Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

PARA ALÉM DA DÍVIDA

 

 

Governar não é cortar despesas a eito apenas porque se tem que cortar despesas, nem subir impostos porque se tem de subir impostos, mesmo sob o alto patrocínio da troika. Nenhum Governo pode esquecer isto. Governar é ter a visão de fazer escolhas, enfrentar interesses e alterar paulatinamente a cultura de um país. Dou um pequeno exemplo.

 

A América pode estar em declínio. Na sua influência e economia; na sua capacidade para ultrapassar uma depressão duradoura; no seu sistema político capturado. Mas há um foco de poder tipicamente americano que resiste: as universidades. As universidades americanas continuam prósperas e dinâmicas. Não sofreram com a depressão destes anos. E provavelmente nunca atraíram tanta gente como hoje.

 

Esta contradição entre um país que experimenta os sinais de uma crise duradoura – e com dificuldades em sair – e um ensino superior que não foi atingido é um dos temas explorados por Fareed Zakaria, o editor da Time, na nova edição do seu livro O Futuro Pós-Americano. A tese desse livro é conhecida. Zakaria, como outros, escreve sobre a ascensão do resto, isto é, daqueles países não-ocidentais que adoptaram o capitalismo ocidental como política económica e desafiaram o poderio americano.

 

Ao identificar onde reside hoje esse poder, Zakaria refere a educação universitária como a melhor indústria dos Estados Unidos. E cita números: 8 das 10 melhores universidades do mundo estão nos Estados Unidos; 38 das 50 melhores também estão nos Estados Unidos. Comparados com as novas potências, China e Índia, que têm universidades pobres e sem conhecimento, é na América que se formam os melhores engenheiros do mundo e é a América que os doutorados chineses e indianos procuram. Prevê-se que, num futuro próximo, metade dos estudantes de doutoramento em universidades americanas venha do estrangeiro. As universidades americanas são extremamente bem governadas.

Conscientes do seu papel económico, abriram-se ao mundo. Em Singapura, a Universidade de Nova Iorque abriu um campus que replica o que tem na cidade americana. Há outros casos. Vejam como cativam alunos da América do Sul: brasileiros, chilenos ou argentinos. E esses alunos respondem viajando para os Estados Unidos. Tudo em coerência com um país que, ao contrário da Europa, não está a envelhecer.

O que tem isto a ver connosco? Muito. Nos últimos 30 anos, as universidades portuguesas adaptaram-se à democratização do ensino. Tornaram-se, e bem, serviços sociais. Como instituições, permaneceram espaços corporativos, fechados e proteccionistas.

 

O que isto significa, mesmo abusando de alguma generalidade, é que a universidade portuguesa não foi pensada para oferecer um serviço económico num mercado global e competitivo. Podia ser. Numa intervenção recente na Fundação Casa de Mateus, o meu amigo e universitário Miguel Poiares Maduro propôs que o ensino superior poderia ser precisamente um domínio essencial para a atracção de investimento estrangeiro e para promoção de comércio externo. Poiares Maduro oferecia algumas razões que podem ser sintetizadas em duas: a mobilidade académica na União Europeia e o aparecimento de um mercado europeu de educação. Espreitem o que andam a fazer universidades em Estados como a Dinamarca ou a Suécia.

Infelizmente, para essa defesa séria no ensino superior e para o seu aproveitamento económico não podemos esperar que a mudança comece nas próprias universidades. Como não podemos esperar que os hospitais ou outras corporações se reformem a si próprias. Precisam de intervenção externa, precisam de um Governo corajoso a criar regras. Repito: mesmo num país semi-falido, a governação não se pode resumir a uma conversa sobre impostos, despesas e buracos. As universidades, em quem ninguém acredita, poderiam ser bem mais úteis a Portugal.

 

Setembro de 2011

 

 Pedro Lomba

 

6 comentários

Comentar post

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2014
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2013
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2012
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2011
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2010
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2009
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2008
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2007
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2006
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D
  222. 2005
  223. J
  224. F
  225. M
  226. A
  227. M
  228. J
  229. J
  230. A
  231. S
  232. O
  233. N
  234. D
  235. 2004
  236. J
  237. F
  238. M
  239. A
  240. M
  241. J
  242. J
  243. A
  244. S
  245. O
  246. N
  247. D