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A bem da Nação

SOBRE O CHOQUE TECNOLÓGICO DE SÓCRATES


A palavra choque é completamente inadequada para qualquer referência a uma alteração de paradigma da economia portuguesa. Pode-se compreender a ideia de Sócrates: a economia portuguesa atravessa uma crise de ajustamento a uma nova realidade, e os actores actuais, os agentes económicos que todos os dias tomam as suas decisões, vingam ainda num ambiente intelectual, numa percepção da realidade económica e social mais característica do passado recente do que do futuro.
Que pode querer dizer um choque tecnológico, senão um corte abrupto com um passado económico sem futuro? É sobre esta noção de choque que nos movemos. Não há, não pode haver, e não haverá nada parecido com o quer que seja choque tecnológico. Porque precisamente o passado é importante, é crucial para qualquer evolução societária.
Os economistas do desenvolvimento endógeno têm afirmado, com crescente consistência e confirmação, que o crescimento económico de um país depende de um conjunto de factores inerente a esse país. O desenvolvimento é endógeno, porque vem de dentro, das estruturas existentes, das realidades do dia a dia. Pretende demonstrar exactamente o contrário daquilo que veio a ser designado pelo elemento exógeno da equação de Solow.
Segundo o pensamento neo-clássico, o crescimento económico deveria ser explicado pela abundância relativa dos factores de produção, o capital e o trabalho. Mas na realidade estes factores não explicavam quase nada. Solow designou esse factor, exógeno, explicativo em grande medida do crescimento económico, como a medida da nossa (dos economistas) ignorância. Solow foi o autor de um outro não menos intrigante e estimulante paradoxo: “os computadores estão em toda a parte excepto nas estatísticas de produtividade”.
O que os autores do desenvolvimento endógeno procuram explicar é que o crescimento económico se justifica por factores endógenos, como a capacidade de inovar, de organizar os factores de produção, de aumentar o seu potencial produtivo e não por quaisquer razões exógenas, alheias ao real trabalho da sociedade. É uma abordagem com enorme potencial explicativo da moderna economia.
Em que é que isto tem a ver como o referido choque?
A ideia de choque reflecte precisamente a ideia de um elemento exterior, exógeno, como motor do crescimento económico português. Como se uma simples varinha mágica nos colocasse num mundo novo, onde a inovação e as tecnologias de informação e de comunicação comandassem o crescimento económico português.
Seria óptimo que assim fosse. E porventura alguma coisa de positivo poderá trazer o dito choque.
Mas a inconsistência, e meu pessimismo, vêm do segundo paradoxo de Solow. Os computadores só passaram a aparecer nas estatísticas da produtividade passados largos anos de estarem em toda a parte. Que quer dizer isto? Muito simplesmente, que a sociedade americana teve que se adaptar aos computadores, antes que a sua adopção produzisse efeitos económicos. A América sofreu uma transformação, está a sofrer uma transformação, não está simplesmente a adoptar novas tecnologias. O choque da introdução dos computadores, factor exógeno, só foi produtivo quando a sociedade americana atingiu a maturidade suficiente para ter a capacidade de os utilizar e obter todos os seus potenciais, isto é quando a introdução dos computadores se transformou em factor endógeno.
Por outras palavras. É preciso tempo. Como se diz entre nós com grande sabedoria é preciso dar tempo ao tempo. De nada vale ter um choque tecnológico se a sociedade portuguesa não estiver apta para o absorver.

Lisboa, Janeiro de 2005

António Calado Lopes

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