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A bem da Nação

O TEMPO

 

 

Bem ou mal empregue

 

 

Acaba o ano, começa o ano, acaba o ano, começa... e quando pensávamos, em crianças, que os anos levariam um monte de tempo – horrível – a passar, hoje percebemos, há muito tempo aliás, que o tempo não conta, e quando damos por isso “voou”, ou “voaram” já uma imensidão deles!

 

No meu caso passaram até mais de 700.000 horas! E às vezes reclamamos quando temos que esperar 20 ou 30 minutos por alguém, ou pelo transporte, ou até por uma refeição pedida no restaurante. Meia hora hoje não representa mais do que 0,00007% do tempo que já vivi!

 

E pensarmos em gente que, determinada a atingir os seus objectivos, em ajuda aos mais desfavorecidos, enfrentam por vezes longas horas, dias, anos e anos sofrendo maus tratos, quando não a morte, sem uma queixa, dando exemplo de humanidade. Que beleza.

 

Lembro a história de uma mulher, que nasceu em 1902 no seio de uma família de trabalhadores, em criança considerada de baixo nível
intelectual e insuficiente aproveitamento escolar, baixinha, sem belezas externas, que começou a sua vida como empregada num loja lá no interior de Inglaterra e depois criada de servir.

 

Um dia, na igreja, ouviu o pastor falar da fome e miséria que assolavam a esmagadora maioria do povo chinês.

 

E logo se decidiu partir para esse tão longínquo quanto estranho e enigmático país, como missionária. Fez um rápido curso de
missionação, findo o qual os/as professoras concluíram que ela não tinha capacidade para... quase nada. E não a deixaram ir.

 

Este golpe não a impediu de prosseguir com a sua ideia e vocação. Numa agência de viagens informaram-na que a passagem para a China, de barco custaria £ 90, e de comboio, atravessando a Rússia, parte da Sibéria, grande parte da Manchúria e norte da China, £ 47,50. As suas economias eram de ... £ 2  e 10 shillings!!!!

 

Falaram-lhe sobre uma missionária escocesa de setenta e três anos, lá, perdida, sozinha, que necessitaria de ajuda, a quem escreveu. Tempos depois recebe a resposta lacónica que dizia que se ela quisesse se apresentasse em...

 

Foi trabalhar de criada de servir, e em todas as folgas conseguia uns trabalhos extras. Não gastou um cêntimo consigo, além de poucas
roupas quentes para atravessar a Sibéria, um cobertor, uma chaleira e uma mala, até ter o dinheiro suficiente. Ao comprar a passagem o agente avisou-a de que possivelmente não poderia mais seguir no comboio! Seria retida lá... nos confins da Rússia, porque começara a guerra com o Japão. Os japoneses estavam já na fronteira da Manchúria!

 

Nada disso a intimidou.

 

Três dias depois Gladys Aylward embarcava em Londres na Liverpool Street Station, levando no bolso pouco mais de duas libras “para
eventuais despesas”, em traveler cheques! Na mala, a roupa, alguns bolos e outros poucos alimentos que ela mesma havia preparado para a viagem que deveria durar uma semana. Durou 28 dias! Atravessou toda a Rússia, teve problemas com as tropas de cada lado, ninguém falava a sua língua, chegando a pensar que seria espiã! Finalmente de Vladivostok passou ao Japão, daqui à China e depois
de um pequeno trecho de comboio, uns duzentos quilómetros em cima de mula até ao destino, em Yang Cheng.

 

 

Não tardou que a velhota missionária morresse e ela ali ficou sozinha. Mas tanto trabalhou e se identificou com os pobres – aquela era
uma região paupérrima – que passou a ter o respeito de todos. Inclusive do mandarim.

 

Chegou a invasão japonesa, dizimando, destruindo e violentando tudo e todos, e Gladys teve que se esconder nas montanhas com umas
dezenas de crianças e alguns convertidos já, sobretudo ex-presidiários, assassinos, ladrões, etc., que a seguiam agora como bons discípulos. Conseguiu sobreviver passando fome e frio. Adoeceu e não se queixou. E levou os seus protegidos numa marcha incrível, através das montanhas, mais de mil quilómetros, onde passaram sem comer dias seguidos.

 

Finalmente conseguiu salvá-los. Pouco depois os japoneses foram vencidos e começou o terror comunista, e com ele nova chacina e caça a missionários, mandarins, estrangeiros, que Gladys deixara de ser porque havia obtido a nacionalidade chinesa. Gladys, fraca aguentou ainda alguns anos até que foi posta fora do país. Religião, para Mao...

 

Voltou a Londres, mas por pouco tempo. Não tardou a regressar, desta vez a Taiwan, para continuar a cuidar de crianças, leprosos e
prisioneiros.

 

Aos setenta anos o seu corpo descansou e a sua alma seguiu o caminho dos santos.

 

Um espanto o que uma mulher da mais simples condição consegue fazer... QUANDO QUER.

 

Para ela, certamente, os anos passaram demasiado depressa, porque ainda ficou uma eternidade de desfavorecidos à espera dessas almas que se incorporam num corpo humano, e nos levam a acreditar que algo continua a poder ser feito.

 

É difícil acreditar nos homens. Mas exemplos destes renovam um pouco de esperança em cada um!

 

Quem quiser, e souber ler inglês (não sei se tem tradução portuguesa), sugiro que leiam “Gladys Aylward – The Little Woman” (pela
Internet, na Amazon.uk, desde o simbólico valor de £ 0,01 + frete). E ainda podem ver o filme, com a Ingrid Bergman – de 1958; a diferença é ser a Ingrid um mulher linda, e não baixinha! (The Inn of the Sixth Happiness), que dá uma ideia... pálida, da luta e trabalhos de Gladys

 

Se fosse católica seria já uma santa. Na igreja anglicana... não sei.

 

E estamos nós a contar os minutos para... para quê? Para ver passar o tempo?

 

 

Rio de Janeiro, 08/01/2012

 

 Francisco Gomes de Amorim

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