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A bem da Nação

O “Empresário” da Íbis

 

Pessoa: republicano, “criador de anarquias” e “civilizações”

Uma pequena descoberta como a que a Empresa Íbis (que todos acreditávamos não ter chegado a funcionar) imprimiu durante três meses um semanário algarvio, O Povo Algarvio, “republicano e anticlerical”, como se subintitulou, é rica de implicações. Pode levar-nos longe: a perceber melhor a importância na sua vida – que há muito venho a sublinhar – da família de Tavira, judeus e maçons de
ascendência fidalga. Numa nota autobiográfica, Pessoa disse-se descendente “de fidalgos e judeus”. Eram esses. A “cruzada” de toda a sua vida contra o que chamava “a Igreja de Roma” – ele que sempre foi e se assumiu como “um espírito religioso” – é esclarecida por esse período de iniciação na vida adulta.

Herdeiro de um cabedal importante por morte da avó paterna, o jovem Pessoa, ao dobrar o cabo da maioridade de então (21 anos), decide montar urna empresa que baptizou Íbis e que visava muito mais do que ser um negócio: “o criador de anarquias” que, mais tarde, disse ter que ser todo o intelectual digno desse nome, pretendia simultaneamente ser um “criador de civilização” – como o
atestam escritos vários desses primeiros tempos, depois do regresso a Portugal e à língua portuguesa.

 

A sua boa maneira, o jovem Pessoa aplicou-se simultaneamente a confeccionar muitas e longas listas de projectos literários a realizar pela tal “Empresa Íbis”, com esse alcance de arrancar à sua incultura o povo português, e a redigir, à mão, um jornal que primeiro se chamou Fósforo e depois Iconoclasta, para atear fogo à monarquia agonizante. Quem ignore este furor iconoclasta de Pessoa, torcerá o nariz a textos desta fase, escritos assumidamente como um “insulto que fere e escalda” — contra “padres e reis”.

 

Muitos continuam a incorrer no erro dos seus primeiros biógrafos que o disseram monárquico – e até entenderam ao contrário a sua afirmação, nuns apontamentos autobiográficos que confiou ao amigo Armando Côrtes-Rodrigues, segundo os quais a ditadura de João
Franco teria desencadeado nele o desejo intenso de escreverem português. Até aí o jovem “português à inglesa”, como se disse num poema, dedicara-se sobretudo a exprimir em inglês as suas profundas cogitações e os seus poemas. Mas para escrever os tais textos para os referidos jornais projectados, de forma a incendiarem a monarquia decrépita e o clero devasso e tirano, teria que usar o português. Quem ignore tais propósitos ficará chocado com a linguagem ostensivamente grosseira de poemas nessa altura atribuídos a um tal Joaquim Moura Costa, que pôs a vociferar impropérios e palavrões que Pessoa, na sua própria pessoa, jamais pronunciou. As caricaturas que então fez, só com versos, de “padres e reis”, ganharão, em grosseria, às de Bordalo Pinheiro e seus seguidores, denunciando os mesmos podres.

 

A Empresa Íbis surgiu-lhe como o instrumento ao dispor para editar não só os seus escritos de combate republicano como de edificação cultural desse povo português que descobriu amar com todas as veras do seu coração (di-lo num texto que publiquei em Pessoa por Conhecer, que mais parece uma declaração de amor adolescente). Também confessa, num escrito desses primeiros tempos, que tem o
projecto de “desencadear uma revolução aqui”… Por isso, os seus panfletos. À margem de um poema épico, em português, que então compunha, significativamente intitulado Portugal, escreveu, em Outubro de 1910, dias depois da implantação da República: “Recentes e gloriosas dias tornaram felizmente visionária esta poesia prefacial”.

 

Da Empresa Íbis (cujo propósito cultural foi retomado, mais tarde, por uma longamente projectada Cosmopólis – mas só isso, só sonhada – e pela Olisipo, essa realizada mas de pouca dura) eu conhecia o papel timbrado, os envelopes e os numerosos planos. Todos os estudiosos de Pessoa têm dito (e eu também) que nunca funcionou. Saber que sim, foi uma surpresa que me fez Rui Sena, que me
visitou no Algarve, na minha casa de Cacela, para me entrevistar sobre um poeta algarvio que eu conheci pessoalmente, Cândido Guerreiro, sobre o qual fez um documentário. Disse-me ele que, ao consultar vários jornais algarvios para o efeito, descobrira um, de Loulé, O Povo Algarvio, composto e impresso, durante três meses, “na tipografia da Empresa Íbis” (assim figura no cabeçalho do jornal). Preparava-se ele para me fornecer generosa mente essa descoberta, dizendo, com a modéstia que o caracteriza que “tinha sido por acaso’.

 

É claro que fiz questão use fosse ele a assumi-la e no primeiro Encontro que fizemos (o Instituto de Estudos sobre Modernismo, de que sou timoneira) em Tavira, em 15 de Outubro de 2010, pedi-lhe que comunicasse aos presentes o que descobrira. A seguir, pedi que registrasse por escrito, um texto para nossa revista on-line, Modernista 1, tudo o que nos tinha dito. Lá está (http://www.iemodernismo.org/Revista.html).

Em Junho de 20011 fiz, nas Jornadas Modernistas que o meu Instituto levou a cabo na mi ha Faculdade (de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa) uma comunicação em que expus o que digo neste artigo, prometido ao JL desde então. Foi portanto o Rui Sena que me revelou que, entre 12 de Março e 12 de Junho de 1910, o jornal de Loulé O Povo Algarvio tinha sido composto e editado pela tipografia da Empresa Íbis. Também aprendi com ele que esse semanário, que se subintitulava “semanário republicano independente”, fora fundado em 20-5-1909, e que nesse primeiro número o seu director e proprietário se regozijava com a conquista da Câmara de Lisboa pelos republicanos e denunciava indignadamente a proibição, às crianças das escolas, de aí cantarem o hino maçónico! Escreve Rui Sena no seu artigo que, nesse primeiro número, o seu director revelava o objectivo do jornal: “Propugnar a verdade das doutrinas democráticas que anunciam a redenção da espécie pela Escola, pela Liberdade e Fraternidade humanas, sem deuses, sem reis e sem padres”.

 

Num poema desse tal Joaquim Moura Costa, Pessoa escreve, no mesmo sentido: é a espada, vejam bem, Que ao mal e ao crime conduz: A Espada tem uma coroa E a coroa tem uma cruz.

 

Soube também, por este artigo de Rui Sena, que Paulo Madeira, nascido em Alte, em 1875, já publicava artigos revolucionários aos 15 anos, no jornal diário anarquista Batalha, de Feio Terenas, e que, mais tarde, em precária situação económica (sacrificara todos os seus rendimentos no comércio de cereais, em Loulé, à causa republicana) teve que emigrar para a Argentina, em 1912, donde nunca mais
regressou. Pela mão amiga do nosso parceiro, em Tavira, de aventuras pessoanas, Dr. Carlos Lopes, que me convidou para amadrinhar a Casa Álvaro de Campos que aí criou, comuniquei comum sobrinho-neto de Paulo Madeira, Dr. Luís Filipe Madeira, advogado em Loulé (em tempos Secretário de Estado e deputado peio Partido Socialista) que me escreveu que esse tio-avô, irmão do avô paterno, filho mais velho de seis irmãos, tinha finalmente sido obrigado a emigrar, vítima do seu “romantismo republicano”.

 

Rui Sena forneceu-me mais factos que a leitura de alguns números do Povo Algarvio (que ele pediu ao Eng. Luís Guerreiro me fizesse chegar) veio enriquecer.

 

A mudança do subtítulo do Povo Algarvio para “seminário republicano anticlerical”, quando estava a ser produzido pela Íbis (conforme imagem) deve ter feito exultar Pessoa – se é que não foi ele a sugeri-lo, o que é bem provável. No último número publicado pela Íbis em 12 de Junho de 1910, ficamos a saber da venda da empresa. O jornal mudou então de tipografia, para outra de Lisboa, provavelmente arranjada por Pessoa, que a isso se prontificara.


Numa fotografia podemos ver, ao centro, o dr Alexandre Braga (filho) acompanhado, à sua direita, por Paulo Madeira, no dia em que deslocou ao Algarve (Junho de 1910) para o defender, como seu advogado, no tribunal de Loulé, num processo que lhe fora movido pelo padre Basílio, Manuel Basílio Correia, pároco de Loulé (S.Sebastião), director, com outro padre, Luís Vieira, do jornal rival, Noticias de Loulé, por tentativa de homicídio (acusara-o, no jornal, de ser pedófilo e, frente-a-frente, ameaçara-o com uma pistola).

Paulo Madeira conseguiu sair do julgamento apenas condenado por não ter licença de porte de armas… (Tudo isto são informações que Rui Sena generosamente me tem dado). Houve outros padres acusados no Povo Algarvio de pedofilia – o articulista chamava – lhes “dicículos do bispo Beja”, que Pessoa também nessa altura, denunciava. (Veja-se a caricatura publicada num jornal de Lisboa).

 

 

Foram também colaboradores do Povo Algarvio – com grande repercussão dentro e fora do país – Brito Camacho, Câmara Reis, Comes Leal, Raul Brandão, além de João Rosa Beatriz e Machado dos Santos, ambos combatentes da Rotunda.

 

A descoberta do funcionamento da Íbis seria de somenos importância se não ajudasse a fazer luz sobre uma fase da vida Pessoa pouco conhecida e sobre a sua sempre presente militância contra a Igreja de Roma. Nos poemas dessa época pré República, vemos o jovem Pessoa defendendo o Regicídio sobre o qual pôs o seu “outro”, Alexander Search, a escrever, em inglês.

 

Num texto dos primeiros tempos, afirmou que “estamos todos divididos entre o deus do pai e o da Mãe”. Até aos 13 anos jovem Pessoa foi católico, como a família materna, oriunda dos Açores. Fez em Durban a Primeira Comunhão, frequentando um colégio de freiras irlandesas, precisamente para ter uma educação católica. Campos evoca, num dos seus poemas, “a minha infância que rezava”. Já anteriormente afirmei que o relacionamento com a família paterna, em Tavira, de judeus e maçons, quando passou em Portugal um ano, em 1901-1902, terá sido decisivo para que a balança pendesse decisivamente para o lado do pai.

 

As suas incessantes leituras, procuradas já para entender essa identidade que se descobrira, ajudaram muito, claro: na sua biblioteca há para cima de 20 livros de J.M. Robertson (1856—1933), do movimento racionalista e secularista britânico, que colaborou com Annie Besant, a teósofa traduzida por Pessoa. Por esta altura leu Junqueiro e Nietzsche (também se pôs a proclamar, em verso, a morte de Deus e da Igreja Católica, contra a qual escreveu, em verso, violentos e mesmo grosseiros vitupérios – que Joaquim Moura Costa terá assumido… Identificou-se então com o contestatário dessa Igreja: Em mim o espírito de Lutero, e adoptou a sua expressão Igreja de Roma e sua denúncia do Papa e dos padres, ignorando a sua senha contra os judeus…).

 

Convém, contudo, ter presente, que a verrina contra a Igreja de Roma não era superficial aversão mas porfiada “militância” de toda a vida contra essa instituição que criara a Inquisição às mãos de quem morrera o Grão-mestre desses Templários a cuja Ordem, em dormência, no fim da vida declarou pertencer (de cabeça, portanto, como fez quase tudo). Também o seu tetravô Sancho Pessoa foi condenado a confisco de bens por essa abominada Inquisição. E a “religião individual”, “metafísica recreativa”, que foi o Neo-paganismo, com a paródia de Cristo que Caeiro representa, é a forma literária – mente mais acabada dessa recusa da religião – que representava, como disse, “o adoecimento” da civilização: chamou-lhe mesmo “morbo cristista”.

 

Quando, em 1901-1902, de visita a Portugal (vivia então em Durban) frequentou a família de Tavira – com quem manteve sempre relação – o jovem Pessoa deve ter ficado impressionado com o que soube do avô e tio-avô combatentes das lutas liberais perseguidos e presos por esse ideal. Na campa de último, no cemitério de Tavira (conforme Imagem), pode ainda hoje ler-se em letra grande a “AQUI JAZ O LIVRE PENSADOR JACQUES CESARIO PESSOA”, seguramente maçou. O Jacques Pessoa da rua de Tavira é filho deste, pai do Eng.º Jacques Pessoa Rolão, recentemente falecido, com quem contactei e me informou que os Pessoas eram maçons e não baptizados.

Publiquei (no mencionado PPC) uma carta começada a escrever por Pessoa em 1906, segundo nota diarística, em que pede contas ao prior dos Mártires, que o baptizara, por esse ato abusivo de integrar numa religião um ente ainda irracional.



Segundo me informou o nosso parceiro e amigo Carlos Lopes (que me forneceu esta foto), este Jacques Pessoa (filho do “Livre Pensador”) teria um irmão, primo do pai de Pessoa, também proprietário de uma Tipografia Burocrática, que publicou, em Tavira, um jornal de Anúncios, assim chamado, fundado em 1885. Os Pessoas de Tavira eram, portanto, não só judeus e maçons mas também dados a estas actividades editoriais…

 

Parece-me evidente que foram eles quem arranjou ao jovem Pessoa esse seu primeiro emprego de editor do Povo Algarvio, de cuja existência, na então longínqua vila de Loulé, Pessoa não teria tido conhecimento, sem a sua mediação. Imagino que Pessoa terá ido ao funeral de Jacques Pessoa, falecido em 1909, em que terão comparecido outros correligionários maçons e republicanos, e que a família, a
que era muito ligado, terá estabelecido os contactos. Isso explica que o proprietário do Povo Algarvio tenha escolhido essa desconhecida
tipografia por estrear, tendo outras, no Algarve e Alentejo, mais à mão – de que, noutras alturas, se serviu.

 

Pessoa deve ter vibrado com as atitudes de Paulo Madeira (incito os meus amigos informadores a apurar se era também judeu – sei de Madeiras dessa zona que o eram – e a escreverem uma biografia desse algarvio destemido). Não querendo abusar do espaço que aqui me é concedido, deixo para a próxima a continuação desta (palpitante) história…

 

Nota: Não quis sobrecarregar o artigo com citações e notas, que, aliás, fiz de cor. Encontrarão (quase) tudo no meu «Pessoa por Conhecer», no volume coletiva Pessoa Inédito e onde eu fui dizendo (quando disse).

 

 Teresa Rita Lopes

 

In http://revistalusofonia.wordpress.com/

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