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A bem da Nação

A 3ª ARMADA PARA A ÍNDIA

 

 

Ainda os restos da armada de Pedro Alvares Cabral não haviam regressado a Portugal e já uma terceira armada saíra de Lisboa com destino ao Oriente. Comandava-a João da Nova, alcaide pequeno da cidade de Lisboa, homem de grande linhagem e esforçado como asseguram os cronistas, velho lutador nas lides do mar, em prémio de cujos trabalhos havia recebido a alcaidaria pequena da Capital, apesar de ter nascido na Galiza.

 

Na sua armada de quatro naus seguem já algumas enviadas por mercadores, com fazenda própria para as trocas nos portos da África Oriental e Índia, uma das quais pertencia a Diogo Barbosa e outra ao fíorentino Bartolomeu Marchioni.

 

D. Jerónimo Osório assegura que o número das naus era apenas de três, discordando assim dos outros cronistas. Parece não ter razão, pois se dois dos navios pertenciam a particulares, o comandante capi­taneava uma nau e seguia Álvaro de Braga para com o seu navio ficar em Sofala, o número total não podia ser de três, mas de quatro.

 

A armada partiu de Lisboa a 5 de Março de 1501. Navegando com tempo favorável, a «oito graus além da linha equinocial contra o sul acharam uma ilha, a que puseram nome da Conceição» (1).

 

Dali se dirigiram directamente à aguada já conhecida da primeira viagem — a aguada de S. Brás, a Mossel Bay de hoje —, onde chegaram aos 7 de Julho. Aqui se deu, nesta ocasião, um dos muitos episódios curiosos das temerárias viagens dos portugueses, um dos que revela espírito de iniciativa coroada de êxito.

 

Ao desembarcarem, viram um sapato velho dependurado de uma árvore. Intrigados com o estranho achado, subiram à árvore e desataram-no. Tinha dentro uma carta escrita em português. João da Nova leu-a: era de Pêro de Ataíde, um dos capitães da armada de Pedro Alvares Cabral, a avisar os navegantes de Portugal que por ali passassem dos últimos acontecimentos passados na Índia. Avisava os capitães que deviam aportar a Cochim, onde seriam bem recebidos, evitando Calecute, «o porto cujo rei era mui cruel e malvado homem, que maquinava com insídias, de primeiro, contra os portugueses e, depois, com força declarada a sua perdição».

 

Tais notícias vieram modificar o curso dos acontecimentos. Os capitães da armada reuniram-se em conselho e deliberaram, perante a incerteza das coisas da Índia, não deixar em Sofala a Álvaro de Braga com o seu navio, «e por lhes ficar mui pouca gente». E resolveram partir dali para Quíloa.

 

 

NOVAS NOTÍCIAS

 

Passaram por Moçambique, nos primeiros de Agosto, com pouca demora, donde seguiram para Quíloa. Ali os esperava alvoroçado um coração português, a palpitar de ansiedade no corpo de um degredado, um dos muitos humildes cuja história se não escreveu, ficando nas entre­linhas dos cronistas — António Fernandes. Mais tarde o veremos como figura central de um destes «Quadros da História de Moçambique».

 

Viera na armada de Cabral, como assegura João de Barros, e ali foi deixado para colher notícias da terra ou, como a tantos sucedeu, para morrer às mãos de inimigos.

 

A alta influência de um mouro da cidade chamado Mafamede Anconi salvou-o de morte certa e lá foi encontrado por João da Nova, que dele recebeu uma carta de Pedro Alvares Cabral escrita no regresso da Índia, em Moçambique, e enviada a António Fernandes por um zambuco. As notícias recebidas eram idênticas às de Pêro de Ataíde, já achadas na aguada de S. Brás.

 

De Quíloa a Melinde e daqui para as Índias foi João da Nova escrevendo páginas, a juntar à epopeia portuguesa do Oriente. Vitorioso, iniciou a viagem da volta, fez aguada em Moçambique e, passado o Cabo da Boa Esperança, «teve outra boa fortuna que lhe deparou Deus»: descobriu a ilha de Santa Helena.

 

Assim no-la descreveu a prosa elegante de D. Jerónimo Osório:

«... ilha tão grande, mas que parece depositada ali naqueles mares por determinação divina, para refeição dos mareantes portugueses, que trabalhados vêm da Índia e suas tormentas, faltos (como é de crer em navegações prolixas) de todo o provimento. Contém ela rios pere­nais de águas mui frescas, matas e florestas mui espessas, e ares que dão saúde.»

 

Da ilha de Santa Helena partiu a armada para Lisboa, onde chegou a 11 de Setembro de 1502 «com sumo contentamento que de tão venturosa chegada coube não só a el-rei mas também à cidade toda».

 

Três anos tinham decorrido sobre o famoso feito da descoberta do caminho marítimo para a índia. A África Oriental nos seus portos conhecidos não conheceu ainda feitoria estável. São apenas pontos de aguada, nas diferentes passagens das armadas, a Ilha de Moçambique e os portos mais ao norte.

 

O ouro de Sofala vive, porém, de imaginações. Ele vai ser muito em breve o centro de atracção dos portugueses, o ponto de partida para o interior, onde lentamente se irão desvendando os segredos desta África misteriosa.

 

 Francisco Gomes de Amorim

 

(1) - Hoje conhecida com Ascensão.

 

(Faltava só descobrir as ilhas de Tristão da Cunha que este navegador encontrou em 1506.)

 

In “Quadros da História de Moçambique”, 1947, pelo Dr. Alcântara Guerreiro. Publicado em “Moçambique” – Documentário Trimestral – nr. 59 – Julho – Agosto – Setembro - 1949

 

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