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A bem da Nação

A MARINHA PORTUGUESA DE 1974 ATÉ AGORA - UM TESTEMUNHO - II

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2- Período Insulana

 

De 1 Janeiro 1971 a 17 de Julho de 1974

 

Comecei a trabalhar na Insulana como funcionário da Sociedade Financeira, primeiro como Director até à Assembleia Geral realizada em Março onde fui eleito para o Conselho de Administração.

 

Sociedade Financeira essa que tinha acabado de comprar uma posição dominante na primeira através de negociações intermédias com o tenente coronel António Figueiredo e com o Sr. Jorg Scheder, negociações estas que teriam levantado algumas dúvidas, originando uma investigação ordenada pelo então Ministro da Marinha e realizada pelo Alm.te Alfredo de Oliveira, que esclareceu aquele membro do Governo e assim se encerrou o assunto. Pela minha parte de interesse neste assunto, só mais tarde quando era SE tive oportunidade de consultar o processo respetivo e ficar a compreender melhor o que tinha sucedido.

 

A Insulana estava, antes desta mudança, numa situação difícil principalmente pelos elevados prejuízos causados pelo transporte de passageiros, ou melhor da ausência de passageiros, uma vez que o desenvolvimento do transporte aéreo eliminou este transporte marítimo, mas a entrada da Sociedade Financeira no seu capital e principalmente a concessão de participar no tráfego africano, em particular Angola e Moçambique, proporcionou-lhe a capacidade de se reestruturar, incluindo a fusão com a empresa Carregadores Açoreanos.

 

Com esta fusão foi possível realizar esta reestruturação em poucos meses, aproveitando o pessoal técnico das duas empresas e assim constituindo uma equipa com excelente nível e elevada motivação.

 

Para dar uma ideia recordo-me de só no primeiro ano a empresa adquiriu 14 navios, alguns novos, outros em segunda mão.

 

Os navios de passageiros mais antigos tinham entretanto sido progressivamente abatidos restando no final o Angra do Heroísmo e o Funchal mas havia informações de que algumas empresas estrangeiras tinham transformado os seus paquetes em navios de cruzeiros.

 

Assim fizemos um estudo de como gerir um hotel flutuante e que transformações seriam necessárias, bem como os custos e os benefícios prováveis, donde se ter concluído ambos serem aproveitáveis.

 

Obviamente era uma operação arriscada uma vez que não havia entre nós essa experiência, mas por outro lado tínhamos a consciência de que era o caminho certo para desenvolvermos uma atividade muito ligada ao turismo que se posicionava como essencial para o nosso país, e se outros a tinham realizado com sucesso não havia razão maior para não tentarmos.

 

Mas o Conselho de Administração não esteve de acordo e o Angra do Heroísmo foi vendido a uma empresa… que o utilizou em cruzeiros. Quanto ao Funchal teve o mesmo tratamento negativo mas quando se requereu ao Ministro da Marinha o seu abate, o então Presidente da República Alte Américo Tomás opôs-se, argumentando que a empresa agora tinha meios para evitar esse abate, e o Conselho aceitou o risco.

 

Para reduzir os custos de operação e de manutenção mudou-se a máquina de turbinas para motores diesel e alterou-se a estrutura dos camarotes, dos restaurantes e dos espaços de entretenimento para se adaptar a este novo serviço, o que foi realizado num estaleiro holandês em cerca de quatro meses, porque nenhum estaleiro nacional o poderia fazer.

 

Esta aposta veio a revelar-se correta pois os primeiros resultados foram muito positivos operando durante o período primavera/verão na Europa e no Outono/inverno no Brasil.

 

O ano 1974 começou com algumas perturbações causadas pelas pressões políticas para se proceder à fusão da Insulana com a Colonial, na minha opinião para salvar esta última da falência, fusão essa que veio a realizar-se, formando-se a CTM e passando eu para a Gerência de uma empresa que detinha as oficinas da Colonial, onde estava quando chegou o dia 25 de Abril de 1974.

 

Durante cerca de um mês ou mais, já não me recordo com exatidão destas datas, houve várias confusões, de que não conheci pormenores, das quais resultou o Presidente da CTM, Engº Oliveira Martins ter pedido a demissão e saído do país.

 

Para o substituir, convidaram-me então para ocupar esse lugar, o que viria a verificar-se ser por muito pouco tempo e portanto sem nada para contar.

 

Até ao princípios de Julho, altura em que caiu o Governo do Prof. Palma Carlos e foi substituído pelo Brigadeiro Vasco Gonçalves e em que foi nomeado Ministro do Equipamento Social e Transportes o tenente-coronel José Augusto Fernandes.

 

Isto aconteceu numa 5ª ou 6ª feira e na semana seguinte, quando estava no meu gabinete da CTM na rua de S. Julião, recebi um telefonema do Ministro que queria falar comigo. De seguida atravessei a rua e fui ao seu gabinete no Terreiro do Paço.

 

A conversa foi rápida: disse-me que tinha sido criada uma Secretaria de Estado da Marinha Mercante, que deixava assim de depender do Ministro da Marinha que desapareceu, e para tal cargo havia uma lista de candidatos da qual eu estava à cabeça.

 

Aí a resposta foi igualmente curta: se pergunta se quero, digo que não, se manda, diga lá a que horas.

 

E assim começou a minha primeira experiência política de governação.

 

(continua)

 

Lisboa, 18 de Janeiro de 2012

 

José Carlos Gonçalves Viana

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