Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

INDUSTRIALIZAÇÃO DE CARA SUJA

(*) 

 

 

Aqueles que não buscam uma perspectiva histórica acabam
prisioneiros de uma perspectiva histérica

in «Diário de um Diplomata»

 

 

Sempre me preocupei com duas coisas. Uma é alcançar uma perspectiva histórica para escapar a uma perspectiva histérica. Outra é não cair no fácil vezo da interpretação conspiratória da história, atitude que segundo Arthur Schlesinger, é tão atraente quanto falsa.

 

Um exemplo de interpretação conspiratória – na qual o provocante mistério dispensa a percuciente análise – é a celeuma que há tempos se levantou no Brasil em torno do tema do planeamento familiar. Ou, em termos mais grosseiros, do controle da natalidade... Algumas cabeças imaginosas entretinham sinistros pesadelos e passaram a enxergar, por trás das exortações do Banco Mundial aos países subdesenvolvidos para moderarem sua reprodução descuidada, missionários americanos esterilizando índios na selva amazónica a fim de manter espaços vazios para futura invasão. Felizmente, essa onda amainou e muita gente passou a descobrir o óbvio: a ocupação de territórios exige investimentos na infra-estrutura, de sorte que multiplicar a população antes de multiplicar a capacidade de investir é garantir o favelamento urbano e não o desbravamento da selva. Ainda que lentamente, perde popularidade a teoria leporina do
desenvolvimento e começa a se diferenciar entre produtividade sexual e produtividade económica,

 

Agora, alguns de nossos recintos cranianos, de duvidoso conteúdo, passaram a descobrir uma outra conspiração: a preocupação com a poluição ambiental, objecto da actual Conferência das Nações Unidas em Estocolmo, seria o novo complot dos países industrializados para dificultar a industrialização dos subdesenvolvidos e distrai-los dessa premente tarefa.

 

O JOIO DO TRIGO

 

Detenhamo-nos no útil, porém não excitante, desporto de separar o joio do trigo. Há três razões válidas na inquietação dos países subdesenvolvidos quanto à presente “moda” de combater a poluição. A primeira é que certamente o grau de prioridade do esforço anti poluidor é menor nos países em desenvolvimento do que nas economias saciadas. Aqueles sofrem ainda da mais rudimentar das poluições – a poluição da pobreza. A preocupação fundamental é ainda aumentar a quantidade de bens.

 

Nas economias ricas, a um tempo beneficiárias e escravas da civilização de consumo, o problema é melhorar a qualidade de vida; e já se discutem seriamente teses como a do crescimento zero da população ou a economia do não-crescimento. Há sem dúvida um certo perigo de que, obcecadas com o conservadorismo, as instituições financiadoras dos países industrializados se esqueçam de que o desenvolvimento económico pregresso desses países não se fez sem um bocado de devastação construtiva. Preservar é, às vezes, uma receita de prudência e não uma fórmula de mobilização; e é inescapável que o desenvolvimento económico envolva um ciclo de uso, desperdício e reposição.

 

A segunda preocupação válida diz com a repartição das responsabilidades entre Governo e a iniciativa privada no combate à poluição. A tendência nos países mais industrializados tem sido a fixação de normas e a imposição de exigências pelos governos, com severo encarecimento de custos para a empresa privada. Nos países em desenvolvimento, onde o sector privado é geralmente
mais débil, cabe aos governos assumir maior responsabilidade e maior parcela dos custos, sob pena de estiolarem o crescimento da indústria privada. Quando há elevação substancial de custos pela exigência de dispositivos anti poluentes, cabe aos governos compartilhar o custo adicional ou subvencionar o custo adicional das instalações.

 

A terceira preocupação válida diz com o problema da tecnologia. A responsabilidade da pesquisa de métodos e equipamentos não-poluentes deve caber aos países industrializados; e o acesso a essa pesquisa deve ser facilitado aos países em vias de desenvolvimento. Pois é claro que os países industrializados não apenas são os principais responsáveis pela poluição, como dispõem de maiores recursos financeiros e tecnológicos, enquanto os parcos recursos dos países subdesenvolvidos devem ser obsessivamente concentrados no aumento da produção.

 

PRAGMATISMO SEM HISTERIA

 

Essas, as preocupações válidas. Daí a julgar-se que o mundo industrializado “inventou” o tema da poluição para retardar ainda mais a industrialização do Terceiro Mundo vai uma grande distância. Há que lembrar, de um lado, que o acréscimo do investimento presente, para controlo de poluição, significa evitar deseconomias futuras que exigiriam investimentos de correcção ou reposição do ambiente cujo
valor, descontado no tempo, pode superar o sobreinvestimento inicial em dispositivos anti poluentes. Há que fazer um delicado e complexo balanço entre o custo dos investimentos preventivos e correctivos.

 

De outro lado, o receio de substancial encarecimento dos investimentos pode ser temporário. Na medida em que, como resultado do novo evangelho conservacionista, melhore a tecnologia e aumente a escala de produção de equipamentos anti poluidores, os custos destes tenderão a declinar mais ou menos rapidamente. Dessarte, ao invés de se encarar o movimento anti poluidor como um capricho bizarro de países ricos, ou como um complot para dificultar a nossa industrialização, deveríamos marchar para uma atitude mais
pragmática. Sempre que as agências financeiras internacionais, ou os governos doadores de auxílio, insistirem em encarecer instalações, em virtude de exigências anti poluidoras feitas aos países em desenvolvimento, esse custo adicional deveria ser financiado como uma ampliação de auxílio, ou com empréstimos mais suaves e lenientes, de forma que o investimento preventivo não subtraísse recursos ao investimento produtivo. Muitos entre nós defendem a industrialização de “cara suja” como se fora uma atitude heróica, mas trata-se
de heroísmo fútil se aumenta o consumo de sabão....

 

Lembremo-nos, finalmente, de que se o grande e dramático problema dos países em desenvolvimento é a poluição do homem pela pobreza, há outros tipos de poluição quase tão graves: a poluição do coração pela suspicácia e da mente pela burrice.

 

13/06/72

 

 Roberto de Oliveira Campos

 

(*)http://www.google.pt/imgres?imgurl=https://1.bp.blogspot.com/-UWwrW-3EWaA/To9qCWscmwI/AAAAAAAAAiA/qKxlBZ-oxDM/s400/POLUICAO%25255B1%25255D.gif&imgrefurl=http://matelingua.blogspot.com/2011/10/em-familia-poluicao-atmosferica.html&h=288&w=291&sz=19&tbnid=aZuhP1URo1Y_4M:&tbnh=90&tbnw=91&prev=/search%3Fq%3Dpolui%25C3%25A7%25C3%25A3o%2Batmosf%25C3%25A9rica%26tbm%3Disch%26tbo%3Du&zoom=1&q=polui%C3%A7%C3%A3o+atmosf%C3%A9rica&docid=rhLcJXULiKiOlM&hl=pt-PT&sa=X&ei=qt2GT7vsAsPAhAfy0OmtCA&ved=0CEAQ9QEwAw&dur=1646

1 comentário

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2008
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2007
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2006
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2005
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D
  235. 2004
  236. J
  237. F
  238. M
  239. A
  240. M
  241. J
  242. J
  243. A
  244. S
  245. O
  246. N
  247. D