Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

TURBULÊNCIA

 

«O pescador de águas turvas»

 

«Um homem pescava num rio.

Depois de ter estendido a rede

De maneira a barrar a corrente

De lado a lado, eficazmente,

Logo agarrou

Numa pedra e a ligou

A uma corda de linho

E se pôs

A bater na água fortemente

A fim de forçar

Os assustados peixes

Contra as malhas da rede

Da sua fome e da sua sede.

Um dos habitantes

Da vizinhança,

Vendo-o proceder

Com tal segurança

Censurou-o por turvar

A água do rio e os privar

Da habitual água potável.

“Sem dúvida” - retorquiu

O pescador imperturbável,

Mas se o rio eu não bater

Sou eu que de fome irei morrer.”

O mesmo acontece nas cidades:

Os negócios dos demagogos

Nunca são tão florescentes

Como quando em guerra civil

Mergulham de forma vil

A pátria dos antepassados

E dos presentes.»

A mim, o que me cai no goto

É a actualidade da foto

Deste fabulista Esopo,

Tão promissor

Que parece que adivinhava

Que na contemporaneidade

Desta nossa cidade

Vivemos iguais andanças

Causadas pelas trapaças

Dos que preferem mergulhar

Nas turvas águas do seu viver,

Só para comer

E beber

E assim fazer minguar

A capacidade de sobreviver

Dos que, querendo viver

Como toda a gente,

Só encontram pela frente

A muralha indecente

De um país que nem sequer sente

As dores da sua gente.

Por isso até já assistimos,

Atónitos,

Ao espectáculo indizível

Dos que têm morrido

Sozinhos e apodrecidos,

Nas suas casas, a condizer

Com a podridão

Dos tais que remexem,

Sem mágoas,

Em turvas águas,

Sem que isso seja punível

Embora seja intragável.

 

 Berta Brás

3 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2008
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2007
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2006
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2005
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D
  235. 2004
  236. J
  237. F
  238. M
  239. A
  240. M
  241. J
  242. J
  243. A
  244. S
  245. O
  246. N
  247. D