Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

A bem da Nação

DESABAFO



Alguns anos depois de ter nascido, o meu pai conheceu um estranho, recém-chegado à nossa pequena cidade.

Desde o princípio, o meu pai ficou fascinado com este encantador personagem e em seguida convidou-o a viver connosco.

O estranho aceitou e desde então tem estado sempre lá em casa.

Enquanto eu crescia, nunca perguntei sobre o seu lugar na minha família; na minha mente jovem já tinha um lugar muito especial.

Os meus pais passaram a ser instrutores complementares: a minha mãe ensinou-me o que era bom e o que era mau e o meu pai ensinou-me a obedecer.

Mas o estranho era o nosso narrador.

Mantinha-nos enfeitiçados por horas com aventuras, mistérios e comédias.

Ele tinha sempre respostas para qualquer coisa que quiséssemos saber de política, história ou ciência.

Conhecia tudo do passado, do presente e até podia predizer o futuro!

Levou a minha família ao primeiro jogo de futebol.

Fazia-me rir e chorar.

O estranho nunca parava de falar, mas o meu pai não se importava.

Às vezes, a minha mãe levantava-se cedo e calada, enquanto nós ficávamos a escutar o que ele tinha para nos dizer, mas só ela ia à cozinha para ter paz e tranquilidade. (Agora, passados todos estes anos, pergunto-me se ela teria alguma vez rezado para que o estranho se fosse embora).

O meu pai dirigia o nosso lar com certas convicções morais, mas o estranho nunca se sentia obrigado a honrá-las.

As blasfémias e os palavrões, por exemplo, não eram permitidos em nossa casa. Nem por nós, nem pelos nossos amigos ou de qualquer um que nos visitasse. Entretanto, o nosso visitante de longo prazo usava sem problemas uma linguagem imprópria que às vezes queimava os meus ouvidos e que fazia o meu pai retorcer-se e a minha mãe ruborizar.

O meu pai nunca nos permitiu beber álcool mas o estranho animou-nos a tentá-lo e mesmo a fazê-lo com regularidade.

Fez com que o cigarro parecesse fresco e inofensivo e que os charutos e os cachimbos fossem distinguidos. Falava livremente (talvez demasiado) sobre sexo. Os seus comentários eram às vezes evidentes, outras vezes sugestivos e geralmente vergonhosos.

Agora sei que os meus conceitos sobre relações foram influenciados fortemente durante a minha adolescência por esse estranho.

Repetidas vezes o criticaram, mas ele nunca fez caso aos valores dos meus pais, mesmo assim, permaneceu la em casa.

Passaram-se mais de cinquenta anos desde que o estranho chegou. Desde então mudou muito; já não é tão fascinante como era de princípio. Não obstante, se hoje você pudesse entrar na casa dos meus pais, ainda o encontraria sentado no seu canto, esperando que alguém escutasse as suas conversas ou dedicar o seu tempo livre a fazer-lhe companhia...

Seu nome? Nós chamamos-lhe Televisor.

 

Nota final:

Agora, adulto, tenho uma esposa que se chama Computador e um filho que se chama Telemóvel

  

Recebido por e-mail; Autor não identificado

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Mais sobre mim

foto do autor

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2006
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2005
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2004
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D