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A bem da Nação

S. Tomé e Príncipe

Notas sobre uma viagem de turismo

 

SEGUNDA PARTE

 

Resumo da 1ª parte: Avião cheio, princípio de turismo à séria; estrada a precisar de atenção; Ilhéu das Rolas, paraíso na Terra; escolarização total das crianças; oferta nascente de alimentos locais com benefício imediato para a população residente; formidável ecologia e muito bom acolhimento aos portugueses; futuro risonho.

 

A estrutura rodoviária alcatroada de S. Tomé consiste no que segue: • Estrada nº 1 com cerca de 46 kms na costa ocidental da ilha, entre a cidade de S. Tomé e Santa Catarina; • Estrada nº 2 com cerca de 19 kms entre a cidade de S. Tomé e a Pousada da Boa Vista, junto à roça “Nova Moca”; • Estrada nº 3 com cerca de 97 kms na costa oriental da ilha, entre a cidade de S. Tomé e um pouco além de Porto Alegre, no extremo sul. O périplo da ilha nunca foi feito pela governação portuguesa desde o reinado do nosso D. Afonso V – primeiro rei de S. Tomé – em 1470 até ao último Governo do Professor Marcello Caetano em 1974; até ao momento em que escrevo estas linhas, a governação sequente insiste na opção de não circundar a ilha por estrada utilizável. Mistérios das opções políticas...

 

As últimas estimativas – correspondentes ao ano de 2004 – apontam o número de 150.000 para os residentes no país, ou seja, incluindo a ilha do Príncipe. Para podermos estabelecer um paralelo nesta dimensão, relembremos que em 2001 a Amadora contava com cerca de 176.000 residentes, o Algarve com um pouco mais de 395.000, Cabo Verde tinha na viragem do milénio cerca de 435.000 habitantes e em 2001 residiam em Lisboa quase 565.000 pessoas. Esta questão é importante porque traduz o tipo de problemas que se coloca, nomeadamente na falta de dimensão do mercado doméstico santomense e, portanto, na escassez da oferta. Por evidente falta de massa crítica de operadores económicos, fácil é admitir que sempre exista alguma opacidade dos mercados (por antinomia com a transparência) donde resultem difíceis políticas de formação de preços. Se a este tipo de problemas claramente insolúveis no médio prazo – - se não mesmo no longo -– juntarmos uma moeda nacional que o turista não toca nem sequer vê durante uma semana, então podemos imaginar uma realidade ainda mais penosa quando a quase totalidade da população dispõe de um poder de compra que o coloca muitas vezes à margem da economia monetária.

 

Os melhores edifícios que encontramos ao longo das estradas são as escolas e –- mais importante ainda –- cheios de alunos. Há também que assinalar o enorme número de escolas que encontramos um pouco espalhadas por toda a parte onde o alcatrão nos leva e não foi nem uma nem duas vezes que reparei que ao lado de um edifício escolar a precisar de reforma se estava a construir um novo para o substituir. Acho isto formidável e digno dos maiores encómios. O ensino primário corresponde aos 4 primeiros anos, o secundário aos 6 seguintes e, como já disse, estão espalhados um pouco por toda a parte. Depois disso, existe o Instituto Politécnico na cidade de S. Tomé. Julgo que com esta grande apetência pela educação se pode perspectivar um futuro bastante mais interessante que a situação actual mas temo que as saídas profissionais escasseiem se o modelo de desenvolvimento não se adaptar com alguma urgência a uma população cada vez mais educada e, portanto, mais exigente.

 

Dói visitar as roças de cacau. A “Rio de Ouro”, que era um ex libris do país, foi tomada pelo mato. Diz-se –- e eu ouvi dizer -– que o pessoal rouba o cacau e que o vai vender de seguida aos donos dos cacaueiros. Mas eu conto a história de outra maneira: os donos dos cacaueiros deixaram de ter pessoal assalariado, com vencimentos fixos e prémios de produção; passaram a pagar apenas “à peça” o que significa que cada trabalhador só recebe o correspondente ao que apanhar e, para além disso, recebe um pontapé no traseiro. Até nos capatazes pouparam os novos roceiros. Deixou de haver o “trabalho forçado” de que tanto falam os historiadores mas eu sou mais lacónico e digo apenas que deixou de haver trabalho. E era no tempo dos portugueses que havia exploração . . . Last but not least: a roça “Rio de Ouro” passou a chamar-se “Agostinho Neto”... et pour cause... desencontrei-me dos médicos que servem no hospital... E os do hospital de “Água Izé”? E os dos outros hospitais que havia um pouco por toda a parte e que hoje estão destelhados e tomados pelo mato? As perguntas poderiam seguir quase interminavelmente se quiséssemos continuar a apontar o dedo acusatório à História mas isso seria pura perda de tempo porque eu acho mais interessante não discutir a História e, antes, aprender com ela.

 

Mas se eu faço um esforço para não discutir a História, então também espero que os políticos santomenses façam o mesmo e optem entre dizer mal de Portugal ou pedir a Portugal que tudo faça por S. Tomé. Não faz qualquer sentido ensaiar as duas coisas ao mesmo tempo. É evidente que não paguei os 3 dólares que me pediram para entrar no museu da Fortaleza de S. Sebastião para . . . ouvir dizer mal do meu país. E digo mesmo mais: pobre causa nacional, essa de se ter que dizer mal de alguém para se justificar a si próprio. As nações existem por mérito próprio e não pelos erros dos outros. É claro que não gostei de ver as estátuas dos descobridores com os narizes partidos, tudo porque alguém andou a procurar maus exemplos entre os portugueses para encontrar uma justificação histórica que conduzisse ao corte dos laços com Portugal. O Coronel de Artilharia Carlos de Sousa Gorgulho foi inapto no desempenho das funções de que terá sido incumbido e que desempenhou entre 10 de Abril de 1945 e 17 de Abril de 1953 depois de ter sido desmentido pela PIDE no conluio comunista que o Governador descobrira entre os contestatários à sua actividade governativa. E esta actividade, claramente perversa, já tinha sido há muito redimida pelos Governadores seguintes. E se, por acaso, o não tivesse sido plenamente até à independência, então sê-lo-ia agora pela miséria a que os santomenses estão reduzidos.

 

A viabilização da sociedade santomense não passa pela maledicência de Portugal; passa pela busca de um novo modelo de desenvolvimento.

 

Os políticos santomenses andam muito ocupados na catarse da usurpação dos fundos da cooperação de que mutuamente se acusam, estão alheados das preocupações da população que se debate na miséria de uma monocultura agrícola sem futuro, demoram na instalação do novo modelo de desenvolvimento endógeno que indubitavelmente passa pelo turismo e criam a descrença no sistema democrático que os sempiternos autocratas ansiosamente hão-de querer derrubar. Sobretudo agora que apareceu ouro negro.

 

Apesar de tudo, concluo que as pessoas, o clima e a paisagem foram as causas do meu agrado.

 

FIM DA SEGUNDA PARTE

 

Lisboa, 23 de Fevereiro de 2005

 

Henrique Salles da Fonseca

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