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A bem da Nação

ÔBA, VOVÓ, ÔBA


Foto: Arquivo particular

Num dia desses, nas férias do nosso chuvoso e quente Verão tropical, acordei na roça com o céu nublado. A luz tênue que trespassava as grossas nuvens deixava o tempo cinza-prateado. Um tufo de ar frio tudo arrefeceu, deixou a rala penugem dos meus braços arrepiada, anunciou a chuva que logo chegou devagar, pingando largo, manhosa, até que caiu de uma vez, balançando a copas das árvores, apagando a vista como um véu.

Ao contrário dos demais, que ali estavam para aproveitar as delicias da liberdade da vida na fazenda, com aquela chuvarada, sentia-me fresca, disposta para o trabalho. Pensei, será que Jung estava certo, será que aquele tempo, húmido, chuvoso, sombrio, através do meu inconsciente arquétipo, reavivava a memória ancestral do meu passado telúrico, ilhéu, há muito vivenciado? Será que ele propiciava aquele bem-estar inexplicável, aquela sensação de ter corpo e mente em completa harmonia, confortável, feliz de estar em "casa"? A
natureza em volta, lavada, sem a vermelha poeira das terras do Triângulo, aparecia em suas cores verdadeiras, brilhantes, reavivadas.

Nessa hora da "faxina" da mãe natureza, os animais se aquietavam, as aves se recolhiam e os cães se aconchegavam, num canto da cozinha, no calor do fogão a lenha.


Como as plantas que medravam no jardim e as gramíneas que verdejavam os pastos, eu me sentia eufórica, revigorada. O ritmo da chuva, agora mais lento e cadenciado, era como música monocórdica, que induzia os convivas à calma, à preguiça, ao recolhimento, enquanto que eu, agitada, corria para o pátio da casa com uma jarra de água para colher o líquido que caía do céu, puro, filtrado pela natureza. Da varanda meus netos me olhavam atoleimados, com uma ponta de inveja, naquela dança primitiva, em busca dos pingos da chuva, toda encharcada, alegre, agradecendo a Deus pela dádiva que nutria os campos ávidos de água, limpava o ar, abastecia os rios e reavivava a minha insular natureza.

Já seca, em casa, depois da exibição que despertou a criançada, ainda desacorçoados, me perguntavam:

- Sem sol, sem cavalos e sem TV (infelizmente agora já há), que fazer aqui num tempo destes?
- Que tal fritar bolinhos de chuva? Respondi.

A criançada arregalou os olhos e, gulosa, respondeu:
- Oba, vovó, oba!

E lá fui eu... e eles, para a cozinha.


 Maria Eduarda Fagundes

Uberaba, 06/01/12

 

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