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A bem da Nação

A Marinha Portuguesa de 1974 até agora - um testemunho - I


 

O que vou apresentar não é um trabalho de história, pois não sou historiador. É apenas um testemunho das minhas vivências e experiências relacionadas com a Marinha Portuguesa desde 1974 até agora, finais de 2011.

 

1-Introdução

 

Desde há alguns anos tem vindo a aumentar o interesse pelo MAR resultando grande movimento de reuniões, seminários, congressos e natural produção de comunicações e até cursos. Incluindo a formação da Estrutura de Missão para os assuntos do Mar que tem tido ação muito efetiva no tratamento da nossa zona atlântica, mas sempre deixando para trás a MARINHA.

 

Aliás este assunto das riquezas potenciais dos fundos do oceano já vinha a ser tratado há bastante tempo, como por exemplo aconteceu aqui na Sociedade de Geografia com uma sessão em 1976 onde colaboraram o Alm.te Barahona Fernandes, o Dr. João Telo Pacheco e o Com.te Serra Brandão mas as autoridades políticas só mais tarde concretizaram as ações a desenvolver.

 

E Mar sem Marinha é pouco mais que paisagem.

 

Sem Marinha, Portugal é um país europeu periférico

 

 

Com Marinha, Portugal já foi um país central

 

 

E quando alguém afirma que não temos Marinha porque somos pobres, é porque está navegando com rumo errado a 180º, pois a realidade é que somos pobres porque deixámos de ter Marinha.

 

Até tivemos um Ministro nesta área cujo interesse pelo mar era olhar para ele no paredão e almoçar contemplando-o, o que pode ser poético e gastronómico, mas pouco eficiente para o País.

 

Dadas as dificuldades que o País enfrenta no fim do período contemplado neste trabalho, provavelmente poucas vezes, ou até talvez nunca, foi tão importante observar o passado a pensar no futuro, pois só corrigindo os erros cometidos no passado, poderemos sobreviver com independência e melhorar o nosso nível de vida, de forma sustentada.

 

E esta realidade foi uma das razões que me trouxeram aqui e roubar-vos estes minutos. Além de que tenho a consciência de que a minha carreira já vai longa e tudo o que é humano é transitório.

 

Como disse Fernando Pessoa:

 

Temos, todos que vivemos,

Uma vida que é vivida

E outra vida que é pensada,

E a única vida que temos

É essa que é dividida

Entre a verdadeira e a errada.

 

Devo dizer-vos que várias vezes em que tive oportunidade de apresentar comunicações na Academia de Marinha, afirmei ser a Armada o último reduto da resistência à onda de destruição da Marinha, que assolou este País nestas últimas décadas, e acrescento agora, pela influência de três is nefastos: ignorância, inércia, inveja. E que tanta influência tiveram na génese da atual situação que atravessamos.

 

Mas antes de iniciar devo explicar o que entendo por Marinha Portuguesa pois se alguém consultar a "net" vai ter acesso apenas à Armada, o que tem alguma razão de ser, pois a nossa Marinha Mercante atual é quase nada, a Marinha de Pesca tem vindo a diminuir e a de Recreio está a 20% do que devia e continua a ser muito mal compreendida e mal tratada.

 

Por que razão ou razões passámos da situação, na minha opinião invejável, de termos um "cluster" da Marinha, entendido e praticado como o conjunto das várias Marinhas civis e a Marinha de Guerra, ou seja, a Armada, há séculos e com provas dadas, e de repente, tudo é apagado e rapidamente desaparece?

 

A Marinha, nesta definição antiga, sofreu as consequências do nosso atraso científico, tecnológico e industrial que se verificou no século XVIII e se arrastou ao longo do século XIX, atraso este que só começou a ser recuperado após as primeiras décadas do século XX, com o início do desenvolvimento do ensino técnico de que o Instituto Superior Técnico (1911) é provavelmente o melhor exemplo.

 

Assim, como consequência natural deste atraso, a nossa Marinha arrastou-se penosamente até à segunda guerra mundial – de 1939 a 1945- em que as suas fraquezas provocaram uma reação do Governo, expresso na formação de empresas nacionais no ramo energético e ao célebre despacho 100, do então Ministro da Marinha Américo Tomás, que foi a base da nossa nova Marinha Mercante, a qual em 1974 ocupava lugar significativo no transporte Marítimo mundial e estava em progresso como terceira bandeira, em particular nos casos da E. Nacional de Navegação, da Insulana e da Soponata.

 

Aqui ainda há mais uma explicação para uma pequena discrepância entre o título e o texto, pois no primeiro está a data 1974, em que se verificou a mais profunda alteração da estrutura da nossa Marinha, e no segundo verifica-se o seu início em 1971 que corresponde à data em que eu iniciei a minha atividade profissional nela e que julguei indispensável para se compreender a minha posição em 1974 e no que se seguiu.

 

(continua)

 

Lisboa, 18 de Janeiro de 2012

 

 José Carlos Gonçalves Viana

 

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