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A bem da Nação

FUNDAÇÃO DO HOSPITAL MILITAR DE S. JOÃO DE DEUS, EM MOÇAMBIQUE - 5

 (*)

Imponente, em 1971 o Hospital Militar estava impecável mas nesta foto, posterior,...

 

O Convento dos Frades foi começado em 1682 por um devoto filho da ilha, homem rico de negócios, chamado João Dias Ribeiro. Foi o primeiro Convento que os Hospitalários fundaram em terras do mar Indico. Construiu-se a igreja e haviam-se iniciado as obras do primeiro lanço do Convento, quando faleceu o benfeitor. Os Hospitalários aceitaram o golpe com a mais perfeita resignação com a vontade de Deus, e resolveram acabar oito celas nesse primeiro lanço, com esmolas que pediram na ilha. Por baixo ficava um claustro com arcos ao poente.


O mesmo piedoso morador da Praça, João Dias Ribeiro, ergueu à sua custa uma pequena igreja de três altares, que pôs debaixo da invocação de São João de Deus. Um desses altares era «capela» instituída por Isabel de Pais, «em dous palmares com duas moradas de cazas», com obrigação de algumas missas e um ofício por ano. A doadora contentara-se com essas graças espirituais e não exigiu sepultura com campa, «armas nem epitáfio».

Um terramoto ocorrido ainda em vida de João Dias Ribeiro derrubou a igreja, que logo foi reedificada pelo seu piedoso instituidor.


A igreja fora dotada, desde a fundação, com alguns objectos de prata — uma cruz, dois cálices, um turíbulo e naveta, uma píxide, umas galhetas, uma caldeirinha e uma custódia.


O hospital dispunha de cem camas, que custaram 142 xerafins ao Feitor da Fazenda de Goa. Desta cidade vieram também 573 xerafins de unguentos, óleos, pós, emplastros, xaropes e outros medicamentos; dois tamboretes, um bufete, um almofariz de latão, uma campainha para a portaria, louças de Portugal e da China, roupas, cem travesseiros e cem almofadas, mantimentos (peixe seco, enchidos, etc.), incenso, «dous livros de quatro mãos cada hum e feitio do livreiro», num total de 15.000 xerafins, chávenas da China para sangrias, etc.


A dotação do Convento-Hospital fora fixada pelo alvará de D. Pedro II, em 3.500 cruzados (cerca de € 1050,00) por ano. Não tardou, porém, a ser considerada diminuta, não só pêlos Religiosos, mas até pelo próprio Conselho da Fazenda de Goa. Os Hospitalários preferiam que se atribuísse «côngrua certa» a cada um, «na forma que se fazia nos hospitais das fronteiras do Reino». Mas a ordem
viera de Lisboa, e o que se pôde conseguir foi uma situação intermédia. O Feitor de Moçambique entregaria ao Tesoureiro do Hospital os 3.500 cruzados em moeda provincial, «pagos aos quartéis», para todos os gastos delle, assim da cura dos enfermos como do seu sustento, e mais fábrica necessária». A cada um dos oito Religiosos que haviam de assistir no hospital daria mais 250 réis por dia «para sua côngrua, e sustentação, dos quais se lhe não pederia conta».


Os medicamentos não entrarão no Alvará da fundação, explicará mais tarde um Governador de Moçambique e por isso, conforme o mesmo informador, «sahião as receitas do hospital asinadas pello Cirurgião e Administrador e hião a hüa botica que havia fora, e com ellas se pagarão os remédios na Feytoria».


As funções de tesoureiro do hospital ficaram sempre adstritas ao cargo de Prelado do Convento, embora se pudesse supor que mesmo pessoa de fora tomasse conta dessa ocupação.


Um jesuíta que a caminho da Índia passou por Moçambique, escreveu em 1688 que vira, entre outros edifícios, o do hospital real com o rendimento de 5.000 cruzados anuais. Cada Religioso recebia 250 reis por dia e o cirurgião-mor, um cruzado também diariamente.


A mesma quantia é assinalada pelo Comissário-Geral da Ordem, Frei Amaro da Anunciada, nas Notícias que mandou à volta de 1724, à Academia Real da História Portuguesa (3T). A Rellação do Cathálogo dos Conventos e Hospitais, que se nos afigura complemento das Notícias de Frei Amaro, assinala 5 500 cruzados, para cura dos enfermos e sustento dos Religiosos, pela Fazenda Real, referindo-se, evidentemente, a data posterior à da fundação, talvez aos últimos anos de século XVII. Elevara-se, pois, a quantia inicial da dotação, porque neste tempo ainda prevalecia o fervor da primeira hora, em que a necessidade e utilidade da obra se costumam sobrepor à consideração dos dinheiros gastos. Essa inversão de valores, também nesta obra se há-de dar a menos de um século da fundação.


Tais foram os princípios do Hospital de S. João de Deus, de Moçambique.

 

FIM

 

António Alberto de Andrade

 

Edição de 1958

http://www.macua.org/livros/fundacaohosp.html

 

A BIBLIOTECA DO MACUA

 

(*) http://www.google.pt/imgres?q=hospital%2Bmilitar%2Bilha%2Bde%2Bmo%C3%A7ambique&um=1&hl=pt-PT&sa=N&biw=1024&bih=735&tbm=isch&tbnid=lvEkZ15PHYbwXM:&imgrefurl=http://aventar.eu/tag/lourenco-marquesmaputp/&docid=RslfnRARgyWLYM&imgurl=http://aventadores.files.wordpress.com/2011/09/207008_139514966122446_100001918301176_270886_3892667_n.jpg%253Fw%253D640%2526h%253D480&w=640&h=480&ei=F1MNT7iMB8OF8gOj-vmtBg&zoom=1&iact=hc&vpx=111&vpy=141&dur=106&hovh=194&hovw=259&tx=168&ty=109&sig=108364103958560163334&page=1&tbnh=121&tbnw=205&start=0&ndsp=22&ved=1t:429,r:0,s:0

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