Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

COISAS DE MINEIRO SABIDO

 

 

Muitas são as histórias de médicos contadas nestas paragens do interior de Minas Gerais. No início de século passado, quando o sertão ainda era pouco habitado e as corruptelas de difícil acesso, os médicos viajavam léguas e léguas em estradas de terra batida para atender chamadas em áreas rurais de pacientes ou enfermos impossibilitados de se locomover. O médico era requisitado, a qualquer hora do dia ou da noite, no consultório ou até mesmo em casa. A história que vou relatar é conhecida pelos profissionais mais antigos como sendo verdadeira.

 

Numa noite de temporal, beirando a meia-noite, batem à porta da casa de um doutor da região. Sonolento, resmungando o inconveniente da hora, sai da cama e, em pijama, abre a porta da entrada da casa. Era um homem grande e forte que, no alpendre, pede para lhe falar. O vento forte fez com que o médico o convidasse para entrar, o que ele prontamente atendeu trazendo lama das botas e água acumulada nas abas do chapéu para o tapete do hall.

 

Directo, sem rodeios, o peão perguntou-lhe quanto o médico lhe cobraria para ir até o Ribeirão da Onça.

 

É muito longe? Pergunta o médico.


Bem, uma poucas léguas... Responde o peão.


Vamos no meu carro? A estrada está boa? Pergunta o profissional.

 

O peão "meio" sem convicção diz: Quando saí de lá a estrada "tava" boa... mas o preço o Sr. é quem faz...

 

O médico pensou, para vir me chamar a estas horas da noite o problema deve ser sério, e depois um profissional não deve recusar um chamado, pode ser um caso grave! Fez os cálculos e cobrou um preço justo para ambos, considerando a situação e o horário. Vestiu o sobretudo e a roupa e sobre o pijama, colocou os sapatos, pegou a maleta, avisou a mulher, e foi para a estrada com o caboclo, depois de muito custo para o velho carro pegar.

 

A tempestade tropical não dava trégua. A chuva caía violenta diminuindo a visibilidade, apesar do trabalho incessante do vai-e-vem do pára-brisa do calhambeque. Os raios rasgavam o negrume do céu, como faíscas brilhantes anunciadas pelos trovões retumbantes que faziam tremer a terra. O caminho que levava a Ribeirão virara um lamaçal onde o carro derrapava em zig-zag com frequência. Os buracos cheios de água e lama, pouco visíveis naquela turbulência, eram uma cilada constante a cada palmo rodado. De repente, apesar de todo o cuidado, o carro resvalou e caiu num atoleiro. O susto e a contrariedade fazem o médico soltar um palavrão, coisa pouco elegante a pessoa educada como o ele. Já estava arrependido de ter saído para atender sem tomar conhecimento do caso com mais detalhes. No banco ao lado, o peão, prestativo, logo se ofereceu para ajudar naquela situação difícil: "O dotô pisa fundo e eu empurro o bicho para frente".

 

O médico pensou, reconfortado, olhando a musculatura hipertrofiada do peão, bem visível, debaixo da roupa molhada; quem sabe esse fortão não consegue nos tirar desta enrascada.... E assim depois de várias tentativas, muita fumaça, esforço e gritaria, o carro saiu do atoleiro. Mas, para temor e desconfiança do motorista o grandalhão, todo enlameado, sentou-se no banco traseiro, deixando o médico com a pulga atrás da orelha. Este sentiu um arrepio correr-lhe a espinha, ao lembrar-se de uma situação semelhante que se passara com um colega que fora assaltado e roubado na estrada da mesma maneira...Armados com facas, os bandidos o renderam. Quiseram até cortar os dedos do profissional para tirar-lhe a aliança e o anel de formatura, pois com a idade ele engordara... A sorte foi que o médico tinha vaselina na pasta, e, para gozação dos malandros, usou-a para soltar os anéis.


Preocupado, disfarçadamente, com uma das mãos procurou a maleta, abriu-a e buscou no fundo dela, debaixo dos apetrechos de médico, o revolver.


A cada lufada de vento crescia o medo e o arrependimento, até que, finalmente, chegaram à casa do caboclo, que sorrindo disse: Pode largar a garrucha “seu dotô” chegamo... . E meio sem-graça, entrou na casa chamando a esposa, aos berros...

 

Joana, ó Joana...ocê tá melhor?


Do quarto sai a mulher de camisola, espreguiçando-se, espantada com toda aquela barulheira... Ora, home, eu não tô doente...e como é que ocê conseguiu chegar, com esse temporá...eu só ia te esperá amanhã....

 

Sem entender nada o médico olhava estupeficado aquela cena doméstica, até que o espertalhão do caboclo, sem saída, explicou : Pois é ...eu perdi o ônibus, sem lugar pra ficá, e sem taxista que quisesse me trazer até aqui por dinheiro nenhum do mundo, a solução foi procurar o doutor ...

 

Dizem também que o médico não fez por menos. Consultou os dois, pediu exames preventivos, cobrou honorários com acréscimos de atendimento nocturno e fora de logradouro, gastos de gasolina, limpeza do carro, risco de vida, ... E ainda ganhou do sabido caboclo frango em pé, ovos, picuás de verduras e frutas, e a promessa de uma leitoa pro final do ano!


Coisas de caboclo folgado, coisas de mineiro sabido...

 

 Maria Eduarda Fagundes

 

Uberaba, 12/04/12

2 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2008
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2007
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2006
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2005
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D
  235. 2004
  236. J
  237. F
  238. M
  239. A
  240. M
  241. J
  242. J
  243. A
  244. S
  245. O
  246. N
  247. D