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A bem da Nação

Divagando pela utopia – 5ª parte


Resumo da 4ª parte: a descoberta de petróleo está a mudar S. Tomé e oxalá que as instituições democráticas se reforcem num processo tão radical de passagem da miséria para a abundância; a monocultura do cacau em regime de trabalho intensivo não faz mais qualquer sentido e o país deve viabilizar-se pelo Turismo deixando que as receitas do petróleo sirvam para acções extraordinárias; para evitar a cubanização agrária, S. Tomé deverá ter uma política liberal de preços que permita ir substituindo as importações alimentares.


Plausível – Então, lá foi a enterrar o Zao Ziyang . . .
Utópico – Sim, com 85 anos de idade e depois de ter entrado em coma num hospital de Pequim.
Plausível – O que é que recorda dele?
Utópico – Não muito; praticamente só dei por ele quando soube que alguém muito alto na hierarquia da PC chinês se tinha oposto à repressão na Praça Tien An Men aquando das manifestações a favor da democracia.
Plausível – E não acha que foi uma pena ele ter sido corrido por causa disso?
Utópico – Tenho dúvidas . . .
Plausível – O quê? Tem dúvidas? Como assim?
Utópico – Eu acho que o nosso modelo de democracia é o único que nos serve, na civilização ocidental e lembro-me sempre da frase de Churchill em que ele dizia qualquer coisa do género de que “a democracia é um sistema muito mau mas ainda não foi inventado outro melhor”. Mas o que é bom para nós, ocidentais, pode não servir a outros que tenham civilizações diferentes. Isto da democracia não é um pronto-a-vestir que sirva a toda a gente.
Plausível – E a quem é que não serve?
Utópico – Eu acho que não serve a sociedades medievais como todas as que seguem modelos teocráticos, nomeadamente o islâmico e acho que não é com um toque de magia que se passa de uma tirania de séculos para uma democracia à moda ocidental. A democracia é uma obra da burguesia, da classe média, resulta da estabilidade económica e da maturidade social. A ordem dos factores não é minimamente arbitrária: em primeiro lugar, há que criar uma ampla e saudável classe média e só depois é que se pode ter uma democracia. Impor um sistema democrático a uma sociedade medieval ou a uma que, embora já não sendo medieval no nosso sentido europeu, não disponha de uma classe média estável e preponderante, é dar um presente de mão beijada aos oportunistas, aos manipuladores, às máfias. Veja a Rússia e a China.
Plausível – Que semelhanças têm?
Utópico – Na perspectiva que refiro, a única semelhança é a de terem ambas estado submetidas a regimes comunistas. Mas a Rússia passou em 1917 dos czares de inspiração divina e seus apoiantes boiardos feudais para um regime totalitarista que nivelou todos por baixo durante 70 anos como proletários sem direito à imaginação, para uma desordem política e um salve-se-quem-puder económico do qual saíram vitoriosos os oportunistas e que só marginalmente tem criado uma classe média que eu desejo que tenha um mínimo de sustentação. Puseram o carro à frente dos bois: democracia política “soit disante” primeiro e reformas económicas depois. E no reino da bagunça, prosperam os marginais. A China tem feito exactamente o contrário: as reformas económicas estão em curso e ninguém sabe quando chegam as reformas políticas; a preocupação parece ser a de construírem uma classe média de génese económica antes de lhe darem direitos políticos. É para mim evidente que, dentro deste esquema, Hong-Kong e Macau foram um grande empecilho para a política chinesa e – como temos observado – tem havido algumas fricções políticas pois o regime político chinês não se quer transformar antes que exista uma classe média preponderante que possa implementar uma democracia que nós, os ocidentais, consigamos entender. A democracia é bem recente em Taiwan e, mesmo assim, com algum músculo do Kuomintang apesar de se tratar de um país onde não há miséria e de há décadas dispor de uma classe média muito empreendedora e com relevo a nível internacional; a quase-democracia em Hong-Kong – para não lhe chamar pseudo democracia – sempre funcionou sob a égide de um Governador britânico e os partidos políticos só vingaram plenamente sob a orientação do último Governador, Chris Patten; em Macau, a democracia é ou foi tão jovem quanto o 25 de Abril de 1974. Os problemas económicos chineses são suficientes para que não haja tempo para tratar dos temas políticos. Cito só uma vertente na China actual: a política monetária e a gestão conjunta da Pataca de Macau, do Dólar de Hong-Kong, do Yuan convertível e da outra moeda que funciona lá dentro para o povo, que nem sequer é convertível e a que nem conheço o nome. Acho que não passa de uma emissão de senhas de racionamento a que pomposamente dão o nome de moeda.
Plausível – E vão quantas?
Utópico – Se às senhas de racionamento reconhecermos a qualidade de moeda, são quatro a funcionar naquilo que dizem ser uma unidade económica.
Plausível – Não deixaria de ser curioso fazer uma comparação com a UE.
Utópico – Você não me espicace . . .
Plausível – Não, agora não o espicaço; prefiro que continue a falar da democracia e de Zao Ziyang.
Utópico – Não tem muito mais de que falar. O homem morreu de velho depois de ter dito que não achava bem que se repreendesse a democracia. Aos nossos olhos foi uma vítima mas aos olhos da realidade histórica chinesa foi um perdedor que julgou por bem introduzir um conceito que eventualmente está muito longe dos parâmetros civilizacionais – e, talvez mesmo, de conveniência circunstancial – do país de que era chefe por nomeação de uma clique que, por sua vez, também é autonomeada. Mas aqui, afinal, também estou eu a utilizar parâmetros da nossa civilização europeia para julgar uma circunstância nascida numa civilização diferente. Terei eu razão nos meus juízos? Eu acho que sim mas a dúvida permanece . . .
Plausível – Isso significa que o que é válido para nós pode não o ser para os outros.
Utópico – E vice-versa: o que é válido para eles pode não ter nada a ver connosco.
Plausível – Mas isso não é compatível com a globalização.
Utópico – A globalização em curso é um processo completamente selvagem que não faz qualquer sentido por este tipo exacto de razões. As regras do jogo são diferentes para os vários intervenientes.
Plausível – E então como é que devia ser?
Utópico – Eventualmente nem sequer devia ser . . .
Plausível – É contra a globalização?
Utópico – Para que não restem dúvidas, caso algumas ainda subsistam, declaro formalmente que sou contra esta globalização.
Plausível – É contra um facto histórico.
Utópico – Sou contra uma construção artificial inventada por quem quer entrar na China a toda a pressa porque não aprendeu nada com a Guerra dos Boxers.
Plausível – E isso significa?
Utópico – Significa que é muito alto o preço que todos temos que pagar para que as multinacionais tenham um manancial de mão-de-obra extremamente barata, quase inesgotável, a quem não têm que pagar férias nem o respectivo subsídio, onde não têm que aturar Sindicatos nem contratos colectivos, onde tanto a Segurança Social como a legislação ambiental primam pela inexistência. Mas isto que as multinacionais consideram um El Dorado, vai tender a desaparecer e não faltará muito para que as condições de trabalho na China tenham que começar a ser regulamentadas. Basta que o ∆ (delta) chinês do crescimento comece a abrandar ou o índice de preços a passar as marcas stalinistas e não tardará que o Governo se veja obrigado a produzir legislação que de algum modo satisfaça as necessidades da classe média nascente. Esse El Dorado deixará então de ser tão dourado como parecia mas, entretanto, já nós no ocidente voltámos à estaca zero no emprego e no conforto. Ou seja, esta globalização está a ser feita nivelando por baixo. Em vez de obrigar os chineses a uma evolução mais rápida no sentido da melhoria das condições de trabalho, está a obrigar-nos, a nós, a baixar ao nível dos chineses. E quando os chineses começarem a achar que há um excesso de protagonismo estrangeiro dentro das suas muralhas, então vamos vê-los a relembrar que eles é que são o Império do Meio e que os outros são uns bárbaros. Isto já sucedeu uma vez nos tempos modernos mas parece que o Tio Sam e seus amigos do G7 estão um bocado esquecidos . . . Para o conceito oriental de tempo, passaram pouco mais que 15 dias . . .
Plausível – Acha isso mesmo?
Utópico – É evidente que estou a fazer uma caricatura mas acho que não devemos titubear na crítica que tem que ser feita. Se estou a exagerar, então que venha alguém que me corrija os excessos e traga a crítica para o nível do razoável. Para já, como utópico, sinto-me na obrigação de bradar contra a infâmia a que o Ocidente está a ser sujeito. Você, que é plausível, diga agora de sua justiça.
Plausível – Eu limito-me a ficar um pouco chocado com a sua crítica tão assanhada.
Utópico – A utopia tem a vantagem de definir um limite; o outro limite é o seu contrário absoluto, o nihilismo evolutivo, ou seja, o arcaísmo. A bissectriz entre estes dois limites já é do seu domínio.
Plausível – Do meu domínio?
Utópico – Sim, da plausibilidade.
Plausível – Então, o que propõe?
Utópico – Proponho que a Organização Mundial do Comércio deixe de praticar o capitalismo selvagem e que os políticos europeus assumam as ideias que dizem perfilhar.
Plausível – E quais são elas?
Utópico – Que os socialistas assumam que o são em vez de andarem por aí a dizer que meteram o socialismo na gaveta, que os social-democratas pratiquem a social-democracia e que os democrata-cristãos não se esqueçam da doutrina social da Igreja. É fundamental um retorno aos princípios doutrinários para se concluir que a Europa tem consistência e que não anda por aí nos “fora” internacionais a “fazer o frete” às multinacionais, essas, sim, apátridas e talvez mesmo associais.
Plausível – Está a esquecer-se dos comunistas.
Utópico – Ah!, sim. Esses devem estar a rir-se e à espera da miséria que aí vem para aproveitarem o descontentamento generalizado que os actuais governantes andam a semear.
Plausível – Muito bem. E no plano concreto, o que é que propõe?
Utópico – Proponho que a abertura europeia aos produtos chineses se faça na medida exacta em que os chineses aprimorem as condições gerais de trabalho, nomeadamente as férias anuais de 30 dias, o direito à greve e à reforma, autorizem a constituição de sindicatos livres. Já não vou ao ponto de condicionar as negociações comerciais ao reconhecimento efectivo dos direitos do homem, à abolição da pena de morte, ao fim do regime de partido único. Como vê, sou um mãos largas e peço pouco.
Plausível – E acha que os chineses estão abertos a essas coisas?
Utópico – E acha que nós temos que nos afundar porque os chineses nos querem nivelar à sua imagem e semelhança?
Plausível – Muito bem. Vamos fazer um intervalo?
Utópico – Sim. Boa ideia. Mas eu vou tomar um chá de Moçambique ou do Sri Lanka que não querem afundar a Europa e que, como nós, também são vítimas desta escandalosa globalização.
Plausível – Como é que esses países são vítimas da globalização?
Utópico – Falamos disso depois do intervalo.

Lisboa, Janeiro de 2005


Henrique Salles da Fonseca

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