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A bem da Nação

ARGENTINA – 3

 

O REINO DA DEMAGOGIA

 

 

Foi pela da esquerda que em 1946 Juan Perón subiu pela primeira vez as escadas do Poder, empurrado pelos descamisados portenõs, esses tais desamparados que aspiravam a melhores dias.

 

Em 1943, uma conspiração militar assumira o Poder derrubando Ramón Castillo, um civil acusado de fraude generalizada, repressão e
corrupção que, no entanto, lá estava em resultado de outro golpe militar, o de 1930. Até 1946, sucederam-se no Poder os Generais Arturo Rawson (presidiu apenas de 4 a 6 de Junho de 1943), Pedro Pablo Ramírez (o seu mandato desenvolveu-se durante escassos oito meses terminando a 25 de Fevereiro de 1944) e Edelmiro Farrell cuja presidência decorreu entre 25 de Fevereiro de 1944 e 4 de Junho de 1946. Todos governando em ditadura, puseram fim às relações de privilégio que o Governo anterior tinha com os grandes proprietários agrícolas e com a generalidade do empresariado industrial. Ou seja, destabilizaram o status quo até então vigente e não foram capazes de criar novo equilíbrio.

 

Durante esse período, Perón manteve-se numa posição secundária como Secretário do Trabalho e Segurança Social sendo nesse cargo que ganhou o apoio dos estivadores e dos trabalhadores precários nos frigoríficos (por onde passava toda a carne em vias de exportação), os chamados "descamisados". Em 1945 tornou-se Vice-Presidente e Ministro da Defesa assim ficando mais próximo da cadeira do Poder mas acabou demitido e preso. Mas Eva Duarte e os líderes sindicais mobilizaram os trabalhadores da grande Buenos Aires e exigiram a sua libertação. Perante enorme multidão, os militares não tiveram outra opção senão libertá-lo de imediato.

Buenos Aires, 17 de Outubro de 1945

 

Em 17 de Outubro (8 dias depois de ter sido preso) Perón discursou perante uma imensa mole ululante (ou ululada?) de 300.000 pessoas sendo as suas palavras rádiodifundidas para todo o país. No seu discurso prometeu ao povo argentino a realização das eleições que estavam prometidas mas adiadas sine die e construir uma nação forte e justa baseada em princípios que as multidões aplaudiram:

  • A verdadeira democracia é aquela onde o governo realiza o que o povo quer;
  • O Peronismo é essencialmente popular; todo o círculo político, elitista, é antipopular;
  • O Peronista trabalha para o movimento que serve a um caudilho;
  • Para o Peronismo só existe a classe dos trabalhadores;
  • Para um Peronista não há nada melhor que outro Peronista;
  • Os braços do Peronismo são a justiça social e a ajuda social;
  • Na Nova Argentina os únicos privilegiados são as crianças;
  • O Peronismo tem a sua própria doutrina política económica e social, o justicialismo, que é uma nova filosofia de vida simples, prática, popular, profundamente cristã e humanista;
  • O Peronismo pretende constituir um Governo centralizado, um Estado organizado e um povo livre.

 

Caro Leitor: permita-me a sugestão de conter o seu sorriso perante tanto primarismo e tanta demagogia. Claramente, Immanuel Kant desenvolvia silogismos mais sofisticados.

 

É que foi com muitos destes princípios do Partido Justicialista argentino (ainda hoje no Poder) que até há cerca de um ano alguém afundou Portugal e os esforços danados que agora estamos a fazer no sentido da recuperação são imprescindíveis para colmatar o anterior abuso na utilização de dinheiros públicos para a «compra de votos».

 

Se os europeus actuais soubessem História, também saberiam que a demagogia eleitoralista apenas tem um destino: o caos.

 

(continua)

 

  Henrique Salles da Fonseca

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