Portugal, os clientes relevantes de produtos agrícolas e de agrícolas transformados são as grandes superfícies que pagam aos preços que querem e quando querem. E mais disse ela (aquela rede de supermercados) que: no cômputo geral, tem uma margem de, pelo menos, 50%.

 

Se a margem é ou não exagerada, não temos elementos que nos permitam fazer qualquer julgamento pois não nos podemos esquecer dos custos de funcionamento que não devem ser assim tão poucos como os do comércio tradicional. Portanto, passo por cima deste tema sem mais do que apenas constatar o facto. Fale dele quem mais avisado andar.

 

Regresso, pois, à primeira parte da mensagem que ela nos deu: o tipo de mercado e o método de formação dos preços.

 

Quando a procura está concentrada em poucos grandes compradores e a oferta dispersa por um mar de fornecedores, quem dita as regras do mercado é a procura e a oferta mais não pode fazer do que «alinhar». A menos que...

 

A menos que haja um Governo que se encarregue da definição do bem-comum em vez de abdicar dessa missão como tem acontecido
sucessivamente em Portugal.

 

E como deve ser definido o bem-comum num caso destes? Muito facilmente, promovendo a equidade na distribuição do risco entre a
procura e a oferta de modo a que, ao contrário do que sucede actualmente, ele deixe de se concentrar na oferta. Os países evoluídos há muito que inventaram as operações sobre futuros de tal modo que a oferta só avance para a produção depois de ter obtido a garantia de que num determinado momento futuro tem a quem entregar a produção a um preço que lhe pareça conveniente; se nesse prazo futuro o preço não for conveniente, também não haverá produto pelo que a oferta não teve que investir nem ficar com um produto perecível que teria que vender ao desbarato.

 

Mas o Governo não está interessado em definir o bem-comum neste sentido estrutural que conduziria à transparência dos mercados e à correcção do método de formação dos preços preferindo pôr as forças policiais à cata de papéis que provem o dumping pontual na batata ou no carapau sem sequer admitir a apreciação da margem global do negócio. 

 

E isto é dizendo-se liberais...

 

Resultado: as esquerdas vão continuar a berrar e a democracia fica garantida.

 

Mas mesmo que a agricultura e as pescas deixassem de continuar a caminho do precipício, as esquerdas logo arranjariam outro pretexto
para a berraria sem a qual não sabem viver.

 

Lisboa, Maio de 2012

 

 Henrique Salles da Fonseca

 

(*)http://rupturavizela.blogs.sapo.pt/2008/05/04/

 

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