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A bem da Nação

TAUROTRAGUS ONIX

 

ELANDE – GUNGA – CÊFO

Longe vão os anos em que andei por África, e onde tantas vezes cacei! Bons tempos. Bonitos. Gozar aquelas paisagens espectaculares, o silêncio, a grandeza e a simplicidade das gentes!

 

Não caçávamos para matar, porque sempre aproveitávamos a carne, nem mais do que o necessário para os caçadores ou para distribuir por alguma aldeia da região.

 

A palavra eland, de origem holandesa que significa “alce”, foi usada pelos primeiros colonos boeres para designar o maior de todos os antílopes que então abundavam extraordi­nariamente não muito longe do Cabo da Boa Esperança. Hoje, o vocábulo em­prega-se tanto na África do Sul, como em Moçambique e Angola. Aqui tem ainda os nomes de Gunga, Cêfo, Onuima, Ongarongombi, e até os Mucancala lhe chamam Ni: (sendo que os dois pontos se deveriam ler como um estampido da língua! Difícil!) Em Moçambi­que, este corpulento e vigoroso repre­sentante da vasta sub família Tragelaphinae, encontra-se espalhado irregular­mente desde o Rovuma até ao Incomáti. Em Angola nas regiões Sul e Suete. (Estamos a falar dos anos 50 ou 60 do século XX).

 

O elande é um animal de índole extremamente pacífica, e custa a compreender porque não tem sido aproveitado para substituir o gado vacum nas zonas de glossinas infectadas com os tripanossomas da doença do sono.

 

A docilidade, a força prodigiosa e a facilidade com que se domes­tica, recomendam-no nesses lugares onde prestaria grande auxílio nos trabalhos da lavoura hoje feitos exclusivamente pela mão do indígena.

 

Em Panda, Moçambique há muitos anos, fizeram-se experiências de domesticação com resultados animadores. Os elandes deixavam-se conduzir docilmente, puxavam charruas e obedeciam como qualquer animal doméstico dos mais mansos. Infelizmente esses ensaios pararam sem que daí chegasse a resultar qualquer benefício. Não há dúvida que o elande, quando capturado muito novo, se torna tão manso como qualquer bovino e se reproduz perfeitamente em cativeiro. O Dr. Emite Gromier, um técnico de reputação, diz estas palavras transcritas do seu livro La Vie des Animaux Sauvages de l’Afrique:... on peut affírmer que l’eland constituerait un bétail domestique parfait, surfout dans les régions à tsé-tsé, contre lesquelles il est, bien entendu, immunisé.

 

Quase todo o norte de Moçambique e boa parte de Angola corresponde a uma vasta mancha de glossinas infectadas que ali dizimam por com­pleto o gado vacum até mesmo quando sujeitado a tratamento pelo tár­taro emético.

 

Calcule-se, portanto, o incremento que poderia ter a agricultura, se o elande provasse, como parece não haver dúvidas, ser um perfeito substituto do boi na lavoura dos campos. A agricultura poderia ser mais intensiva e talvez a mão-de-obra um problema menos difícil de resolver.

 

Ainda há bem pouco (fins de 1945) foi submetido, pelo director do «Natural Resource Board», ao Ministro da Agricultura da Rodésia, um plano para o aproveitamento do elande como animal de tiro e de talho. O plano foi rejeitado, disseram os jornais, pela única razão de haver receio de que os elandes espalhassem a doença conhecida por heart water,

 

Propunha-se levar a cabo este plano, à sua própria custa, uma importante instituição (a Rhodesia Corporation); entretanto, foi-lhe recusada a autorização necessária para a captura dos animais; isto, não o bastante ter sido reconhecido por todos que o elande está imunizado contra as tripanossomíases e numerosas doenças que atacam o gado vacum, resiste extraordinariamente às secas, é facilmente domesticável, pode ser atrelado a carros e charruas e fornece carne de excelente qualidade e sabor. Não se estranhará, neste caso, que os mistérios da burocracia técnica andem ligados à solução adoptada.

 

No elande, tanto o macho como a fêmea têm chifres. São bastante grossos na base, torcidos como um parafuso de passo largo e projectam-se para cima e um pouco para fora. Os da fêmea são mais compridos e mais delgados. De acordo com o registo dos recordes de Big Game animals, em 1935 0 tamanho maior seria de 94 centímetros.

 

A estatura geral varia também nos dois sexos. Elas têm cerca de 1,50 mts. ao garrote, ao passo que eles andam por l,70 a 1,85 mts e o seu peso, quando bem desenvolvidos, atinge aproximadamente entre 700 e 900 quilos. Quando os machos chegam a uma certa idade, começa a desenvolver-se-lhes no frontal um tufo crespo de pêlos castanho-escuros. A coloração geral do pêlo aclara com o decorrer dos anos e as listas brancas vão-se desva­necendo.

 

O elande adapta-se a todos os terrenos e encontra-se em Moçam­bique em variadas altitudes - quer nos areais, a alguns metros acima do mar, quer nas serranias escarpadas de Maniamba e de Marrupa. Podereis também encontrá-lo vagueando sossegadamente nas savanas desarborizadas, nas matas verdes de essências copadas e nos terrenos pedregosos.

 

O número de cabeças de um bando varia muito, mas era raro exceder cinquenta ou sessenta. Os agrupamentos mais comuns têm vinte a trinta. No tempo das chuvas dividem-se em pequenas famílias e vivem espalhados pelas matas, porque em toda a parte há alimentos com abun­dância. Nessa altura andam gordos, vigorosos, e o pêlo brilha ao sol como aço novo. A erva cresce robusta nas planícies e no meio-sol das matas abertas. É a altura das fêmeas terem os filhos. Andam bem gor­das, bem alimentadas, e o leite enche-lhes as tetas que os pequenotes chupam aos sacões.

 

Quando vem o tempo seco, muda o cenário por completo. A prin­cípio, nas baixas húmidas, ainda se encontram manchas verdes, e para ali convergem os elandes ao cair da noite, mas o sol acaba por secar tudo, reduzir tudo a um amarelo sujo, desolador. Então já não desde­nham os ramos tenros de alguns arbustos.

 

Por fim vêm as queimadas.

 

A planície transforma-se num mar de fogo que avança voraz, des­truindo tudo. As árvores, colhidas pelo incêndio, contorcem-se desespe­radas como seres vivos. As labaredas secam-lhes as folhas, consomem os ramos mais débeis, lambem os troncos. E o fogo passa e as árvo­res ficam para ali torcidas, miseráveis, tisnadas de negro, mas ainda assim vivas, para rebentarem viçosas ao cair dos primeiros borrifos.

 

O caniço, mal seco, apanhado pelo fogo, estoira como o estampido das bombas de S. João. A fumarada sobe nos ares, muito alto, sujando a brancura vibrante do céu com a sua cor negra.

 

A caça miúda foge espavorida. Serpentes, ratos, esquilos, toda a casta de roedores e insectos morrem apanhados pelas línguas do fogo. No ar ardentíssimo, por cima da fogueira, pequenas aves de rapina traçam rápidos e complicados voos acrobáticos, perseguindo insectos voa" dores e pássaros que fogem àquele inferno que avança sem parar.

 

O calor sufoca, falta o ar, e o vento queima como bafo de fornalha, cáustico, perturbante, quebrando todas as energias.

 

Por fim a queimada vai morrendo ao longe, e o mato, a perder de vista, ficou um campo de ruínas fumegantes.

 

Dias depois o capim, teimoso e resistente, começa a rebentar sob a acção da humidade e da cacimba. Nos ramos das árvores espreitam pequeninas gemas verdes; e então os elandes juntam-se novamente e largam, em bandos, ceifando a erva nova e as folhas tenras do arvoredo.

 

Na época do amor, os machos lutam briosamente para a conquista das fêmeas; e, com a sua grande força e chifres bem aguçados, chegam a feri-se gravemente.

 

Apesar da corpulência e do poder dos músculos, são inofensivos. Quando pressentem o homem fogem espavoridos, e se algum deles for ferido não há que recear qualquer ataque. Não obstante a sua vigorosa compleição, aguentam mal a fadiga, principalmente nas horas de maior calor, e não dispõem da resistência dos pequenos antílopes aos ferimentos causados pelas balas.

 

A última epizootia de rinderpest – peste bovina – dizimou por toda a parte milhares e milhares de elandes. Parece terem sido o elande e o búfalo os mais afectados por essa formidável hecatombe que varreu a África do norte a sul, deixando espalhados pela selva, a cada canto, cadáveres de animais selvagens.

 

As manadas refizeram-se, no entanto, dessa mortandade que não teve, apesar de tudo, o carácter exterminador das chacinas levadas a efeito na África do Sul, onde o elande desapareceu por completo, nalgumas regiões.

 

Não há talvez que culpar ninguém. Assistiu-se ali ao fenómeno sempre verificado quando o homem disputa aos animais selvagens a posse absoluta da terra.

 

Depois que o país adquiriu unidade e se organizou, as autoridades chamaram a si os trabalhos necessários para a defesa eficaz das espé­cies ameaçadas, criando reservas de caça modelares: as mais perfeitas e bem organizadas de toda a África.

 

Antes do estabelecimento dos europeus em África, os indígenas perseguiam a caça usando armas brancas e variadas armadilhas, desde o fosso aos laços corredios. Eles não caçavam, como ainda não caçam, por simples exercício desportivo. Movem-nos as necessidades da alimen­tação. Assim, a fauna pululava por toda a parte, porque facilmente se refazia do insignificante desbaste causado por processos tão primitivos.

 

Com a vinda do branco, o panorama mudou. A arma de fogo supe­rava todos os meios antes usados. Mas assim mesmo, se não fosse a profissionalização da caça, os animais não teriam sofrido tão grandes razias.

 

-

Baseado em Animais Selvagens, de João Augusto da Silva -1945

 

Rio de Janeiro, 1/02/2012

 

Francisco Gomes de Amorim

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